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PECIXE – A ILHA ONDE AS MARÉS DITAM AS ILHAS

Joana Benzinho

Na Ilha de Pecixe o tempo passa devagar. Sem pressas, sem trânsito, sem poluição, sem horas. Ali são as marés que marcam quem entra e sai, as colheitas que marcam o tempo, e as luzes de dia que marcam o ritmo do quotidiano. Nasce o dia e começa a azafama da casa com mata bicho para fazer, crianças a ir buscar banho ao poço para a higiene, homens a preparar-se paras a suas atividades agrícolas. Cai o dia e, sem luz, fazem a fogueira que os ilumina um pouco o serão antes de se deitarem.

Esta ilha de 6500 habitantes, está a 10 minutos de barco da parte continental que quase lhe toca, mas muito longe de tudo se atentarmos à realidade da Guiné-Bissau, dos seus meios de transporte e dos acessos que lhe podem permitir ligar-se a um hospital ou a uma escola para lá do 9 nono ano de escolaridade – uma hora e meia até Canchungo

Mas voltemos à ilha para vos falar da sua floresta farta e com fartura de diferentes verdes. Das palmeiras, dos poilões que pedem dez homens ou mais para lhe abraçar o tronco, de alguns cajueiros, e da sua agricultura diversa: feijão, mandioca, amendoim e, claro, arroz.

A nova rampa que nos acolhe à chegada faz esquecer os dias em que nos enterrávamos até ao joelho à saída do barco e tínhamos sempre uma alma simpática à nossa espera com um balde de água para disfarçar a lama. Agora a camioneta de caixa aberta espera-nos no pontão e é só saltar para a carroçaria e procurar um espacinho para sentar e fazer da forma mais confortável possível os 18 km de picada que atravessam o centro da ilha e as suas tabancas cheias de crianças que gritam entusiasmadas à nossa passagem. Aqui e ali sobe gente para a camioneta, nesta boleia providencial que lhes damos e os poupa a longas caminhadas.

Na outra ponta da ilha, junto da escola, da administração e do centro de saúde esconde-se um tesouro, desconhecido até de grande parte dos guineenses – a praia de ilha. Um areal de areia dourada, bordado por extensas dunas de um lado e por um Atlântico sereno e azul do outro. A maré baixa leva-nos o mar para bem longe mas um passeio sobre a areia molhada e com pequenas lagoas aqui e ali vale a pena. Ao fundo vê-se a técnica pesca de estaca que cria no mar pequenas varandins arqueados que irão, mais cedo ou mais tarde, segurar o peixe que servirá de refeição às gentes de Pecixe. As mulheres ali andam à beira-mar a apanhar cumbé, uma espécie de berbigão com um sabor divinal e que abunda não só nesta ilha como em algumas outras do arquipélago dos Bijagós.

É difícil perceber onde o cumbé se esconde submerso mas o olho clinico e treinado destas mulheres levanta a areia onde já sabem que o vão encontrar, apanham-no e atiram para a bolsa toscamente feita com um pano tradicional que trazem à cintura.

Também aqui no mar não há horas, apenas marés. E elas ali andam, sem pressa, deambulando em busca de encher o regaço de conchas que depois de cozidas vão fazer as delícias da família.

Deixar a Ilha de Pecixe para trás e regressar a Ponta de Pedra, este já um pequeno paraíso continental, é sempre feito com a sensação de que para nós, os que a visitam, o tempo voa, passa literalmente a correr.

Fica o consolo de ser um até já, porque apesar do acesso extremamente difícil, a Ilha de Pecixe é para mim um ponto de passagem obrigatória na Guiné-Bissau.

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