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Cultura, Literatura e Filosofia

O MEU PAI, LUÍS SARDOEIRA

Regina Sardoeira

Guardo, do meu pai, memórias antigas e novas.

As primeiras falam-me de um homem alegre e brincalhão, receptivo às mudanças, pronto a fazer qualquer esforço para garantir que a família vivesse confortavelmente. Depois do meu irmão, doente e motivo de preocupação, nasceram duas meninas com intervalos de, aproximadamente, três anos.

Foi necessário, a partir de certa altura, pagar uma mensalidade elevada num Colégio de Reeducação Pedagógica, em Lisboa, único lugar, no país onde havia esperança de reconduzir a criança à normalidade. O vencimento do meu pai, funcionário da Caixa Geral de Depósitos, garantiu esse pagamento. E, durante os anos em que ele esteve internado, precisámos de viver apenas com o ordenado de professora da minha mãe, Maria Constança.

Curiosamente, mesmo conhecendo as vicissitudes familiares, nunca senti que passássemos privações: pelo contrário. Os meus pais garantiram-nos uma infância feliz e creio que ambos se uniram na tarefa que lhes coube de ultrapassar o desgosto e a dor trazidos pela doença do primogénito e criar um bom ambiente para todos.

A minha mãe trabalhou durante nove anos na escola da Folhada, Marco de Canaveses. Não havia transporte público e ela tinha que percorrer o caminho a pé, desde Jazente, fosse inverno ou fosse verão. Fê-lo, diligentemente, ainda que perpassem nas suas memórias desse tempo alusões às trovoadas que, de vez em quando, a apanhavam em campo aberto. E o meu pai, que à época conduzia uma estrepitosa mota Royal Enfield, levava-a até à escola de manhã por estradas poeirentas ou enlameadas.

Criaram-nos assim. De um lado, a doença do meu irmão, longe de nós, as idas a Lisboa, em visita, a correspondência do director do Colégio, com a lista crescente de despesas adicionais; do outro, as duas filhas, saudáveis e fortes, estimuladas, dia após dia para um desenvolvimento pleno. Creio que, afinal,  souberam, em conjunto, lidar com os reveses.

O meu pai precisava de ir frequentemente a concurso, para progredir na carreira. Lisboa foi o destino que algumas vezes lhe coube nessa escalada pelo crescimento – ele, que era uma parte importante na receita familiar.

É deste modo que evoco o pai da minha infância: carinhoso, afável, de pose discreta. Empreendedor e dado às artes, contribuiu muito parra o desenvolvimento de Jazente, transformada na sua terra de adopção. Mas eu percebia também que o brilho dos seus olhos aumentava quando falava em Canadelo e na mãe, essa viúva de corpo miúdo, parada no tempo.

Gostava de nos levar para lá, nas férias de Verão, para terror da minha mãe, pois a aldeia não tinha electricidade, os carros tinham que ficar a 500 metros da casa, e o médico, se fosse preciso para atender crianças pequenas, vivia a 16 quilómetros de distância. Mas ele amava aquela rudeza que lhe deu a vida e uma infância livre, falava-nos das candeias de azeite com que se iluminavam as casas e que os caminhantes transportavam para alumiar o caminho, das tardes de pesca no rio Olo, muito puro e cristalino, das minas de cal que pertenceram ao pai, nosso avô, das terras com oliveiras que produziam um azeite puríssimo, e fazia com que as filhas aprendessem a amar os sítios que eram dele.

Havia uma gruta, com estalactites e estalagmites, num sítio chamado Subrido; e um dia, contra a vontade da minha mãe, apavorada por ver-nos a desaparecer no ventre da terra, levou-nos a ver a maravilha.

Descobriu-a com o irmão, Ilídio Sardoeira, numa tarde em que observavam os pássaros e perceberam que, num certo local, eles entravam numa fenda e não voltavam a sair. Seguiram-lhes o rasto e, alargando o rasgão na terra, desceram uma rampa que iluminaram com a luz de um fósforo; perceberam, então, que tinham feito uma descoberta imensa! Exploraram-na depois, juntos e em segredo; haviam decidido mantê-la só deles, com receio que lhes estragassem o pequeno paraíso. Não sei que destino teve a gruta de Subrido; mas creio que nenhuma Junta de Freguesia ou autarquia teve algum dia conhecimento deste pequeno tesouro do meu pai.

