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Saúde e Vida

TÃO IMPORTANTE COMO O TESTE DO PÉZINHO

Um rastreio é um processo através do qual conseguimos identificar na população em conjunto de indivíduos que partilham uma determinada característica.

Em termos de saúde um programa de rastreio deve ser implementado quando a doença ou deficiência a identificar constitui um importante problema de saúde, quando há um tratamento para a mesma e há recursos para o fazer, quando há um teste apropriado para o identificar e esse teste é aceitável para a população, quando economicamente é mais favorável o rastreio e tratamento precoces relativamente ao tratamento tardio e quando o processo de rastreio é contínuo e não pontual.

Em Portugal o Programa Nacional de Diagnóstico Precoce (vulgo Teste do Pézinho) implementado em 1979 e que permite o rastreio de algumas doenças graves (metabólicas e genéticas) é o programa de rastreio aplicado ao recém nascido mais conhecido.

Uma das doenças congénitas mais frequentes é a surdez infantil estimando-se que em cada 1000 recém-nascidos sem factores de risco 2 a 4 apresentam uma perda auditiva significativa.

Nos recém-nascidos com factores de risco como história familiar de surdez infantil permanente, malformações da cabeça e pescoço, portadores de síndromas associados a surdez, prematuros de muito baixo peso (>1500g), RN com necessidade de ventilação invasiva superior a 48h, RN com sépsis /meningite bacteriana, hiperbilirrubinemia com necessidade de exsanguineotransfusão e infecção intra-uterina por CMV, toxoplasmose, herpes, rubéola ou sífilis a incidência de surdez é 10 vezes superior ao normal, ou seja 20 a 40 casos por 1000 nascimentos.

A ideia de que os pais conseguem facilmente aperceber-se de uma perda auditiva é errónea como o demonstram vários estudos. Numa criança com perda moderada a severa a idade média de diagnóstico eram os 2-3 anos e nas crianças com perdas ligeiras a moderadas acima dos 4 anos, em regra após o início da idade escolar.

Está perfeitamente reconhecido que a privação auditiva tem um impacto profundo na aquisição da linguagem e de competências escolares e sociais.

Um estudo conduzido em 1998 na Universidade de Colorado estabeleceu em definitivo os primeiros 6 meses de vida como o período de ouro para a reabilitação auditiva. A intervenção precoce, antes dos 6 meses de vida, é o factor mais decisivo para a aquisição de linguagem, independentemente de factores sócio-económicos e outras comorbilidades associadas.

Assim, e apenas em 2015, foi publicada pela Direcção Geral de Saúde  a Norma de Orientação Clínica 018/2015 – Rastreio e Tratamento da Surdez com Implantes Cocleares em Idade Pediátrica. Não obstante várias Maternidades e Hospitais Pediátricos já terem implementados localmente programas de rastreio.

Esta norma prevê o rastreio de todos os RN até ao primeiro mês de vida e referenciação e avaliação audiológica até aos 3 meses dos RN caso o rastreio seja positivo. Nas crianças com surdez comprovada a reabilitação tem que ter início até aos 6 meses de vida.

Nas crianças com factores de risco a avaliação em consulta de otorrinolaringologia é realizado semestralmente pelo menos até aos 36 meses.

O rastreio é efetuado em Portugal normalmente antes da saída da maternidade e em geral com recurso a otoemissões acústicas. Este é um exame rápido com dois resultados possíveis, passa, não passa. O resultado não passa implica reavaliação.

Nos últimos anos a atenção tem-se focado na introdução de outro ponto de rastreio, entre os 4 e os 7 anos. Sabemos que a prevalência das alterações auditivas aumenta com a idade (infecções, exposição a ototóxicos). Em 2011 foi assinado na Polónia o Consenso Europeu que defende o rastreio em idade escolar de modo a permitir a identificação de crianças com  perda auditiva ou com perturbações do processamento auditivo central e o seu acesso a cuidados profissionais independentemente dos seus recursos financeiros.

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