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HÁ QUE IR A BOÉ PARA CONHECER A ALMA DA GUINÉ

Joana Benzinho

De Bissau a Boé são 7 horas de distância. Podiam ser menos, não fora o estado da estrada . Mas também podiam ser mais, o que acontece quando a jangada de ChéChé avaria. O que acontece com alguma frequência.

A saída de Bissau tem que ser antes do nascer do dia para conseguirmos cumprir o programa. As estradas até Gabú, apesar de alcatroadas, têm troços em que o piso está em tão mau estado que circular pela berma, em terra batida, acaba por ser a melhor solução. Até esta cidade são pelo menos três horas. Gabú é uma populosa cidade fronteiriça que vive essencialmente do comércio. Com uma população profundamente islamizada, é comum ver as jovens e as mulheres cobertas com o véu nas ruas, sempre a andar em passo apressado, de um lado para o outro. É aliás, a impressão que me ficou de Gabú das vezes que lá passei. As pessoas andam sempre apressadas, como se o destino lhes quisesse escapar.

Aqui paramos para apanhar o Governador da região, que nos acompanha na visita e para comprar o gelo que irá refrescar as bebidas da longa viagem que nos espera. Quando fizemos esta viagem, o Ramadão tinha-se iniciado há dois dias e a fila na fábrica de gelo era enorme e as mulheres numa verdadeira algazarra. Em tempo de jejum, aumenta a procura do gelo, num país em que maioria da população não tem luz e, por maioria de razão, frigorífico para refrigerar alimentos e bebidas em casa. As mulheres compravam barras de gelo que enrolavam em serapilheiras e metiam em taxis, carroças puxadas por burros ou em alguidares à cabeça.

Depois da fábrica de gelo começa a longa estrada de picada até Chéché, na margem do rio Corubal. A jangada espera-nos e o rio parece calmo. Mas deste rio salta à memória a triste tragédia de 1969 em que 50 jovens soldados portugueses perderam a vida afogados, quando se virou a jangada em que seguiam após retirada forçada de Madina Boé, onde estiveram cercados pelas tropas guineenses.

A viagem para nós corre serena com as crianças do outro lado da margem a nadar e a acenar-nos. Nem sempre chegam ali carros e muito menos forasteiros. É um momento de festa.

Da margem do Corubal até Madina Boé até podem não ser muitos quilómetros mas cada um deles leva muitos minutos a ser palmilhado. O piso é de pedras brutas, grandes e irregulares que fazem da viagem de carro um ato de perícia. A paisagem é completamente diferente do resto da Guiné-Bissau. Nesta zona que é a mais alta do país, o solo é muito árido, as pedras escuras expelem e replicam o calor, sente-se o sol que queima. É difícil perceber como vive ali gente. É ainda mais difícil imaginar o que foi a vida dos soldados portugueses no quartel de Madina Boé ou dos resistentes guineenses, liderados por Amilcar Cabral, na colina ali um pouco mais à frente, junto a Dandum. Estamos na linha de fronteira com a Guiné-Conacri e, nesta aldeia, encontramos um homem, dos seus 50 e tal anos, que nos fala com entusiasmo da estadia de Amílcar Cabral ali no tempo da luta, ao perceber o nosso interesse em conhecer um pouco da história deles.

Prontamente se disponibiliza para arranjar umas motas para nos levar ao sopé da montanha a partir de onde devemos continuar a pé. Enquanto procuram combustível, vamos envergonhadamente comer uma baguete com uma lata de “tipo atum” sem ninguém ver, pois em tempo de ramadão o jejum é rei e as nossas companhias são todas muçulmanas. Todas excepto o policia aue nos acompanhou e que nos vem confidenciar que é cristão e que alinha no petisco clandestino atrás do jipe.

As três motas estão prontas e lá vamos nós com o Governador num percurso acidentado e sempre a baixar a cabeça, sem capacete, para não bater nos ramos baixos dos cajueiros. A montanha mostra-se alta, longa e cheia de vegetação da nossa altura. De catana na mão, um dos nossos acompanhantes locais vai abrindo caminho. Começamos animados e faladores mas o forte calor depressa nos remete à silenciosa poupança de energia. A meio caminho já um qualquer ramo de árvore servia de bengala e qualquer sombra um bom argumento para uns minutos de descanso. Se nós, que comemos e bebemos, estávamos no limite, os nossos quatro companheiros, interditados de comer ou beber uma gota de água que fosse, estavam exaustos.

Com muito esforço alcançámos o cume e o marco ali posto por Amílcar Cabral no seu tempo de funcionário Contratado pelo Ministério do Ultramar Português como adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné. Foi assim que conheceu o país de lés-a-lés, antes da criação do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e pode dar uso a este conhecimento na organização da resistência.

Foi aqui nesta montanha que montou um grande acampamento da resistência que atacou os soldados portugueses sediados em Madina Boé, estrategicamente controlados aqui de cima por uma enorme quantidade de homens que eram mantidos e abastecidos a partir de Conacri.

O homem que nos acompanhou e que teve o pai aqui entre os combatentes da pátria e diz-nos que, lá em baixo, à época, as populações civis tentavam sobreviver e rezavam para que os seus homens, acantonados no cume da montanha, estivessem ainda vivos e de saúde. Ninguém sabia de ninguém.

E, segundo ele, nunca mais ninguém quis saber deles ou daquele importante local histórico, depois da independência. Disse-nos que esta esteve prevista para aqui mas acabou por ser declarada num ponto um pouco distante, também na região de Boé, quando souberam que as tropas portuguesas conheciam as suas intenções e planeavam atacar esta montanha no dia em que foi proclamada unilateralmente a independência em 24 de Setembro de 1973.

Quando iniciámos o caminho de regresso confidenciou-nos emocionado que somos os primeiros “forasteiros” a subir a montanha. O próprio Governador da região confessou ser estreante neste regresso à história recente da Guiné-Bissau.

Já cá em baixo refrescámo-nos com baldes de água gelada na cabeça retiradas de um poço junto do qual as mulheres lavam as suas roupas.

No regresso, quando o dia começava a ir-se experimentámos em Cheché uma das conhecidas avarias da jangada. Por alguns euros, cinco homens deslocam a jangada até à outra margem puxando o forte cabo que liga as duas margens e substituem assim os motores desta antiga embarcação.

Paragem obrigatória em casa do governador para jantar, afinal a noite chegou e, após a oração do final do dia, os fieis já podem comer! Estas refeições são uma verdadeira festa em que todos se juntam para comer e conversar e nós, já com o estômago aconchegado por uma caldeirada de cabrito divinal, despedimo-nos destes bons amigos e seguimos para mais três horas de caminho até Bissau.

O nosso dia acabou já depois da meia noite com o corpo bem moído mas com a sensação de que tínhamos explorado e conhecido um pouco da história ainda inexplorada da luta pela independência na Guiné-Bissau. Numa zona inóspita e de difícil acesso, como é Boé, mas onde sempre me disseram que deveria ir se pretendia conhecer a história e a alma da Guiné. Assim fiz e, apesar da dureza da viagem, valeu a pena. E recomendo.

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