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Saúde e Vida

A CRIANÇA E O DESPORTO: BRINCAR, CORRER, SALTAR

Lígia Peralta

Em setembro, iniciou-se um novo ano escolar, e para a maioria das crianças iniciou-se também uma nova época desportiva. Se o seu filho já pratica algum desporto, sabe como pode ajudá-lo a melhorar? E se o seu filho ainda não pratica nenhum desporto, sabe o que está a perder?

Nota: neste texto irei debruçar-me sobre o desporto organizado: entende-se a atividade física que é coordenada por um adulto e que implica regras, prática formal e competição regulamentada, tal como acontece no desporto escolar e clubes desportivos. Tenha atenção que, por norma, as aulas de educação física não se enquadram nesta definição.

Quais os benefícios do desporto organizado?

É sabido que as crianças que praticam desporto desde pequenas desenvolvem hábitos que as podem beneficiar ao longo da vida, aumentando a massa óssea, prevenindo o excesso de peso e obesidade e diminuindo o risco de doenças cardiovasculares. O exercício reduz também os níveis de stress, a ansiedade e a depressão, mesmo nos mais pequenos. Não menos importante, está demonstrado que o desporto pode evitar o consumo de tabaco, álcool e drogas na adolescência.

O desporto organizado pode ajudar o seu filho a melhorar as suas capacidades sociais, físicas e mentais dentro e fora de campo. Para além dos benefícios óbvios como aumentar a capacidade física, a melhoria dos índices de saúde e a socialização, existem outros benefícios dos quais pode ainda não se ter apercebido. Quer tenha escolhido um desporto individual (atletismo, natação, ténis, p.ex) quer pratique um desporto coletivo (futebol, andebol, voleibol, etc), o desporto organizado permite que o seu filho adquira uma série de competências que se perpetuam mesmo fora do campo, pista ou piscina: a confiança, a autoestima, a determinação, o desportivismo e a autodisciplina. Estas competências podem não só ajudar no ambiente desportivo como também vão ser fundamentais no dia-a-dia na escola, no trabalho e na vida social, mesmo na vida adulta.

Estudos demonstram que as crianças que participam em desportos organizados apresentam melhor capacidade de concentração e de cumprir instruções que os pares. O sentimento de pertencer a uma equipa com um objetivo comum permite que a criança perceba a importância de cumprir regras e se autodisciplinar para as suas próprias responsabilidades.

O desporto organizado é também um excelente meio para o seu filho criar novas amizades. O desporto de equipa pode ensiná-lo a confiar nos outros e pode também permitir descobrir as diferenças individuais de cada um e aprender a respeitá-las.

Embora a vitória possa ser uma sensação fantástica, uma grande lição que os desportos organizados podem ensinar ao seu filho é como permanecer positivo e ultrapassar uma derrota; permite-lhe aprender a lidar com a frustração e aceitar a responsabilidade pelos erros. Aumenta a capacidade de resiliência.

Pode demorar algum tempo para que a criança (e o adulto) aprenda a não culpar os outros quando as coisas não correm bem; mas o desporto organizado pode ajudar a criança a ultrapassar obstáculos e encontrar oportunidades para crescer, valorizando a tentativa em vez da vitória.

O seu filho está preparado para o desporto organizado?

Para que a criança esteja preparada para as exigências do desporto organizado é necessária uma série de capacidades físicas, mentais e sociais. É imperioso que as atividades estejam organizadas de acordo com as diferentes faixas etárias, e que seja tida em conta as variações individuais, pois cada criança desenvolve-se de forma e a ritmos diferentes.

