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Cultura, Literatura e Filosofia

A LÍNGUA, A EVOLUÇÃO E O PALRAR DAS CRIANÇAS

Regina Sardoeira

Não uso o acordo ortográfico por uma série de razões, todas elas bem ponderadas (e nem sequer vou referi-las todas, neste contexto).

Direi, para começar, que, fruto de circunstâncias decorrentes da minha actividade docente, e sendo compelida a escrever sumários, actas e outros documentos afins, respeitando o acordo, percebendo que os manuais escolares usavam o novo tipo de grafia e os alunos já escreviam daquele modo, decidi modificar em pleno o meu modo de escrever.

Não me custou sobremaneira, já que as alterações nem sequer são muito significativas.

Mais tarde, porém, e partindo do conceito de acordo, que implica necessariamente a existência de outros envolvidos cuja escrita deverias reciprocamente adaptar-se, percebi que as diferenças entre os escreventes da língua portuguesa se mantinham – e deixou de fazer sentido para mim um semelhante acordo sem eco nos outros países. Ao mesmo tempo compreendi que o português, mesmo sujeito a variáveis, como é o caso quando se compara com o brasileiro, é sempre português, facilmente compreensível por todas as partes envolvidas. Não me parece que um português e um brasileiro tenham que escrever (ou falar) exactamente da mesma maneira, a partir de um certo momento, quando os hábitos e tradições respectivos engendraram modos diferentes de tratar a língua.

Por outro lado, analisando bem, muitas transformações, em princípio, acordadas, de modo nenhum me pareceram pertinentes. Se, por exemplo, suprimir o “c” a acção ou a acto não me provocou grande repulsa, já escrever “espetadores” em vez de “espectadores” ou “cético” em vez de “céptico” me produziu calafrios. Olho para estas duas palavras, assim escritas, sem o “c” e sem o “p” e não me parecem correctas. O que é um “espetador”? Algo que se destina a “espetar” ou alguém que assiste ao cinema, por exemplo? E um cético, sem o “p” ainda será mesmo céptico?

Há aquela ressalva de que se pronuncio uma determinada letra, numa determinada palavra, por exemplo em “facto”, devo usá-la na escrita também. Ora, eu pronuncio “espectador” com todas as letras; logo, eu devo escrever assim; mas outro escrevente que não costume pronunciar o “c” pode escrever, sem prejuízo algum, espetador.

E então, parece-me que escrever de uma forma ou de outra, nesta e noutras palavras, fica absolutamente ao critério de quem usa a língua – mal ou bem.

A supressão de acentos em certas palavras também me causa algum desconforto. Noto, por exemplo, a palavra “veem” e não sei muito bem que regra foi inventada para que a leia “vêem”, já que o acento circunflexo fecha a vogal. Sem acento, como sabemos que é necessário fechar, na pronúncia, o primeiro “e”?

Estes e outros, muitos outros exemplos da arbitrariedade de um acordo sem acordantes cujas linhas não vou analisar em detalhe por não ser esse o meu intuito, levaram-me a arrepiar caminho e a abandonar a grafia que já tinha adoptado.

Acabei por perceber que, afinal, cada um escreve como quer, como sabe, como pode. Vejo que o conceito de erro ortográfico está em vias de extinção pois cada um pode arranjar desculpas para escrever à sua maneira, invocando o acordo que não conhece…porque, verdadeiramente, mesmo as explicações dos linguistas acerca do tema são confusas e parciais.

E então, hoje escrevo prazenteiramente ou prazerosamente ou sei lá o quê, com absoluto desrespeito por esse arrazoado que dá pelo nome de acordo ortográfico. Escrevo, como sempre o fiz e uso palavras de que gosto, escritas como aprendi e de que me habituei a gostar, desse modo escritas, e não escrevo muitas outras porque são feias, mesmo se estiverem na moda e forem muito profundas.

Aliás, levarei mais longe a minha vocação filológica e vou começar a inventar palavras (minto, já comecei), termos que não existam ainda mas me façam falta para exprimir, exactamente, uma ideia ou um objecto ou uma situação…porque não?

E comecei a fazê-lo já há muito tempo, quando quis juntar a filosofia à vida, crente de que o amor à sabedoria é muito menos importante do que o amor à vida. Surgiu-me a palavra Filóbia, assim mesmo, unindo o amor e a vida, num novo estudo prático, pelo qual os estudiosos poderiam amar, não a sabedoria que é muito extensa, vaga e abstracta, mas a vida, que lhes diz intrinsecamente respeito e que devem, acima de tudo, amar.

Sei que a linguagem dos homens serve, em primeiro lugar, para o acto da comunicação; mas também sei que as outras linguagens de todos os outros viventes cumprem a mesma função. A comunicação pode fazer-se segundo as normas linguísticas ou cometendo erros, usando belas e inspiradas palavras ou não respeitando a estética de modo nenhum. Por mim, prefiro a correcção e a estética, gosto de perceber que caminhos seguiu um determinado termo desde a sua origem até ser como se me apresenta. Sei ainda que a linguagem e a língua são organismos vivos, sujeitos a mutações, a usos e a desusos e que não temos qualquer poder ou direito de impedir essa trajectória.

Porém, e essa é outra razão pela qual vim a rejeitar o acordo; não são os decretos, as imposições, as leis que dinamizam a língua fazendo-a evoluir mas sim, antes de tudo, o palrar infantil que nos apressamos a corrigir e traz em si a semente da mudança.


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