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Cultura, Literatura e Filosofia

HISTÓRIA BREVE DE UM ROMANCE

Regina Sardoeira

Antes de ser a professora de Jazente, a jovem Maria Constança deu aulas noutras terras. Primeiro, Fridão, a seguir, Lomba e depois, durante nove anos, na escola primária da Folhada, Marco de Canaveses. É extraordinário perceber que, ainda hoje, volvidos mais de setenta anos, a vida itinerante continua a ser uma das notas principais da carreira docente, esta instabilidade que os professores conhecem e que os impele daqui, para ali, pelo país fora, em busca de uma escola onde sejam efectivos. Setenta anos – e o problema parece ter-se agudizado, ao invés de resolver-se.

Entretanto, nasceu o romance; e de romance irei, efetivamente, falar, pois os pormenores desta história, aqueles pequenos nadas que são tudo quando o tema é amor, escapam-me, quase por completo, enquanto narradora. E sei muito bem porquê.

Houve um tempo (e eu vivi-o), em que havia uma reserva grande entre pais e filhos no que a certos assuntos dizia respeito. Não era absolutamente nada comum o filho encarar o pai ou a mãe, ou os dois ao mesmo tempo, e perguntar, sem rebuços: “Ora contem-me lá como se conheceram!” Mais: “Como e onde namoraram, o que diziam um ao outro” Ou: “E o pedido de casamento? Aconteceu onde, quando e como? E depois? “

Por muito extravagante que possa parecer, nestes tempos em que todos contam tudo acerca de tudo e a intimidade anda por aí desvendada, a torto e a direito, naqueles tempos não era assim.

Os pais diziam aos filhos muito pouco de si mesmos, enquanto casal, e os filhos não eram capazes de perguntar.

Não sei exactamente explicar por que se passavam deste modo as relações entre pais e filhos, tão pouco posso garantir que, na época, outras famílias não tivessem maior abertura reciproca em domínios tão privados. O que sei é que, ao tentar perceber, para narrar, os episódios do romance entre a minha mãe e o meu pai, encontro enormes lacunas.

Sei que ambos frequentaram o Colégio de S. Gonçalo em Amarante e presumo que, muito naturalmente, a rapariga mais bonita que o frequentava (e esta afirmação não é, de modo nenhum, um mito) terá impressionado o jovem Luís. Suponho que terão trocado olhares e sorrisos, sempre a uma respeitável distância; e sei que, do segundo andar de uma casa que ainda existe na Rua 31 de Janeiro, em Amarante, cujas janelas e varandas dão para o Clube Amarantino, a menina Constança, em dias de festa , ali se debruçava e via, do outro lado, o jovem Luís. Trocavam sorrisos, acenos, não creio que atirassem beijos (mas posso inventá-los ou acreditar que lhes iriam na vontade.).

Não acredito que tivessem alguma vez passeado sozinhos. Ela era recatada, recebera uma educação vincadamente religiosa, as freiras exerciam um cerco apertado e os pais de modo nenhum dariam o seu consentimento.

Terão trocado bilhetes? Cartas? Talvez. Mas cada um deles, ou os dois em conjunto, suprimiram-nas de olhares indiscretos, se é que de facto houve tal correspondência.

Existem alguns postais, escritos por ele à amada, com imagens de locais de férias onde ele ia no Verão (a Figueira da Foz era um desses destinos); mas são de conteúdo extremamente lacónico. O namoro ou o noivado vinha ali anunciado pelo modo como ele concluía o texto: “ Do teu, Luís.”.

Este jovem, Luís Sardoeira, natural de Canadelo, era dado a largo convívio com um número razoável de amigos e primos, frequentando os cafés da então vila de Amarante e tocando guitarra. A clássica, também chamada violão e ainda a guitarra portuguesa do fado. E ele cantava, lindamente, o fado coimbrão.

As serenatas com que os rapazes se declaravam às suas eleitas eram frequentes. E tudo isso acontecia pela calada da noite, quando as meninas estavam recolhidas e o pretendente, com o grupo de amigos necessário, afinava a garganta e a guitarra e declarava assim o seu amor. As consequências nem sempre eram favoráveis ao bardo pois, coagida pela família ou desinteressada, a rapariga não aparecia à janela e o pretendente não era convidado a entrar.

Ora, pelo menos uma vez, o destemido Luís ousou ir até Jazente numa noite que, não sei porquê, imagino invernosa, mas límpida, e soltar nos ares quietos e frios os seus trinados de amor.

A aldeia estarreceu com semelhante arrojo e não poderei dizer se se abriram muitas ou poucas janelas sobre as cabeças dos trovadores. Parece que a sessão correu bem para os dois lados; a jovem requestada pôde vir à janela, os pais abriram a porta e todos celebraram o momento com uns cálices de Porto.

Imagino que uma das quadras desse fado, entoado pela voz cristalina do cantor apaixonado, terá sido esta:

Quando estavas na Igreja

A teus pés ajoelhei

À virgem por mim rezavas

À virgem por ti rezei.

Muitas vezes ouvi o meu pai cantar, nos momentos em que o ânimo artístico lhe acontecia, esta e outras letras típicas dos fados de Coimbra; e é por isso que suponho ter sido esta uma das quadras ouvidas na célebre serenata dessa noite.

Poderá ter sido esse o dia em que o noivado foi firmado e o casamento decidido. E, talvez por me terem dito que a festa que os uniu aconteceu no dia 28 de Dezembro de 1946, eu associe a célebre serenata a uma noite fria de outono com um céu recamado de estrelas. Esta é, pois, a minha ideia do romantismo inerente ao compromisso dos meus pais: umas guitarras a trinar, uma voz terna e muito afinada, uma escuridão quase plena, um alvoroço feliz.

Reconheço que esta narrativa, deste modo reconstituída, parece fria e resumida.

Reconheço que afirmar que os meus pais me disseram que o casamento aconteceu no dia 28 de Dezembro de 1946, e não haver nenhuma referência a festejos de aniversário de casamento ou bodas de prata, por exemplo, pode soar estranho num tempo em que se fazem festejos a propósito de tudo e de nada e há bodas nupciais de não sei quantos géneros.

Provavelmente certos acontecimentos posteriores farão luz sobre as razões profundas deste quadro austero passado dos pais para os filhos e que é o único, por consequência, que sou capaz de evocar.

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