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“A SAUDADE APERTA-ME O CORAÇÃO E DÓI”

Gabriela Carvalho

Hoje, relembrei um momento especial e por isso, decidi escrever-vos sobre outras coisas, outros pensamentos, talvez mais técnicos (quem sabe)…

Foi naquele dia, o dia 20/08/2013 que fui buscar a “D. Maria” para mais uma sessão de Terapia Ocupacional.

Ela olhou-me, com olhar diferente, que ainda hoje recordo. Agarrou a minha mão, como sempre fez, mas com mais força que o habitual (e eu com a minha visão técnica a achar que havia ali um ganho de força muscular… que tola que eu fui!). Caminhamos em silêncio até à sala, entramos, ela sentou-se na marquesa (como sempre) para iniciarmos as mobilizações.
Eu segurei-a, como segurava sempre e, quando ia ajudá-la a deitar-se ela disse a frase que ainda hoje ressoa bem cá dentro: “(sabe doutora) a saudade aperta-me o coração e dói”.

Nesse instante eu bloqueei… parei…

A sessão estava programada e toda planeada, mas não foi cumprida. E ainda bem que não foi cumprida. Aprendi tanto nesse dia…

Ficamos as duas a olhar lá para fora, de mão dada uma na outra e a conversar. A falar sobre “a saudade que aperta o coração e dói”…

A “D. Maria” falou-me do tempo em que era jovem, dos bailes da sua aldeia, dos seus pais — “Sim, porque eu já fui a filha dos meus pais.” — disse-me ela com voz forte.
E na minha grande ignorância perguntei-lhe o que queria dizer.

Ela olhou para mim e disse-me mais ao menos por estas palavras:
– Sabe, hoje vocês olham-nos como os avós deste e daquele, os velhos, aqueles que vão morrer em breve que já não têm nada para fazer. Vocês olham-nos assim e já está, nós passamos a ser assim. Mas eu já fui tanta coisa. Eu fui a filha dos meus pais que saia de madrugada para a lavoira, eu também brinquei como brincam agora os meus netos. (Bem, como brincam agora não, porque não tínhamos nada daquilo). Mas eu já brinquei muito, sabe?
(…)
– E os bailes quando eu era mais nova? É que gostava dos bailes e de dançar… hoje vocês dançam coisas estranhas e não dançam como nós dançávamos e se eu dissesse aos meus netos que dançava e lhes quisesse ensinar, eles achavam que eu estava maluquinha. Um já me disse que eu já não tenho idade para essas coisas…

(A conversa continuou e a dada altura a “D. Maria” disse-me…)

… mas sabe o que “me aperta mais o coração e me dói”?

E suspirou… e que suspiro profundo foi aquele…

Na minha pequenez, sem saber se devia ou não, perguntei-lhe:

O que é?

A SAUDADE…

(Fez-se um silêncio!)

E mais uma vez ela disse-me mais ao menos por estas palavras:
– DÓI-ME A SAUDADE da vida que eu já vivi; DÓI-ME A SAUDADE dos amigos que eu já tive (porque eu já tive amigos e amigas como vocês têm agora); DÓI-ME A SAUDADE da família que já não volta mais; DÓI-ME A SAUDADE do domingo ir à missa com a roupa bonita e depois brincar com os meus primos e de ver os meus pais com os meus tios na leira grande; DÓI-ME A SAUDADE (…)

(A conversa continuou e mais coisas foram faladas, até sermos interrompidas pela hora do almoço).

Mas naquele dia 20 de Agosto de 2013, o que mais recordo é “a saudade que aperta o coração e dói”…

Um dia sentirei como ela, saudades dos bons momentos que vivo hoje; saudades dos amigos de hoje; saudades da família de hoje (que poderá já não estar toda presente) e sei que nesse dia, a saudade vai “apertar-me o coração e doer”!!!!

​​​​​​​
Hoje, deixo-vos a minha 5ª crónica, mais pessoal, aproveitando a oportunidade (e porque nada acontece por acaso) para deixar-vos estas palavras e homenagear os meus amigos e a minha família (de sangue e não só) que eu amo de coração!

Que demore a chegar o dia em que “a saudade me vai apertar o coração e doer!”…

“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional acrescenta vida aos anos.”


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