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Saúde e Vida

“TRABALHAR PARA O BRONZE”, UMA ATITUDE ULTRAPASSADA

Paulo Morais

Médico dermatologista na Clínica Fisioskin (Porto), Trofa Saúde Hospital em Alfena (Valongo) e Senhor do Bonfim (Vila do Conde), Luz Saúde Clínica de Amarante (Amarante), Ponte Saúde (Amarante), Excelis Saúde (Lamego).

 

Nos anos 20 do século passado, a estilista Coco Chanel sofreu uma queimadura solar após ter adormecido ao sol no seu iate, enquanto navegava na Riviera Francesa. Quando regressou a Paris, apresentava uma pele bronzeada que agradou aos seus fãs, de tal forma que muitos começaram a procurar obter um tom de pele mais escuro. A pele bronzeada tornou-se uma tendência, em parte devido ao status de Coco e ao desejo pelo seu estilo de vida por outros membros da sociedade.

Além disso, os parisienses idolatravam Josephine Baker, uma célebre cantora e dançarina norte-americana, naturalizada francesa, que possuía uma pele com “tom de caramelo”, e apaixonaram-se pela tonalidade da sua pele. Estas duas mulheres foram as principais figuras que popularizaram a ideia do bronzeado como sinal de elegância, saúde, luxo e riqueza.

Depois da 2.ª Guerra Mundial, e sobretudo a partir dos anos 50, os trabalhadores passaram a gozar férias. Muito para além do descanso, elas representaram, sobretudo, uma enorme mudança cultural. Criaram-se novos hábitos, surgiu o turismo de massa, as férias na praia, o bronzeado (sinal de que se esteve de férias)… Mas será o bronzeado indicativo de pele saudável, de beleza, estatuto e sofisticação?

A resposta é não! Ao contrário do que se achava nas décadas de 60/70, pele bronzeada não é sinónimo de saúde e beleza. Este conceito encontra-se ultrapassado, já que o sol em excesso além de nocivo, provocando queimaduras solares, cancro da pele, aparecimento de sinais (nevos melanocíticos), cataratas e imunossupressão (redução das defesas do sistema imunológico), também envelhece precocemente a pele, retirando-lhe a beleza e a frescura.

O bronzeado é, na verdade, uma defesa natural contra a radiação ultravioleta. Significa que ocorreu uma agressão sobre a pele e consequente dano celular. Sol em excesso, obriga os melanócitos a produzir mais melanina para proteger a pele, além de levar a mutações do DNA, que podem causar cancro da pele, e estimular a produção de enzimas destruidoras do colagénio que aceleram o processo de envelhecimento. Em suma, não existe o “bronzeado seguro”, pele queimada é pele danificada!

“Trabalhar para o bronze” pode ser viciante. Há, de facto, doentes que sofrem de uma doença denominada tanorexia, caraterizada pela dependência obsessiva e compulsiva em estar bronzeado. E há base científica para tal: a luz ultravioleta do sol e dos solários estimula a produção de endorfinas resultando numa sensação natural de bem-estar, relaxamento, bom humor e alegria. As endorfinas possuem também efeito analgésico e na melhoria do sono.

Acrescidamente, não se podem negar os benefícios do sol, nomeadamente na produção de vitamina D e melhoria de algumas doenças de pele como a psoríase.

É tudo uma questão de peso e medida. Use o sol com juízo e todos os cuidados devidos. Na praia, no campo, na neve ou nas suas atividades ao ar livre utilize protetor solar com FPS 30 ou superior, óculos de sol, boné ou chapéu de abas largas, roupas protetoras, guarda-sol, aproveite as sombras, evite exposição solar entre as 11 e as 17h.

E lembre-se deste dogma dermatológico: o cancro da pele planta-se na infância, cultiva-se na puberdade e colhe-se na vida adulta. A pele tem memória!

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