Cultura, Literatura e Filosofia

LEITURAS DE MARÇO

Anabela Borges

A primavera carrega todo o seu esplendor. No ar, paira o odor de um tempo que se eleva forte das entranhas da terra, a repuxar o fulgor da natureza aos seus valores mais elevados, em flores, rebentos, insectos, pólenes. E livros.

Em Março, celebra-se a leitura, os leitores, o livro.

Cada vez mais, por todo o país, escolas, bibliotecas e municípios dinamizam a Semana da Leitura. Mas como entender este louvável fenómeno, se estudos e notícias dão conta que “Temos os níveis de leitura mais baixos da Europa a 27”? Mais: nos seus estudos, o investigador José Soares Neves, no “Observatório das Desigualdades”, para o Eurobarómetro, refere que “Portugal situa-se frequentemente nos últimos lugares nos estudos internacionais sobre participação cultural”. Em grande parte, os baixos índices são atribuídos à crise, mas não podemos esquecer as sucessivas políticas levadas a cabo, políticas que pura e simplesmente, renunciam o bem cultural comum.

Tanta feira, tanto livro, tanta biblioteca, mas tão pouca leitura, porque os que lêem são sempre os mesmos, os que já tinham hábitos de leitura, que os ganharam de alguma forma, ou os criaram por si sós. Difícil é criar novos hábitos, formar novos leitores.

Temos elevadíssimos índices de utilização de computadores e telemóveis por estudantes nas escolas e de utilização de jogos electrónicos por crianças, jovens e adultos.

Também não podemos esquecer que os preços dos livros são muito elevados, comparativamente com outros países. Por outro lado, temos também o entendimento à moda portuguesa daquele que pode não olhar a dinheiros quando toca a adquirir um “gadget”, um novo brinquedo tecnológico que, muitas das vezes, utilizará apenas para lazer, para encher a cabeça com jogos, futilidades, tempo oco; enquanto que, para adquirir um livro, simplesmente, diz “é caro”, e não compra. Como eu gostaria que as crianças e jovens utilizassem essa nova realidade virtual sobretudo para ler e estudar! Mas não. Sei que não. Não estamos a conseguir que os livros e bibliotecas digitais gerem interesse nos alunos. Depois, há aquelas pessoas engraçadas que compram livros, livros e mais livros sem nunca ter lido um (conheço alguns). São uma espécie de coleccionadores de livros, fazem pilhas de livros em casa, ou arrumam-nos muito bem alinhadinhos nas prateleiras, sem os lerem – eu acho que nunca vou entender essas pessoas, mas não deixa de ser curioso.

Enquanto não conseguimos o desejável a nível da leitura, vamos dinamizando actividades que proporcionem o encontro dos jovens com autores, vamos insistindo em falar dos livros, da leitura, dos leitores, dos escritores. Alguma coisa há-de ficar.

É uma esperança teimosa, como a esperança renovada nos dias infinitamente maiores.

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