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Saúde e Vida

OBESIDADE TEM UM NOVO NOME

Lara Guerreiro

E não é só um novo nome. É, acima de tudo, um passo em frente no combate à obesidade.

Nunca é demais lembrar que a obesidade é tida como a epidemia do século, é um gravíssimo problema de Saúde Pública, com tendência crescente na Europa e no mundo, e que em Portugal se estima que mais de metade da população adulta sofra de excesso de peso (sendo 15% obesa), afectando de forma preocupante as crianças, onde a prevalência de peso a mais será próxima de 30%.

“Doença Crónica Baseada na Adiposidade” (ABCD, adiposity-based chronic disease) é, pois, o novo conceito que, ao que tudo indica, deverá vir a substituir gradualmente o uso do conceito “obesidade”. A ABCD foi proposta pela Associação Americana de Endocrinologistas Clínicos e vem mudar a mensagem de que a obesidade é apenas o peso a mais, dando agora ênfase aos efeitos fisiológicos da massa gorda.

A novidade deste novo termo é, desde logo, a palavra “adiposidade”, que se refere ao tecido adiposo (gordura) no que respeita à quantidade, distribuição e função. Até aqui, o diagnóstico de obesidade tem sido feito utilizando essencialmente o indicador Índice de Massa Corporal, IMC, que relaciona o peso e a altura, mas que não tem em conta demais factores, como a localização ou a quantidade de gordura corporal (já que o IMC considera o peso total, não distinguindo o que é efectivamente gordura ou músculo). Isto não significa que se vai abandonar o uso do IMC, mas significa que vai ser considerado com outros dados da composição corporal e da fisiologia. Um bom exemplo de que o termo ABCD é bem mais abrangente é poder identificar uma pessoa que, mesmo não tendo peso a mais, tem défice de massa muscular e excesso de gordura; ainda que não seja obesa do ponto de vista de IMC, esta pessoa têm um excesso de gordura corporal que lhe poderá conferir resistência à insulina, colesterol elevado e, portanto, risco elevado de diabetes e de doença cardiovascular.

É também novo neste conceito a menção de “doença crónica”, destacando que a obesidade é uma doença de longo-termo e que o modelo de tratamento deve focar-se nas múltiplas complicações associadas, tais como a hipertensão, a diabetes, a apneia do sono e as doenças cardiovasculares.

Mais, o novo termo de diagnóstico, ABCD, pretende também combater o estigma associado ao à palavra “obesidade”, que o relaciona erradamente com estética, aparência ou desleixe, e que se reconhece como uma das grandes barreiras ao sucesso no tratamento da doença.

E, mais ainda, a ABCD centraliza-se na alteração do estilo de vida como primeira linha no controlo da doença, nomeadamente através da boa alimentação, da prática de exercício físico, do comportamento, dos padrões de sono, enfim, de todos os aspectos que devem anteceder os tratamentos cirúrgicos e/ou com medicamentos.

Pessoalmente, há muito que sinto limitações no diagnóstico da obesidade e que vejo a necessidade de mudar a mensagem de saúde neste âmbito. Por isso, é com satisfação que acolho o novo termo de diagnóstico e é com optimismo que acredito que, no curto/médio-prazo, toda a comunidade clínica beneficiará com este “reconceituar” da obesidade, no sentido de melhorarmos a estratégia de diagnóstico, afinarmos a intervenção e, consequentemente, conseguirmos (finalmente!) diminuir a curva da prevalência da obesidade.


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