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GUINÉ-BISSAU – UM TERRITÓRIO ESTRANHO E DESCONHECIDO PARA OS PRÓPRIOS GUINEENSES

Joana Benzinho

Um dia fiz com amigos uma travessia entre duas ilhas do Arquipélago dos Bijagos (Guiné-Bissau) e, no regresso, tínhamos uma senhora já de uma certa idade junto do nosso barco, com o ar de carregar o mundo às costas, a pedir-nos se a levávamos até Bubaque, nossa ilha de retorno, onde ia ao funeral do filho que morrera há mais de 48 horas. E era precisamente há dois dias que deambulava por ali, onde as pirogas e os barcos de turismo ancoram, em busca da boleia que a levaria a acompanhar a última viagem do filho.

O silêncio impôs-se-nos em respeito àquela velha alma que ali levávamos e que chorava em silêncio enquanto enfrentávamos as ondas do Atlântico, que nesse dia não queriam dar tréguas à sua dor.

O filho tinha migrado para aquela outra ilha em busca de trabalho e ela ia visitá-la pela primeira vez, ironicamente para a conhecer não pela mão do filho, mas para acompanhar a partida desse mesmo filho.

Num país com um arquipélago com mais de 80 ilhas e em que apenas cerca de uma vintena é habitada, a falta de mobilidade é uma dura realidade. Maioria dos 32,500 habitantes do Arquipélago nunca foi (nem nunca irá) ao continente e, talvez quase a mesma maioria, nunca tenha saído da sua própria ilha. O que é dramático se pensarmos que apenas duas delas têm um hospital (Bolama e Bubaque) e, mesmo aí, a capacidade de resposta às necessidades seja muito limitada. E, já agora, falando de educação, o quadro continua desolador. Ensino secundário completo apenas nas mesmas duas ilhas – Bolama e Bubaque. Em algumas ilhas as crianças são obrigadas a sair ainda bem pequenas para continuar a estudar, e isto quando têm a sorte de ter familiares em Bubaque ou Bolama que as acolham para seguirem os estudos. Outros, que eu conheço, vivem em quartos exímios com condições miseráveis, trabalhando no porto ou em pequenos biscates para juntar o dinheiro da propina mensal. Vão a casa nas férias, são pequenos feitos adultos à força, só para seguirem o sonho de saber ler e escrever. O sonho de ter educação.

Não é fácil serem ilhéus, apesar de estarem no paraíso e de terem à sua disposição o melhor peixe, o melhor cumbé (mulusco parecido ao berbigão), o melhor marisco e das melhores frutas da Guiné-Bissau. Vivem isolados do mundo, no que isso pode ter de melhor e de pior, como já descrevi.

E o melhor passa naturalmente pela forma genuína de estar e de viver dos Bijagós, pelo sentido de e solidariedade, pela forma comunitária como gerem os recursos e pelo profundo respeito que devotam à mãe natureza.

Mas podemos ver a Guiné-Bissau também pelo lado continental, pelo prisma dos mais de um milhão e meio de habitantes deste país da África Ocidental para perceber que também eles sofrem, não de insularidade mas de algo parecido, mas a que podemos chamar imobilidade.

Na verdade, também aqui são poucos os que conhecem as ilhas do Arquipélago dos Bijagós e as suas maravilhas. O barco de carreira vai de Bissau até Bolama ou Bubaque numa viajem de cerca de 15€ ida e volta. Muitos pensarão que sai barato ir ao paraíso mas rapidamente mudarão de ideias quando perceberem que o salário mínimo (pouco praticado) ronda os 55 € mensais e a taxa de desemprego é demasiado alta para os guineenses se darem ao luxo de partir à descoberta do país.

Esta semana partilhei a alegria de um

amigo guineense que conseguiu pela primeira vez e graças a um trabalho estável e bem remunerado, reunir as condições necessárias para ir conhecer as ilhas. Dizia-me ele, desde as ilhas, “é óptimo conhecer lugares novos”. E eu senti nesta sua frase toda a satisfação que pode proporcionar uma viagem, toda a alegria que fica para sempre gravada na memória deste partir para o desconhecido, neste caso, para conhecer as ilhas do seu próprio país.

A verdade é que a Guiné-Bissau acaba por ser um território estranho e desconhecido para os seus próprios cidadãos, havendo um quase divórcio geográfico e identitário entre os continentais e os ilhéus, o norte e o sul, o este e o oeste.

Muito ganharão as partes e a Guiné-Bissau com o estreitamento dos laços. Em todos os sentidos. Sobretudo para que se atenuem as fronteiras físicas criadas pela geografia do país e se fortaleça a identidade nacional.

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