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NOSTALGIA, A DOR DO REGRESSO

Regina Sardoeira

Milan Kundera, no seu livro, A Ignorância, ensinou-me, há muito tempo, o significado da palavra nostalgia. “Em grego, regresso diz-se νόστος (nóstos) e ἄλγος (álgos ) significa dor, sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar”. “Em espanhol “, prossegue Kundera, “añorar” (ter nostalgia) vem do catalão “enyorar”, derivado da palavra latina “ignorare” (ignorar)”.
Nostalgia é, pois, um termo que descreve uma sensação de saudade idealizada, e às vezes irreal, por momentos vividos no passado, associada a um desejo sentimental de regresso, impulsionado por lembranças de momentos felizes e antigas relações. A nostalgia já foi considerada uma condição médica no início da Era Moderna, por ser associada à melancolia.

A nostalgia é diferente da saudade, pois a saudade é direccionada para um alvo ou momento específico, e até pode ser superada pela presença ou repetição; já a nostalgia não pode ser superada no campo físico, pois diz respeito, somente, a uma visão idealizada do passado que cada um, somente, possui.

Frequentemente, associa-se o sentimento nostálgico a emissões sonoras de baixa frequência. Podemos sentir nostalgia em vários casos, como ouvindo músicas do passado, exalando algum cheiro, relembrando momentos/acontecimentos vividos, etc.
Nostalgia, contaminada pela ignorância, é o tema do romance de Kundera e, de um modo diverso do sentimento que ataca as duas personagens do romance, Irena e Josef, também eu estou embrenhada nesse sentimento.
Cheguei de férias, se por férias entendermos seis dias vividos num outro local, e fui acometida, num brusco impacto de surpresa, por ecos nostálgicos, oriundos, não do tempo que passara, algures, mas de momentos que esperava encontrar no regresso e dos quais fui bruscamente privada.
Eu não estive no exílio, pelo menos no exílio decorrente dos trâmites políticos, como sucedeu com Irena e Josef do romance; não regressei, do exílio, para o meu país, onde descobri os sinais da mudança na aparente semelhança. Mas a dor do regresso atingiu – me de modo análogo.
Encontrei, no regresso, o meu sítio, é verdade. Mas a sua identidade estava e está contaminada por uma ausência. E essa ausência, correspondendo à falta de um ser que, na sua corporeidade, representava a alma do lugar, provocou a dor do regresso, a nostalgia.
Os sinais estão todos aqui, as pequenas marcas deixadas por um pequeno ser que desertou: mas são meros simulacros, espectros estéreis – e eu clamo pela sua presença, para poder remir a nostalgia.
Não há nenhuma cura para este sentimento, nenhuma forma de superar o desconcerto deste regresso. E não posso culpar ninguém, nem sequer a mim própria, pelo acontecimento, um pouco misterioso até, que levou desta casa grande parte da sua essência.
De vez em quando, parece-me exagerado sentir, deste modo, uma tão profunda nostalgia, parece-me loucura este peso que sinto e me empurra para abismos de tristeza que não sei se já senti antes – porque, é verdade, o tempo tem o poder de diluir as impressões. Mas seja ou não exagerado, seja ou não loucura a “anoranza ” de que fui acometida, ela reside em mim e no alcance do meu olhar, porque, tal como com Irena e Josef, a minha nostalgia traz as marcas da ignorância.
Não sei, de facto, por que razão se ausentou do meu sítio ( que eu supunha ser também o dele) aquele ser minúsculo, mas com energia para preencher uma casa inteira, uma vida inteira. E jamais irei saber. E então esta dor do regresso, esta nostalgia, esta anoranza não serão jamais debeladas, permanecendo em mim como marca constitutiva.
A melancolia pode ocorrer devido a grandes e longos exílios e desencadear-se por regressos, marcados por enormes saltos espácio-temporais, como acontece no romance de Kundera. Mas nem por isso a minha nostalgia, esta que me envolve, qual manto de desalento, é inferior: porque é de todo impossível conceptualizar e medir os sentimentos.

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