Cultura, Literatura e Filosofia

A METÁFORA

Como um baile de máscaras,  a existência arrasta – se numa falsa euforia de luzes e sons e os mascarados, todos eles, ondeiam os corpos vacilantes por esquinas adornadas de uma luxúria falsa e a própria música que fazem escorrer dos tectos, das paredes, do chão tem a marca lascivo do engano, do ludíbrio, do logro.
Estive lá, sem máscara, e riram – se de mim. Com os meus próprios olhos, vi o disfarce dos outros; e era  como se fosse eu a disfarçada. Com os meus próprios ouvidos, escutei a catadupa de sons mascarados que as bocas arrevesadas iam vertendo pelos ares acabrunhados; e foi como se eu estivesse surda. Com o meu corpo, despojado das roupagens da falsa gala, toquei os braços e as pernas dos outros convivas; e parecia que eu estava nua.
Com o meu sangue a latejar nas veias, à flor da pele, senti o estremecimento cálido do encontro com o mascarado, aquele, um apenas, que, de entre todos, me pareceu mais digno na sua máscara quase humana, na sua veste quase feita de nudez, no seu hálito apesar de tudo fresco, no seu olhar tecido em brilhos de genuína humanidade.
Disse -lhe para sairmos daquele salão demasiado abafado, disse – lhe para procurarmos juntos os desertos ou os oásis, por onde pudéssemos vogar, soltos  de máscaras  e perfídias ao encontro do lume do sol, ao encontro do gelo oceânico, ao encontro do silêncio e da treva.
Não usei a voz para falar – lhe, foi um encontro diáfano que me soprou no estremecimento breve de um sentido, ali inesperado, a força do apelo.
Durante um momento, pareceu-me que ele me acompanhava no tactear de um mundo bruscamente frio, bruscamente despojado de luzes e de sons. Tacteei-lhe o corpo, sorvi-lhe todos os eflúvios: do hálito, da voz, do sorriso, do gesto.
E encontrei com ele a lua cheia, argenteando o céu da meia noite e depois a transparência rósea da alvorada e o canto primaveril das aves, até o sol nascer e se confundir e me confundir. .. porque ele coube todo, no rosto, agora aberto, daquele semelhante.
O baile de máscaras, lá longe, tornou-se alienação,  paradoxo, cena risível, tactear de cegos. E ali, na orla do rio, com lua,  com sol,  com o canto das aves, construímos um universo nosso.
O que foi que falhou, afinal, e  me devolveu, sozinha,  à mascarada? O que foi que manchou a verdade daquele fogo partilhado e me roubou o sol, a lua e o marulhar das aves?
Quando acordei,  estava sozinha  no salão deserto, na cratera viciosa deixada pela luxúria dos outros.

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