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Saúde e Vida

A REABILITAÇÃO AUDITIVA É MUITO MAIS DO QUE VENDER UMA PRÓTESE AUDITIVA

Carla Guimarães Cardoso

Reabilitar auditivamente uma pessoa não é compatível com um negócio de vendas de TV. A reabilitação auditiva é uma opção de tratamento e como tal pressupõe um diagnóstico

A presbiacusia, a perda auditiva associa à idade, é a principal causa de surdez no adulto e estima-se que atinja 30% dos adultos com mais de 65 anos. Dado o aumento da esperança média de vida e a aposta, cada vez maior, numa vida de qualidade a reabilitação auditiva torna-se um ponto de cada vez maior enfoque para o indivíduo mas também para vários grupos comerciais que vêm neste campo uma óptima oportunidade de negócio.

Reabilitar auditivamente uma pessoa não é compatível com um negócio de vendas de TV. A reabilitação auditiva é uma opção de tratamento e como tal pressupõe um diagnóstico. Como é do senso comum, primeiro construímos os alicerces e depois levantamos as paredes. No caso de perda auditiva primeiro elaboramos um diagnóstico e depois propomos um tratamento. Queimar etapas e começar pelo fim tem, infelizmente, variadíssimas vezes maus resultados. Doentes com perdas sem indicação para o uso de prótese a quem foram vendidas próteses, doentes com próteses mal programadas….

Todo o indivíduo com noção de perda auditiva deve, em primeiro lugar, consultar um otorrinolaringologista no sentido de procurar um diagnóstico para a sua perda. Embora a presbiacusia seja a causa mais frequente de perda no adulto não é única e como tal as outras causas têm que ser descartadas.

Em segundo lugar o tipo de perda e grau devem ser determinados. Para isso são realizados testes audiométricos. Estes devem ser realizados por um técnico de audiologia numa sala ou cabine à prova de som e deve ser obrigatoriamente feita uma otoscopia (observação do ouvido com otoscópio) antes de iniciar o exame.

De acordo com a necessidade temos ao dispor vários exames nomeadamente:

– audiometria tonal liminar – identifica o estímulo mínimo que para cada frequência estudada tem uma sensação correspondente

– audiometria vocal – permite avaliar a inteligibilidade (capacidade de compreensão da fala) e discriminação ( capacidade de distinguir os fonemas)

– impedanciometria – timpanometria e pesquisa de reflexos estapédicos são os principais testes audiológicos de avaliação funcional do ouvido médio

– potenciais evocados auditivos do tronco cerebral – registo da actividade eléctrica da via auditiva desencadeada por um estímulo sonoro

– otoemissões acústicas – sons produzidos a nível coclear quer em repouso quer em resposta a um estímulo auditivo

Finalmente, e tendo em conta a história clínica, exame físico e estudos audiométrico efetuados é elaborado um diagnóstico e proposto um tratamento. Quando esse tratamento passa pela reabilitação auditiva a opção a apresentar ao doente tem também que ter em conta as suas necessidades específicas, prioridades, a motivação e eventuais receios face ao processo de reabilitação.

A reabilitação auditiva é muito mais do que vender uma prótese auditiva.

Hoje em dia são várias as opções de reabilitação e a adaptação protésica pode não ser uma delas.

A indicação pode ser para uso de:

– prótese convencional,

– implantes activos do ouvido médio,

– implantes ósteo-integrados,

– implante coclear

Quando no final de todo este processo, e em sintonia com a necessidade do doente se conclui que a melhor forma de reabilitação é a reabilitação protésica, aí sim, o doente deve procurar um centro de reabilitação, ou seja, um espaço físico devidamente equipado e vocacionado para a reabilitação auditiva com prótese convencional e cuja assistência seja obrigatoriamente prestada por técnicos de audiologia.

Os aparelhos auditivos electrónicos evoluíram consideravelmente desde a sua introdução no início do século XX até à introdução dos aparelhos digitais em meados da década de 60. Num aparelho auditivo digital o sinal acústico é convertido num sinal digital, neste processo é possível introduzir uma diversidade de funções na via do sinal para processar o som e assim optimizar o som que sai do aparelho auditivo.

Apesar de todos estes avanços no sentido de melhorar a audibilidade do som, a inteligibilidade da fala em ambientes auditivos adversos e o conforto no uso de aparelho auditivo o sucesso da reabilitação está muito dependente da relação técnico de audiologia – doente e da sua capacidade de perceber as suas necessidades e frustrações.

A avaliação auditiva ocorre em condições óptimas (ambiente insonorizado e a máxima atenção do doente). As situações do dia a dia apresentam uma ampla gama de ambientes auditivos, com flutuação do nível de ruído, vários intensidades de discurso, reverberação, dificuldades de dicção. Dadas todas estas condicionantes que não são reproduzíveis em ambiente de consulta é importante que o doente a reabilitar passe por um período experimental com a sua prótese de forma a perceber o seu impacto e hipótese de melhoria no seu dia-a-dia. As dificuldades que o doente encontra perante os seus ambientes auditivos podem ser ultrapassadas quando há uma comunicação eficaz com o seu audiologista e isto é impossível quando se vende uma prótese auditiva como um qualquer electrodoméstico.

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