As segundas memórias, a que chamei “novas”, ainda que tenham bastante mais de 25 anos (ele morreu em 1994), retratam um homem ensimesmado.

Com efeito, o meu pai, alegre e empreendedor, sempre em luta por melhores condições de vida e de carreira, ascendeu ao posto máximo do seu trabalho, tornando-se gerente da Caixa Geral de Depósitos, em Amarante. Antes, vivemos no Porto, para onde os dois se transferiram e onde adquiriram uma casa, querendo acompanhar as filhas nas carreiras universitárias.

Creio que foi a reforma a razão fundamental desta virada para dentro que acometeu o meu pai.

Ele era sociável e contava com um número considerável de amigos; era um excelente funcionário e nunca se poupou a esforços para ajudar a subir aqueles que recorriam aos seus serviços. Mas quando se retirou para a casa que amava, em Jazente, e onde foi fazendo melhoramentos, cessou toda a sua vida social.

Quando o visitava, encontrava-o, invariavelmente, sentado num banco de madeira que ele próprio havia construído, a fumar e a contemplar a natureza ou perdido pelo quintal a plantar novas espécies. Por iniciativa dele, temos hoje em casa uma portentosa ramada de kiwis que, para além dos frutos, dão uma sombra magnífica nas traseiras ensolaradas da casa.

Porém, a partir de certa altura, o olhar dele denunciava desgostos secretos, mágoas imponderáveis de que nunca falava.

Deixou de ser fácil conversar com o meu pai. Crente de que ele se refugiara num mundo só seu, eu evitava (e os outros também) invadi-lo muito. Sentia o crescente isolamento de um homem pleno de força, até ter suprimido a rotina do trabalho; decerto precisava desse impulso vital e eu compreendo-o bem agora.

Um dia, no último Natal que passou connosco, em Dezembro de 1993, portanto, vi-lhe nos olhos uma angústia suprema e tremi: pareceu-me um olhar de súplica, senti que ele não viveria muito mais e que aquela era uma forma de mo anunciar. Mas como a família toda, ali reunida, procedia normalmente, sem réstias de preocupação, atribuí o sentimento inicial a uma percepção ilusória e decidi não pensar mais no assunto.

Vi que ele, silencioso durante a refeição, tomou a palavra em determinado momento e fez um pequeno discurso em que manifestava o grande anseio que tinha de que o nome continuasse. pela via de um herdeiro. Ora, apenas o meu irmão, nascido alguns anos depois das duas irmãs, poderia dar azo a um tal desejo. Vi-o depois, sentado num sofá, de costas para toda a família que distribuía os presentes tradicionais, no meio do bulício de várias crianças; e ele não quis associar-se minimamente à ocasião, recebendo em silêncio as prendas que lhe tocavam.

Morreu menos de dois meses depois desse Natal, no dia 13 de Fevereiro de 1994.

Ele não estava doente do corpo, pelo menos que nós víssemos. Nunca, em toda a vida, aquele homem ficou de cama, doente, nunca faltou ao trabalho e, mesmo no dia que antecedeu a morte e teve uma indisposição, recusou com veemência o médico que a minha mãe tinha chamado.

Nenhum de nós sabe, exactamente, de que morreu ele. Sei apenas que a minha mãe o encontrou, à tarde, após a sesta (que gostou sempre de dormir) muito debilitado, chamou o médico, que, dessa vez, veio e o fez ir para o hospital numa ambulância, Sei que tentou recusar e também que, sentindo já a agonia, pediu um cigarro – que lhe foi negado. Morreu quinze minutos depois de chegar ao hospital e foi a mim que o médico de serviço telefonou dando, abruptamente, a notícia.

“Ele chegou aqui digitalizado…” – disse ele – e não foi possível fazer nada”.

