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ELALAB: BEM VINDOS AO PARAÍSO DAS OSTRAS

Joana Benzinho

Chegar a Elalab não é simples. E até nem é por falta de alternativas. Conheço pelo menos três. Mas a verdade é que nenhuma delas é fácil e, na época das chuvas, acontece nenhuma delas ser viável e muitas vezes o isolamento total dita os dias desta aldeia cercada por tarrafes e pelo rio Cacheu no norte da Guiné-Bissau. Cheguei lá, numa primeira viagem iniciada em Cacheu, numa época em que andava meio mundo assustado com um recente ataque de um crocodilo a uma piroga que ceifou a vida a uma mulher. Via-se pouca gente em pirogas na água ou nas margens, e isto durou até ser apanhado o pretenso crocodilo assassino que foi heroicamente pendurado numa árvore e ali ficou sujeito às mais diversas teorias sobre a sua atitude.

Numa outra ocasião cheguei lá por Susana. Depois de uma viagem de quatro horas e meia de carro desde Bissau, e mais uma boa meia hora a caminhar na lama da maré baixa até chegar à piroga motorizada, que nos leva numa encantadora viagem de 30 minutos por entre canais de rio. De uma forma ou de outra, temos o privilégio de passear pela maior zona contínua de mangal (ou tarrafes) da África Ocidental, de um verde de cortar a respiração, e vislumbrar desde longe o areal branco de Elalab com as suas bonitas casas de teto de colmo e os dois enormes baobás a darem-nos as boas-vindas.

Ali em Elalab tudo é calma, tudo transpira paz. Só o motor do barco perturba a harmonia suprema da natureza. Os pássaros cantam de forma exuberante, a vegetação ganha contornos e cores únicas. E as pessoas, claro, sempre as pessoas da Guiné-Bissau a tornar locais como este únicos.

Elalab tem uma população de cerca 700 pessoas e vive essencialmente da cultura do arroz e da pesca. São 700 pessoas que coabitam num autêntico espírito comunitário, em que obrigações e direitos são partilhados e comungados com alegria e espírito de missão.

Passei recentemente na aldeia em dia de secagem das ostras, uma das suas principais atividades.

As ostras dos tarrafes do Cacheu são uma das iguarias mais apreciadas no país e há de facto razões para isso. Grandes, suculentas e com um sabor único são muito procuradas não só na Guiné-Bissau como no país vizinho, o Senegal, a poucos quilómetros de Elalab em linha recta.

Os homens da aldeia juntaram-se todos na véspera e partiram em busca de ostras. Trouxeram sacos e sacos deste delicioso molusco que foram despejados numa arrecadação comum. À chegada, encontrei as mulheres numa enorme algaraviada, à sombra de duas ou três árvores no centro da aldeia, numa organizada divisão de tarefas.

Enquanto duas mais jovens andavam num corrupio a carregar ostras da arrecadação para junto das grandes panelas poisadas sobre a lenha incandescente, as mulheres mais velhas ali estavam aconchegadas junto dos panelões a aguardar que estas abrissem sob o calor, rodeadas de crianças, cães, patos, galinhas e alguns porcos, estes mais atrevidos, em busca de alimento. Um pouco mais à frente, outro grupo de mulheres extraía as ostras da casca e passava-as por água quente. Este grupo era mais numeroso e talvez por isso mais animado. Riam, contavam histórias, provocavam-se umas às outras numa infantilidade desarmante enquanto faziam aquela tarefa com grande destreza e velocidade, de forma mecânica e quase sem olhar para o que tinham nas mãos.

Logo ali ao lado, outro grupo estendia as ostras ao sol com tal preciosismo que de longe pareciam longos panos rendilhados.

Este trabalho coletivo já tinha destino marcado. Casamança, onde a procura é sempre superior à oferta. E o lucro? Obviamente a dividir por igual por todos os habitantes de Elalab.

Elalab naquele dia concentrava-se na interessante tarefa da seca tradicional das ostras, geradora de rendimento para as famílias da aldeia e que merece por si só a visita, mas merece também um passeio pelas beleza das suas bolanhas de arroz, uma vista de olhos à bonita arquitetura Felupe do seu casario bem ordenado, um piquenique à sombra do tronco dos seus grandes baobás e merece sobretudo tempo para nos sentarmos a conversar com aquele gente cheia de tradições e costumes dignos de serem conhecidos.

Pode não ser fácil chegar, mas uma vez ali, torna-se difícil dizer adeus a este pedaço de paraíso na Guiné-Bissau. Acreditem.

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