Cultura, Literatura e Filosofia

OS SINAIS

Regina Sardoeira
Observar o mundo, com olhos profundos e lê -lo, reflexivamente, exige múltiplos requisitos. Falo deste nosso planeta povoado, e falo, por isso, de todos nós que dele vamos colhendo a vida. E falar de nós, assim, neste plural que nos agrega, sem excepção, é sucumbir a uma imensa perplexidade.
Aqui, onde estou, oiço o burburinho longínquo, mas intenso,  do trânsito automóvel e penso na auto-estrada que há pouco percorri, sem outra ideia que não fosse a de chegar o mais cedo possível ao meu destino. Vejo agora o quanto é humana esta minha preocupação de chegar cedo e como me esqueci dessa característica que tenho em comum com esses todos, cujo burburinho agora oiço, quando fendi o asfalto sem nenhum pensamento crítico. E percebo que é assim que somos, nós,  os humanos.
Aptos a criticar tudo o que vemos fazer e nos parece mal, esquecemo-nos da nossa própria insolência quando, exactamente, procedemos como todos os outros. Temos um olhar acutilante para atingir os erros alheios, não resistimos a lançar a primeira pedra e a segunda e as outras todas; e deixamo-nos estar à sombra de nós mesmos, como se fossemos inocentes. Não somos, ninguém é inocente.
Falo deste mundo de que dependemos todos, por ser a nossa única e comum morada, e vejo como nos segregamos, mutuamente, criando círculos de comunhão de onde excluímos, cuidadosamente, os estranhos. Como se, sendo humanos, pudéssemos ser estranhos uns aos outros!
Falo deste mundo, pobre planeta atravancado e sujo com os nossos despojos,  falo do monturo ignóbil de múltiplos e indeléveis resíduos que somente de nós saíram e a nós regressam sem que nos responsabilizemos de facto, porque uma tal responsabilidade ultrapassa o poder que temos, face à solução. Afinal, nada podemos remediar, por mais gestos louváveis e acções benevolentes que estejamos dispostos a apadrinhar.
O caos instalou – se, de facto, o caos humano contaminou os elementos naturais, tornados errantes e, eles próprios,  já demasiado humanos! O caos do início, feito ordem, no cosmos, irrompeu com violência nesta hora feita de incertezas, prenúncio de um fim qualquer que deverá fazer sucumbir tudo o que é humano.
Oiço falar em fruta biológica,  por exemplo, e pergunto – me: mas a fruta não é, por definição, biológica?  E vejo que a ânsia consumista de tudo fazer crescer, rapidamente e fora do tempo, retirou às plantas o seu carácter natural , acrescentando – lhes qualidades que não estavam antes no seu ADN e tornando-as, por isso, aberrações. E já não tenho a certeza se esses produtos a que dão o epíteto de “biológicos ” o serão inteiramente.
Vejo as multidões acorrendo a festas, acotovelando – se em diversões, quantas vezes desprovidas de sentido, mas acorrendo sempre, e nelas cultivando o excesso de si, o excesso nos outros, o excesso no mundo que, decerto, não suporta tanta perturbação!  O que resta,  no fim das festas é um enorme vazio, um profundo desperdício e mais, sempre mais acumulação de detritos. E as festas fazem-se para honrar santos,  mitos e lendas usando símbolos que verdadeiramente não honram aqueles cujo nome é usado com despudor.
Escrevo tudo isto e percebo bem que são palavras terríveis,  tanto mais que, por mais que o desejasse, não posso excluir – me da hecatombe: sou parte integrante do prejuízo e não tenho a solução!
Uma certeza vou adquirindo, se bem que a contragosto: o mundo em que ainda vivemos solta um enorme suspiro de agonia e não creio que o processo seja reversível. Podemos plantar árvores,  gerar paraísos biológicos,  proteger espécies,  resgatar humanos da fome e de outras misérias,  limpar praias, reciclar o lixo…podemos, sim, talvez devamos fazê -lo! Mas subjacente a tais actos meritórios está a desgraça, uma espécie de gigantesco arquivo, possivelmente indestrutível.
Apesar disso, somos impelidos a andar em frente, a cumprir o quotidiano,  a crer na missão humana que vamos construindo, a  engendrar visões optimistas e a suspeitar dos paraísos para onde emigraremos, em caso de catástrofe.  Olhamos, à noite, as estrelas e a lua, ouvimos os trinados das aves, ao amanhecer, sentimos a terra a expandir – se na flor e no fruto e murmuramos, em segredo, que está tudo bem. E, de vez em quando, um braço fraterno revela – nos a promessa da amizade!
Seres de profundos contrastes, somos, em simultâneo, a espécie mais grandiosa  e capaz de feitos sublimes e a mais rastejante e malfazeja; a que maiores dotes a si mesma foi outorgando e também a que mais baixo desceu na hierarquia dos seres; a que mais construiu, criando novos mundos, no mundo e a que mais delapidou a própria construção.
De vez em quando, um entusiasmo uníssono parece redimir a miséria do humano, apelando ao sublime que sabemos reconhecer;  mas logo, uma vaga deletéria abre um abismo de horrores e faz com que a cabeça nos pese  infinitamente.
Temos palavras,  muitas palavras e sons e harmonias e cores em profusão, e conhecemos a beleza, a harmonia,  a perfeição.  A essência de qualquer coisa de grandioso parece estar ali mesmo à distância de um toque. Mas eis que uma nuvem, um fumo, um trovão dispersam tudo para longínquas paragens.
Não saberei como concluir esta crónica, nem sequer que repto lançar aos leitores ou que prenúncio de futuro poderei, através dela, engendrar . Estou em suspenso, nas asas, ora do encantamento, ora da amargura profunda.  Creio ser este o ambiente interior comum a todos os que vêem, porque nunca, como nos dias de hoje, foi tão fácil perceber os sinais.

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