Entre os 2 e os 5 anos, a maioria das crianças não possui as capacidades motoras básicas. O equilíbrio e a capacidade de atenção são limitados, e a visão assim como a habilidade de seguir o movimento dos objetos não estão amadurecidas. Procure atividades que foquem as capacidades mais básicas como a corrida, a natação, a queda, o atirar e o apanhar. Estas competências podem ser melhoradas pelo jogo livre (brincadeira) e não requerem atividades organizadas. Nesta faixa etária as crianças aprendem melhor quando podem explorar, experimentar e copiar os outros. As instruções devem ser curtas, diretas e através de exemplificação e sobretudo, devem incluir jogo e brincadeira livre. A competição deverá ser evitada. Os pais são, geralmente, o exemplo e devem ser encorajados a participar.

Entre os 6 e os 9 anos, a maioria das crianças já adquiriu as capacidades motoras básicas para o desporto organizado simples. Contudo, a coordenação mão-olho pode ainda não ser adequada a algumas das atividades motoras mais complexas, e a criança poderá ainda não conseguir compreender conceitos como o trabalho de equipa e estratégia. Os desportos deverão ser adaptados a um nível mais básico e focar nas atividades motoras simples. Sempre que sejam necessárias atividades visuais e motoras mais complexas, capacidade de decisão rápida, estratégias e trabalho de equipa (desportos coletivos), as regras deverão ser adaptadas de forma a promover o sucesso, ação e participação. O foco deverá estar na participação e aquisição de novas capacidades em vez da vitória. São estratégias utilizadas: as bolas mais pequenas, campos mais curtos, tempos de jogo mais reduzidos, menor número de crianças a jogar ao mesmo tempo, alteração frequente de posições e menor foco no marcador.

Entre os 10 e os 12 anos, a maioria das crianças está preparada para o desporto organizado complexo. A este nível, o foco deverá continuar a ser o desenvolvimento das capacidades, a diversão e participação em vez da competição em si. Neste grupo, algumas crianças poderão já estar a iniciar a puberdade, tornando grandes as diferenças físicas entre os pares. Deverá ser tido em conta que esta vantagem física nos que já iniciaram a puberdade não significa que terão maior talento e irão continuar a vingar no desporto, assim como por outro lado, aqueles que vão amadurecer mais tardiamente poderão estar fisicamente em desvantagem, mas esta situação não deverá ser traduzida numa falta de talento ou incapacidade. Estes últimos deverão ser encorajados a continuar a prática desportiva, se necessário em desportos com menor ênfase no tamanho físico, como desportos de raquete, natação, artes marciais e algumas modalidades de atletismo. Surtos de crescimento rápido podem também afetar temporariamente a coordenação, o equilíbrio e a capacidade para desempenhar determinadas tarefas fazendo com que as crianças se sintam frustradas por achar que são “trapalhonas” e sem talento, o que nem sempre corresponde à realidade.

Objetivo : vitória… ou não

Como já constatámos, o desporto organizado pode ser um fator muito positivo na vida da criança. Mas tudo depende da mensagem que a criança recebe dos adultos e dos seus companheiros de equipa. Por vezes, parece que a vitória é a única razão pela qual vale a pena competir, mas para a criança a vitória pode mesmo ser o menos importante no seu crescimento e desenvolvimento. A maioria das crianças prefere jogar mais tempo numa equipa que perde do que jogar pouco tempo numa equipa ganhadora. A forma como o seu filho lida com a competição depende grandemente daquilo que ele percebe das expectativas dos pais e do treinador. O fator mais importante para diminuir a ansiedade relacionada com a pressão da competição parece ser a experiência de diversão que a criança obtém da prática desportiva, independentemente da vitória ou da derrota.

De que forma podem pais e treinadores ajudar as crianças a não se tornarem obcecadas pela vitória?

– Procure não ser um foco extra de pressão para o seu filho, impondo expectativas pouco realísticas.

– Compreenda o desenvolvimento do seu filho – é necessário evoluir por etapas, adquirir técnicas básicas antes de evoluir para as mais complexas (correr, saltar, apanhar, lançar etc).

– Redefina “sucesso” – a criança precisa de perceber que o importante é dar o máximo, independentemente do resultado. A evolução da criança deve ser sempre comparada com ela própria e não com os outros.

