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Cidadania e Sociedade

MÚSICAS DA REVOLUÇÃO

Moreira da Silva

Neste mês de abril é comemorado o 45º aniversário do 25A, a Revolução dos Cravos, como ficou conhecido o golpe militar que derrubou a ditadura do Estado Novo, que durou quase meio século. O Estado Novo foi assim apelidado por António Oliveira Salazar, que governou Portugal durante quase quatro décadas (de 1932 a 1968). Marcello Caetano foi o último Presidente do Conselho de Ministros do Estado Novo (1968 até 25 de abril de 1974).
Em 1974 a rádio foi crucial para o êxito que o 25 de Abril alcançou. A Rádio Clube Português foi transformada no posto de comando do MFA – Movimento das Forças Armadas e ficou conhecida como a “Emissora da Liberdade”. A canção “E Depois do Adeus” foi a primeira canção que serviu de senha para o 25 de abril. A canção foi cantada no Festival RTP da Canção, do qual saiu vencedora. Representou Portugal, a 6 de abril, no Festival Eurovisão ficando em último lugar, com apenas 3 pontos. A transmissão desta canção foi feita nos Emissores Associados de Lisboa, às 22h 55m do dia 24 de abril.

A razão da escolha desta canção é clara: não tendo conteúdo político (tipicamente uma canção de amor dos anos 1970) e sendo uma música em voga na altura, não levantaria suspeitas. Podia a revolução ser cancelada, se os líderes do MFA concluíssem que não havia condições efetivas para a sua realização. Embora pareça remeter para o adeus ao regime do Estado Novo, a canção em si é uma balada sem conteúdo político. A letra da canção é sobre um homem que se encontra perdido depois do fim de uma intensa relação amorosa, provavelmente um primeiro amor.

A letra da canção foi escrita com a escolha de pequenas frases das cartas que José Niza enviava à sua mulher, Isabel, quando estava em Angola, como militar, na Guerra Colonial. No meio do seu vazio, ele conclui que o amor traz felicidade e sofrimento (“Amar é ganhar e perder”), ao ganhar um novo relacionamento segue-se o perdê-lo. Os autores da canção “E Depois do Adeus”, que serviu de senha para o 25 de abril foram: José Niza (letra); José Calvário (música) e Paulo de Carvalho (cantor).

A ideia do Otelo Saraiva de Carvalho (o estratega do 25A) era que a primeira senha fosse o “Venham Mais Cinco“, de José Afonso. Mas foi o jornalista João Paulo Diniz que o convenceu de que essa canção, de um autor proibido pelo regime poderia levantar suspeitas e sugeriu “E Depois do Adeus”, que poderia ser tocada sem soar qualquer alarme.

A canção “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso foi a segunda senha e o sinal efetivo de saída dos quartéis. E deveria ouvir-se mais tarde, entre a meia noite (00H00) e a uma hora (01H00), do dia 25 de abril de 1974, através do programa da Rádio Renascença. A canção deveria ser transmitida com a seguinte sequência: leitura da estrofe do poema (Grândola Vila Morena / Terra de fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti ó cidade). A canção foi transmitida no programa “Limite” da Rádio Renascença, pelo locutor de serviço Manuel Tomás, à meia noite e vinte (00H20M). A transmissão na emissora católica, de uma música claramente política de um autor proibido daria a certeza aos militares revoltosos de que já não havia volta atrás, que a revolução era mesmo para arrancar.

“Grândola Vila Morena” foi escrita por José Afonso em 17 de maio de 1964, praticamente dez anos antes da revolução, quando conduzia um automóvel com que regressava a Lisboa, acompanhado pelos guitarristas Fernando Alvim e Carlos Paredes, depois de ter atuado na inspiradora vila alentejana de Grândola. O tema seria depois gravado em França, em 1971 e aqueles passos que se ouvem no início não são de soldados, pois foram captados em estúdio numa espécie de encenação do tipo de ambiente criado pelos grupos corais alentejanos.

Estas foram as verdadeiras canções de abril.

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