Home>Cidadania e Sociedade>46 ANOS DE GUINÉ-BISSAU INDEPENDENTE
Cidadania e Sociedade Mundo

46 ANOS DE GUINÉ-BISSAU INDEPENDENTE

Joana Benzinho

É já amanhã, 24 de setembro, que se comemora o dia da independência da Guiné-Bissau e tanto que eu gostava que fosse um dia de alegria para o país. Mas não é assim tão evidente a vontade de celebrar a maioridade já alcancada há tantos Setembros atrás. Ainda há muito por fazer para que as palavras de Cabral façam sentido e a nação possa ter orgulho no futuro que dá às suas crianças, “as flores da nossa luta”.
A instabilidade política a par do deficiente funcionamento do estado criaram grandes fragilidades nas últimas décadas e hoje em dia a população vive do imediato, da procura do alimento para o almoço, da dose individual de medicamento para enganar a prescrição de um tratamento mais longo e dispendioso, da busca do pequeno montante para pagar a propina da escola do filho este mês, sabendo que assim pode falhar os dois ou três meses seguintes com a compreensão do diretor da escola.
Mas se a Guiné-Bissau vive entorpecida, cheia deste mal-viver, não deixa de ter um povo resiliente e cheio de sonhos, aquele que idealizou uma nação com Cabral e o acompanhou na luta até ele cair por força das balas. Gente alegre, de sorriso fácil, sempre solidária, partilhando o pouco que tem com quem nada tem. Na gamela do arroz há sempre lugar para mais uma mão. Na pequena divisão da casa onde dormem quatro ou cinco, cabe sem dúvida mais um pedaço de espuma para acolher os corpos cansados de quem precisa de ser albergado. O conceito de família é alargado e sobretudo muito forte na Guiné-Bissau. E esta corrente criada pelos laços de amizade ou de família num sentido mais lato são essenciais para que a sociedade funcione sem deixar (quase) ninguém para trás. Uma sociedade onde as mulheres, já desde o tempo de Cabral, têm um papel preponderante, assumindo a liderança da gestão dos assuntos da casa, trazendo para a mesa o sustento dos vários comensais, tratando da horta, das pequenas vendas da praça, de velar os mais velhos e cuidar dos mais novos.
E é isso que se pode e deve celebrar nestes 46 anos de independência. Celebrar uma Guiné-Bissau de gente batalhadora, de gente que muitas vezes não sabe ler nem escrever mas conhece da oralidade os pensamentos do pai na nação, Amílcar Cabral, como este, com que hoje termino esta crónica.

“Hoje os filhos do mato da nossa terra, que ontem não tinham opinião nenhuma em relação à sua própria vida, ao seu destino, podem dar a sua opinião, podem decidir, desde a questão dos Comités do Partido, até aos tribunais populares, nos quais os filhos da nossa terra têm mostrado capacidade de julgar os erros, os crimes, e outras faltas cometidas por outros filhos da nossa terra.

Essa é mais uma prova clara de que esta luta é do nosso povo, feita pelo nosso povo e para o nosso povo.

Mas vários camaradas do nosso Partido, tanto altos responsáveis como pequenos, seja até simples combatentes, não têm compreendido isso muito bem. Têm tentado fazer a luta um bocado no seu interesse, eles afinal é que são o povo. A luta é do nosso povo, feita pelo nosso povo, mas para eles. Esse é dos erros mais graves que se podem cometer numa luta como a nossa.” [Amilcar Cabral, Luta do povo, pelo povo, para o povo].

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.