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Saúde e Vida

ACNE – UMA DOENÇA DE TODAS AS IDADES

Paulo Morais

Grupo Trofa Saúde (Alfena, Vila Real); Excelis Saúde (Lamego); Ponte Saúde (Amarante); Fisioskin (Porto); CHTMAD (Vila Real)

 Definição. A acne é uma doença inflamatória crónica da unidade pilossebácea (glândulas sebáceas e folículos pilosos), sendo uma das patologias dermatológicas mais frequentes. Apesar de não ser uma patologia grave, a acne apresenta um impacto psicoemocional importante, acompanhando-se de diminuição da autoestima que pode conduzir ao afastamento social e, em casos extremos, à depressão e ideação suicida. Os custos socioeconómicos do tratamento da acne são substanciais.

Epidemiologia. A acne acomete ambos os sexos, mas geralmente os homens são afetados pelas formas mais graves da doença. Cerca de 85% dos indivíduos entre os 12 e os 24 anos são afetados por esta dermatose. No entanto, também existe acne noutras idades, como no período neonatal e na idade adulta. De facto, mais de 40% das mulheres são afetadas pela acne depois dos 25 anos. Num estudo realizado em Portugal, constatou-se que cerca de 80% dos indivíduos dos 10 aos 12 anos sofriam de acne, com predomínio do sexo masculino. Curiosamente, apenas 44% dos doentes fazia algum tipo de tratamento.

Etiologia. A etiologia da acne é complexa e multifatorial e inclui a predisposição genética, fatores raciais, fisiológicos e hormonais (efeito das hormonas masculinas, alterações hormonais durante a gravidez ou relacionadas com o uso de anticoncetivos orais) e a utilização de determinados medicamentos (ex.: corticóides, androgénios, lítio, etc.). A limpeza excessiva da pele com agentes irritantes, o stress, o uso de cosméticos gordurosos e a fricção da pele (ex.: telemóveis e capacetes) e alimentos ricos em carboidratos podem agravar a acne. Embora não exista nenhuma ligação científica incontestável entre a alimentação e a acne, alguns dados sugerem que produtos lácteos e alimentos de alto índice glicémico podem aumentar a prevalência e gravidade da acne.

Um estudo do Instituto Dermatológico San Gallicano, de Roma, demonstra que as fumadoras estão em risco de desenvolver uma nova patologia, a que dão o nome de “acne dos fumadores”. De facto, num grupo de 1000 mulheres entre os 25 e os 50 anos, 41% das fumadoras tinham acne (contra 10% das não fumadoras). Outro estudo, publicado no British Journal of Dermatology, conclui que fumar na adolescência quadruplica a hipótese de manter acne na idade adulta.

Na patogenia da acne temos de considerar quatro fatores básicos: aumento da secreção sebácea, obstrução do folículo pilossebáceo, infeção pela bactéria Cutibacterium acnes e inflamação secundária.

Aspetos clínicos. Clinicamente, a acne carateriza-se por lesões não inflamatórias (comedões fechados e comedões abertos ou “pontos negros”), lesões inflamatórias (pápulas, pústulas, nódulos e quistos) e cicatrizes, muitas vezes relacionadas com a manipulação impulsiva das lesões. As áreas mais afetadas são a face, pescoço, peito, costas e ombros, locais com maior concentração de folículos pilossebáceos. Geralmente, o diagnóstico de acne não é difícil, sendo o quadro clínico bastante típico, com lesões e sintomas locais característicos e ausência de manifestações sistémicas. Deve, no entanto, ser distinguida de outras doenças cutâneas potencialmente confundidoras, como a rosácea, foliculites, dermatite perioral, erupções acneiformes e tumores cutâneos benignos.

Tratamento. Na atualidade, não existe qualquer tratamento curativo para a acne. No entanto, as opções terapêuticas disponíveis podem ser bastante eficazes no controlo da doença e na prevenção da formação de novas lesões e sequelas da doença.

O tratamento da acne deve ser individualizado e, de um modo geral, deve ser prolongado, não sendo visíveis resultados antes de 4–8 semanas de tratamento. A escolha depende da gravidade da doença, da forma clínica, do sexo e idade do doente, da tolerância, da resposta a tratamentos prévios e do poder aquisitivo dos doentes.

Os medicamentos podem ser de aplicação local (retinóides, peróxido de benzoílo, antibióticos, ácido azelaico, etc.) ou orais (antibióticos, contracetivos orais, isotretinoína ou antiandrogénios).

A limpeza e hidratação da pele acneica é fundamental na rotina de cuidados diários. Devem ser utilizados dermocosméticos específicos para pele acneica (hidratantes, maquilhagem, protetores solares, entre outros), com a designação oil free, à base de água ou não-comedogénicos. Uma vez que na maioria dos casos a pele é oleosa, devem ser utilizados produtos fluídos e matificantes, que regulem o excesso de oleosidade e o brilho da pele.

Alguns tratamentos tópicos podem ser irritativos para a pele, pelo que pode ser recomendável a sua aplicação numa pequena área, antes de serem aplicados na totalidade da área afetada, ou um início gradual (ex.: 1 ou 2 vezes por semana) até atingir o uso diário.

Embora a acne não seja resultante de uma infeção bacteriana, os antibióticos são usados no seu tratamento por apresentarem propriedades anti-inflamatórias e atingirem a bactéria C. acnes. No entanto, o seu uso intensivo levou ao aparecimento de estirpes resistentes de C. acnes, tornando o tratamento de acne cada vez mais difícil.

A isotretinoína é um derivado da vitamina A indicado para a acne grave, nodular e inflamatória, ou quando outros tratamentos falham. Embora sendo um tratamento altamente eficaz, tem o risco de causar efeitos laterais não negligenciáveis, pelo que deve ser prescrito sob vigilância de médico dermatologista ou com experiência no manuseamento do fármaco e dos seus efeitos laterais.

As cicatrizes de acne podem ser tratadas com recurso a lasers, microdermoabrasão, terapia de indução do colagénio ou microneedling, peelings químicos ou materiais de preenchimento.

Conclusões. A acne é uma doença crónica, podendo durar vários anos. Não tem cura no sentido estrito da palavra, mas pode ser prevenida, reduzida e controlada. O mito de que não vale a pena tratá-la pois “é normal e passa com a idade” não corresponde à realidade. De facto, sem tratamento, muitos casos terão uma evolução desfavorável, com risco de cicatrizes permanentes, inestéticas ou mesmo desfigurantes e impacto psicossocial importante, redução da autoestima, dificuldades de socialização significativas e risco acrescido de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. Essa evolução será incomum se a intervenção terapêutica for precoce.

 


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