Só mais tarde vim a saber que ele tomava um tónico cardíaco, cujo elemento principal era a digitalina, e que, não havendo certos cuidados na sua administração podem ocorrer episódios graves de intoxicação. Depois de saber os sintomas que o acometeram nessa crise final, consultei a bula do medicamento e percebi o significado do termo “digitalizado” que o médico usou para se referir à causa da morte do meu pai.

No segredo mais profundo ficaram os gestos que o meu pai terá feito nessas horas finais, o impulso que o terá levado a tomar a dose fatal.

Morte voluntária, a coroar um cenário de depressão e ansiedade disfarçadas? Tentativa desesperada de melhorar em momentos solitários em que sentiu o coração a bater num ritmo anormal?

Procurei perceber a solução deste dilema. Torturei-me perante aquele desfecho da vida de um homem que se havia ensimesmado, numa reclusão, tida como voluntária. E, recordando o olhar de súplica que ele me lançou naquele último Natal, lamentei não ter vencido uma espécie de timidez e de respeito pela personalidade dele e chegar ao ponto de o fazer enfrentar a vida. Decerto, ele precisava dessa solidariedade, decerto, ele queria que a família rompesse o boqueio que, de facto, deixava transparecer. Mas guardou tão bem o seu segredo vital que ninguém quebrou o cerco, ao menos para entender o vigor dos fantasmas que lhe acossavam a solidão.

Durante um ano debati-me com este imenso problema e assisti ao nascer, em mim, de uma grande depressão. Recorri ao médico. Ele percebeu o meu mal e tratou-me dizendo-me, contudo, que os fármacos não eram suficientes e que eu teria de resolver os meus conflitos.

Fui encontrando estratégias de solução, de mim para mim mesma. Escrevi várias cartas ao meu pai e entreguei-as ao mar dentro de uma garrafa. Assimilei lentamente a morte daquele que foi a raiz de mim e aprendi a conviver com a sua falta. Vencida a resistência inicial de voltar à casa onde pairava a energia dele, pude regressar e conviver harmonicamente com ele, através do seu legado. Agora, a rua onde ele viveu chama-se Luís Sardoeira, o seu nome, e é com júbilo que dou de caras com a placa que deste modo o homenageia. E vejo ainda que o desafio final presente no discurso dessa reunião familiar, onde ele falou de um herdeiro e da continuação do seu nome, veio a cumprir-se já que o meu pai tem agora um neto que recebeu o seu nome e que, mesmo nunca tendo conhecido o avô, compreende, ao seu jeito infantil de criança de cinco anos, a herança que transporta.

Quanto a mim, penso, às vezes que decerto ele sentiu, perante os altos e baixos da minha vida, que a segunda filha, primogénita de certo modo, dada a doença do primeiro filho, poderia ter-lhe dado mais alegrias.

Creio que ele não me compreendeu inteiramente algumas vezes. Vejo-o, zangado, a percorrer a sala da nossa casa, com o caderno dos meus poemas na mão, dizendo: “Mas porquê esta revolta? Porquê estas palavras tão sofridas?” Por outro lado, quando me foi buscar ao internato, de onde, após muitas fugas ao regulamento (impiedoso, note-se!) me fizeram sair à força, ele levou-me a almoçar a um dos melhores restaurantes do Porto, preparou-me para a notícia e para a inevitável tempestade que a minha mãe faria, quando chegássemos. Soube que, afinal, ele compreendeu o erro de fecharem num austero internato uma criança e depois uma adolescente cheia de vigor. Mais tarde, vendo a minha necessidade de ser independente, perguntou-me se gostaria de dar aulas. Eu estudava ainda no 3º ano da faculdade; mas agarrei a oportunidade e aceitei com regozijo aquela dádiva que me levou a viver sozinha e noutra cidade, pela primeira vez na vida.

Imbuída de certas ideias muito próprias do meu espírito rebelde e vendo que pouco importava ter ou não ter o curso de Filosofia, decidi não concluir a licenciatura e muito menos optar pela carreira docente.

Um dia, porém, supondo que o meu pai ficaria orgulhoso de mim, finalmente, fiz, sem qualquer esforço as duas cadeiras adiadas durante algum tempo, e concluí a licenciatura. Por ele. E nunca me arrependi.


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