– Seja positivo – as crianças querem divertir-se. Encoraje o seu filho ao dar-lhe um feedback positivo, ajudando-o a aumentar a sua confiança e construir o seu carácter. Tenha em atenção que isto não inviabiliza a crítica construtiva.

– Procure valorizar a diversão e desvalorize a vitória.

– Transmita desportivismo – aprender a respeitar o adversário e a apreciar os outros são capacidades valiosas para o futuro.

– Sempre que o seu filho precisar de incentivo, faça-o. Algumas crianças respondem rapidamente ao feedback positivo e necessitam de pouco ou nenhum reforço; outras, contudo, necessitam de mais tempo para perceber que dar o máximo é bom, independentemente do resultado.

E quando a criança quer desistir?

Por vezes, o interesse da criança em determinado desporto acaba por desvanecer, ou a sua experiência torna-se negativa. Frequentemente isto ocorre por conflitos com os treinadores, frustração por não jogar o tempo que gostaria ou também pelas diferenças físicas e de desempenho relativamente aos colegas.

Nestas situações, é importante que os pais procurem perceber quais são as verdadeiras razões que levaram a criança a querer desistir. Fale com os outros pais, pois podem existir questões comuns. Ouça o seu filho e discuta com ele os problemas. Procurem a melhor solução e se houver forma de resolver a situação, falando com o treinador por exemplo, faça-o. Embora não seja bom que a criança se habitue a evitar situações difíceis, em alguns casos desistir pode ser mesmo a decisão mais sensata. Se o fizer, procure sempre um desporto alternativo. Não permita que o sedentarismo seja uma opção.

Se o rendimento escolar diminuir, a criança deverá desistir?

Na maioria das vezes a resposta é NÃO. Todas as crianças necessitam de atividade física diária, e de forma geral as aulas de educação física não são suficientes para cobrir as necessidades. Sem o escape físico, muitas das crianças agravam os seus problemas de concentração. Se o tempo despendido nos treinos for demasiado, procure falar com o treinador para solucionarem essa questão. Ajude o seu filho a gerir os tempos livres, os tempos de estudo e os tempos de desporto. Reduza os tempos de ecrã (TV, telefone, tablet, computador e consola), contabilize este tempo se for necessário (poderá ficar surpreendido).

Neste momento, se o seu filho ainda não pratica nenhum desporto organizado, espero já o ter convencido a procurar junto das coletividades da sua área de residência quais as melhores alternativas. Converse com os seus familiares e com os pais dos amigos do seu filho sobre as opções disponíveis, procure referências.

Se o seu filho já pratica desporto organizado ou vai iniciar a prática, está na altura de se comprometer com ele:

– Assista a todos os treinos e jogos que conseguir – o seu filho pode não admitir, mas ver o sorriso da mãe ou o aceno do pai na bancada pode fazer toda a diferença;

– Pratique com o seu filho, ajude-o a melhorar as suas capacidades – ele nunca vai esquecer-se dos finais de tarde em que trocou umas bolas com ele no campo do bairro, ou dos cestos que marcou nas traseiras de casa;

– Reforço positivo SEMPRE – ocasionalmente poderá ser necessário uma crítica mais construtiva (“Eu sei que consegues lançar com mais força”), mas antes de o fazer, certifique-se de duas coisas: a) as suas expectativas são realísticas e b) deixe claro que, independentemente do resultado, o ama incondicionalmente;

– Não liberte as suas frustrações no seu filho na derrota;

– Não seja o pai/a mãe que critica os árbitros e os treinadores – muitos dos árbitros estão também eles em período de formação e errar é humano. Ensine ao seu filho a importância de respeitar as regras do jogo e aqueles cujo trabalho é fazer cumpri-las;

– Se se aperceber de que a pressão da competição é excessiva, está na hora de uma conversa com o seu filho – tenha tempo para o ouvir. Mostre-lhe que mesmo o CR7 falha remates de baliza aberta.

Uma boa época desportiva, cheia de …. DIVERSÃO!

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