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Cultura, Literatura e Filosofia

ALIENAÇÃO E DEMÊNCIA

Regina Sardoeira

Ela estava a falar de animais irracionais complexos e de demância e de repente surgiu o trabalho assim, de supetão, na linha directa dos últimos pensamentos. E foi então que começou a pensar na estranheza dos hábitos humanos e das suas acções, no modo absurdo como conduzem as vidas, atribuindo racionalidade ao que não passa da mais animalesca das misérias… e logo, sem aviso prévio, o pensamento de Marx luziu no fundo do túnel da sua mente, sempre vária, sempre em busca de ilações e sinais.

O homem subiu acima da besta, diz o nosso teórico-prático do comunismo científico, porque inventou uma forma de estar na natureza mais para além da estrita luta pela sobrevivência, que é a única actividade dos bichos, dizem que instintiva. Ao contrário deles, que nada fazem a que possa tal denominação ser aplicada, o homem inventou o trabalho, ou seja, um conjunto de actividades mais adequadas à especialização e desenvolvimento do seu cérebro que a mera luta pela sobrevivência, inventou-o para transformar criadoramente a natureza, aplicando nela o seu talento e desenvolvendo-se dialecticamente nessa relação.

Mas eis que o trabalho, o genuíno trabalho, essa fome de desbravar novos mundos , essa ânsia criadora nascida gradativamente, se alienou, e esta palavra alienar ou tornar alheio fez com que a tarefa nobre de criar e desvendar se mutasse ignobilmente em fonte de sobrevivência, em luta pelo salário, em ganância. Deixou de valer por si, deixou de constituir-se como um fim, para ser o meio e, muitas vezes ( a maior parte), o meio odiado e temível de poder sobreviver . E então o homem, essa besta irracional complexa, vai buscar a realização de si, enquanto pessoa, aos tempos livres, às horas de lazer ou seja quando come, quando dorme ou quando fornica!

O trabalho, essa invenção criadora que elevou os homens acima dos outros animais, afeiçoando prodigiosamente a mão, a vista, todos os sentidos e também o intelecto não passa de rotina inglória e subjugada a horários e limites, não é mais do que o meio, onde a força criadora é escravizada e prostituída a troco de um soldo, vário, ainda por cima, consoante padrões humanos, mais absurdos que a alienação primária do trabalho em si mesmo, e a suprema satisfação da humanidade, no seu todo, e do indivíduo em particular, vai ser obtida nos momentos em que se solta o suspiro de alívio porque terminou a actividade e começa a liberdade!…

Triste liberdade. essa, em que os humanos se amontoam nas estradas para buscarem os locais da dormência ou da orgia, triste liberdade, essa, em que os humanos se empanturram, indo muito para além da necessidade elementar da sua nutrição, em que os humanos buscam o outro sexo, não para procriar, mas para satisfazerem impulsos bestiais!

Afinal, eis a alienação de que falou Marx no século XIX, sem poder ver, mas sabendo, ao estilo profético de todos os criadores de utopias, que quanto mais o tempo corresse e menos o homem fizesse para se auto-dignificar, mais se veria desumanizado, crendo exactamente no contrário e, por isso, duplamente ou centuplamente alienado!
Incapaz de eximir-se por completo à lógica do seu tempo e, vendendo, como todos, a sua força de trabalho, ela separou cuidadosamente a tarefa da sobrevivência, da tarefa criadora e nunca pôde chamar, de facto, TRABALHO às horas de lazer que o trabalho alienado lhe deixou!

Claro que ninguém a entendeu no mundo perverso e pervertido onde precisa de viver, ninguém entendeu, por exemplo que ela não pode subverter a filosofia mesmo quando a isso querem obrigá-la tratados, manuais, planificações e programas e que, em cada dia que passa, é genuinamente filósofa quando ensina, ainda que os próprios discípulos o não entendam de imediato; ninguém a entendeu também quando ela abdicou de tarefas menores, essas mesquinhas obrigações do quotidiano voltadas somente para a sobrevivência, no que ela tem de mais ordinária e especificamente animal, para usar o seu tempo na criação de beleza, na reprodução do pensamento, na sementeira da palavra; ninguém a entendeu também quando ela expulsou benfeitores ou candidatos a donos, para poder usar proficuamente os seus talentos nas únicas tarefas que de facto a enunciam enquanto pessoa.

Mas que importa que não a entendam, que importa que viva só e que os seus bens ameacem decair, que importa que não ganhe qualquer remuneração em função do seu talento, que importa que, rainha de seu nome, não tenha coroa, nem ceptro, nem manto, esses pobres atavios fanados dos nobres alienados do mundo que ela não quer? De seu nome e no seu âmago, ela sabe que a realeza lhe foi outorgada, não como benesse do sangue e logo urdida numa hereditariedade de que não seria responsável, mas construída na demência-lúcida do seu cérebro e do seu espírito, abertos e sublimes, radiosos e grandiloquentes, mesmo que certas ratazanas do esgoto do seu palácio arruinado a queiram reduzir ao plebeísmo a que para sempre pertencerão. E a ele pertencerão, não, uma vez mais, pelo sangue, e logo por uma hereditariedade não consciente, mas pela falta de vigor e pela rendição ao comércio, onde ignobilmente se alienam como qualquer peralvilho, amanuense, escriturário ou falsificador…neste momento porque não lhe chegaria o tempo e o espaço para semelhante proeza!


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