Cultura, Literatura e Filosofia

TUMULTOS

Regina Sardoeira

Anda no ar um bulício de vozes, de gente, de cores, de cheiros, um bulício multiplicado, se lhe acrescentarmos o outro que não transportamos pelos sentidos físicos, mas nos chega virtualizado em amálgama absoluta. Não há dúvida que o ser humano gosta do tumulto, não fosse ele a animal gregário, por excelência. O ser humano só sente verdadeiramente a sua humanidade se puder misturar-se com os outros humanos e embriagar-se de companhia.

Embriagar-se, escrevi-o de propósito, já que o pretexto mais difundido para essa intensa necessidade de comunicação se faz à volta de uma mesa, com pratos e copos e obviamente, o seu precioso conteúdo. Os homens juntam-se, nas mais diversas celebrações, muitas vezes de coisa nenhuma, para comer e beber; e eu creio que, frequentemente, no decurso do banquete, chegam a esquecer-se do motivo que os juntou, de tal modo os sabores e os eflúvios da comida e da bebida lhes vão retirando o discernimento.

Há algumas noites atrás, estive, com uns amigos num bar. Por definição, um bar destina-se a unir as pessoas no acto de beber. E as pessoas bebem, quase sempre, bebidas alcoólicas, e é por isso que frequentam os bares e se agrupam numa euforia que, a maior parte das vezes, conduz à bebedeira. Dir-me-ão que não é esse o motivo – a bebedeira -,que o importante é estar com os amigos conversar e conviver, ouvir música, descontrair. De acordo. Mas eu, que não bebo nada que seja alcoólico, por nenhuma razão fundamentalista, mas somente porque nunca me habituei ao sabor do vinho e afins, quando acontece ir a um desses locais, observo, lucidamente, o ambiente.

Custa-me bastante entender o culto da atmosfera de um bar. E assim, naquela noite, uma vez mais, observei.

O barulho era imenso, junto que estava o som elevado de uma música, por sinal bastante bem escolhida, e o vozear intenso das pessoas a tentarem conversar; o espaço estava absolutamente preenchido, tanto que os empregados tinham alguma dificuldade em movimentar-se; o ar ressumava a vapores do álcool, do tabaco e dos corpos transpirados; e conversar não era, de modo nenhum, possível a não ser trocando meia dúzia de frases e em altos gritos.

O certo é que, à medida que o tempo passava, iam chegando mais pessoas porque, nos bares, a afluência faz-se sentir tardiamente e prolonga-se pela noite dentro. E, dessa maneira, o burburinho crescia a tal ponto que a própria selecção musical perdia bastante do seu impacto.

Nada tenho contra os bares e a prova é que, de vez em quando, faço companhia a amigos como foi o caso; mas a verdade é que, de motu próprio, nunca escolheria esse lugar para desfrutar da convivência com os meus pares. E surpreendo-me sempre com a fascinação que tais lugares exercem sobre uma grande parte das pessoas.

Não entendo o prazer da bebida, aquele gesto contínuo de chamar o empregado para que sirva novas doses, causa-me grande perturbação, pois percebo que o prazer se transforma em vício e beber acontece por compulsão. Não entendo como é possível apreciar aquelas beberagens amargas, que incendeiam as gargantas e explodem no peito (a mim, se acaso provo um trago, o efeito sobe-me de imediato, à cabeça, numa nítida tontura). Não consigo assimilar que as pessoas julguem estar a conviver e a conversar, no âmago de semelhante alucinação sonora. E não vejo o interesse de sai dali, a altas horas, embriagado, com o raciocínio embotado e incapaz de articular duas frases com o nexo devido.

O certo é que, pelo que me diz respeito, saí de lá estonteada naquela noite – e só bebi um cocktail chamado, oportunamente, Cinderela, feito de frutos e sem um pingo de álcool. Quando cheguei a casa e me vi no espelho, estava pálida e com olheiras – prova do violento esforço que fiz para suportar a tirania do tumulto, dos odores, das luzes, num claro escuro cheio de néons, da música que a certa altura deixei, literalmente, de ouvir. E pensei: como será o aspeto de todos aqueles depois de dezenas de copos sorvidos, de muito fumo inalado e muita conversa em altos gritos? A imagem que de mim própria vi no espelho, nessa noite, fez-me perceber que não é de todo saudável ou mesmo minimamente decoroso para ninguém frequentar semelhantes espaços, noite após noite.

Veio a narração desta minha experiência, da qual não pretendo extrair nenhuma conclusão moralista, a propósito desta atracção que os humanos manifestam pelo tumulto, pela dispersão em múltiplas hordas, pelo querer celebrar com apupos, risos, muita comida e muita bebida qualquer acontecimento. E creio firmemente que os homens e mulheres que assim se juntam para comemorar até ao extremo, seja o que for, desejam, afinal, sair de si mesmas, esquecer-se de quem são, fugir ao marasmo entediante da sua vida de todos os dias.

Ocorre-me pensar que, enquanto seres humanos, merecíamos já outro tipo de existência, deveríamos pugnar por um modo de convivência salutar e feita ao ar livre, longe da poluição dos fumos, dos vapores e dos sons estridentes. Merecíamos ter um quotidiano marcado pela abundância sensorial e pelo equilíbrio emotivo, de modo a não precisarmos do refúgio nestas tocas de vício onde vamos esquecer os males da nossa vida morna e sem prazer. Porque, não tenhamos dúvidas, os bares, as discotecas e outros sítios congéneres, para onde o ser humano é atraído e de onde sai com muitos nós e concavidades espalhados pelo corpo todo, mas ainda crente de que esteve a divertir-se e a conviver, são o subterfúgio de um grande mal da civilização.

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