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Saúde e Vida

CANCRO NO FEMININO – DETERMINANTES PSICO-ONCOLÓGICAS

Renato Martins

A magia da mulher consiste em ser capaz de “transformar em luz e sorriso as dores que sente na alma, só para ninguém notar, e ainda tem que ser forte para dar os ombros para quem neles precise chorar” (L. Vieira). Revelador da combatividade e da importância socio-afetiva da mulher, este breve excerto de um poema bastante conhecido, faz-nos refletir acerca do quão desestruturante pode ser o diagnóstico de um “Cancro no Feminino”.

Quando falamos de “Cancro no Feminino” estamos a referir-nos a todos os cancros ginecológicos (Colo do Útero, Vagina, Vulva, Ovários…) e também ao cancro da mama, que apesar de não ser exclusivo da mulher (cerca de 1% dos cancros de mama ocorrem no sexo masculino) é, sem dúvida alguma, uma patologia oncológica que se encontra iminentemente correlacionada com o sexo feminino, por atingir um órgão bastante simbólico que é representativo do seu erotismo, da sua sexualidade e da sua insubstituível componente maternal. Sendo igualmente, o mais importante objeto de vinculação afetiva com o recém-nascido, que molda e transforma a “relação mãe-filho” numa experiência emocional de características únicas.

Efetivamente, e sem querer minimizar o impacto das patologias oncológicas que afetam outros órgãos, o diagnóstico dos popularmente chamados “Cancros Femininos”, constitui sempre uma experiência psico-socio-emocional única que possui um forte impacto sobre a auto-estima, a imagem corporal, a identidade corporal feminina, a maternidade, a sexualidade e a conjugalidade, afetando de forma bastante contundente o relacionamento do casal e toda a dinâmica familiar que na maior parte das vezes estava assente sobre os ombros de uma “mulher guerreira” que sempre foi capaz de “transformar dores em sorrisos” e “dar o ombro a quem neles precise chorar”.

Como tal, a reabilitação psicológica destas mulheres, para além de holística, deverá possuir um carácter iminentemente sistémico, para que seja possível integrar todos elementos do agregado familiar que evidenciem sofrimento psicologicamente significativo, concedendo uma atenção muito especial ao cônjuge que, devido a múltiplos mecanismos psicológicos, nem sempre adaptativos, e à frustração de uma possível paternidade adiada, pode “incorrer no erro” de olvidar que “Nunca amamos ninguém. Amamos tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. E amando ou desamando uma ideia que é nossa, estamos, pura e simplesmente, a amarmo-nos a nós mesmos” (Fernando Pessoa).

Como tal, e para além do tratamento adequado das sintomatologias depressivas e ansiosas que possam subsistir como reação ao diagnóstico e/ou como consequência das terapêuticas médicas implementadas, é fundamental concedermos uma atenção muito especial às determinantes que estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a imagem corporal, com a sexualidade e com a maternidade, fomentando a readquirição de dinâmicas e subtilezas que o casal foi perdendo, devido a uma “(a)normal” visão deturpada das prioridades vivenciais que nos é incutida a todos pelas vicissitudes que plasmam as sociedades “ditas” modernas, tendo sempre bem presente que no que concerne à vertente sexual a velha máxima “No homem, o desejo gera amor… Na mulher o amor gera o desejo”, continua a vigorar determinando o sucesso e/ou o insucesso de qualquer relação, independentemente da presença e/ou ausência de doença.

Como é evidente, estamos perante um longo caminho de adaptação a uma nova realidade vivencial que deve ser percorrido em conjunto, por ser benéfico para ambos os elementos do casal. Só assim será possível fazer compreender à mulher que a curva mais bonita do seu corpo é o seu sorriso e que este constitui muitas vezes a mais importante determinante de bem-estar psicológico do cônjuge porque efetivamente “É próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite tudo imaginar” (Carlos Drummond de Andrade). Estando cientificamente comprovado, que apesar de ser uma experiência limite, sempre que existe uma relação conjugal sólida e estruturada, a experiência oncológica pode não afastar, e até contribuir para uma aproximação afetiva do casal.

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