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CHEGAR A VILA VIÇOSA : UMA AVENTURA

Regina Sardoeira
As minhas Viagens Literárias têm sido sempre marcadas por pequenos/grandes incidentes que funcionam, depois, como pretexto para a escrita.
Escrevo, agora, de Vila Viçosa, de um maravilhoso quarto de hotel, cujo nome, Casa do Colégio Velho, é bastante descritivo. Foi, de facto, um colégio de jesuítas, tendo sido adquirida a casa ou solar que lhe deu cobertura, pela via do nobre João Gomes Vieira, na antiga rua dos Fidalgos. Data, pois, este colégio de 1602. Mais tarde foi criado o colégio novo, em 1664, próximo da Igreja de S. Bartolomeu, sobranceira ao Castelo.
São informações muito rudimentares, colhidas aqui mesmo, à chegada, fornecidas por um pequeno panfleto e pela proprietária do hotel. Pude ver que se trata de uma casa imponente, com obras de arte, tapeçarias, um jardim e uma piscina…mas este conforto, um pouco inesperado, já que pouco me informei sobre o hotel aquando da reserva, não é o aspecto relevante desta minha viagem. Ou, pelo menos, não o é, neste momento.
Com efeito, a viagem foi muito mais longa do que eu esperava, não só porque, efectivamente, o Alentejo é uma região distante para nós que viajamos de Amarante, mas principalmente porque, a certa altura (e apesar do GPS ou por culpa dele, eis a dúvida), dei comigo em estradas em muito mau estado, escurissimas, desertas, sem placas indicativas e nenhum sinal de casas de habitação. Senti-me no âmago de um complexo labirinto, se bem que houvesse poucas curvas, porque o regulador digital, ou GPS, mandava-me virar à direita ou à esquerda e eu percebia que não havia nenhuma estrada nesse sentido! Avistei uma única placa a indicar a vila e fui-a seguindo, quilómetro atrás de quilómetro, para me perder mais à frente e retroceder, e depois avançar e verificar que estava a percorrer o mesmo caminho e retroceder de novo… Avancei e recuei não sei quantas vezes. E o GPS ia-me informando que faltavam 10 minutos, e a seguir, 15 e logo depois 8 e outra vez 10!
Entretanto, a bateria do telemóvel gastou-se e eu bem me esforcei para ligar o carregador ao isqueiro do carro…em vão!
Pensei que aquela situação, no meio do nada, numa estrada bastante má, em plena noite, sem qualquer orientação fidedigna, daria azo a um sentimento de profundo terror. Pensei nisso. Imaginei-me a dar voltas e voltas sem fim, tragada pelo negrume, sem a mais ténue possibilidade de pedir auxílio, absolutamente impossibilitada de contactar alguém ou de ser contactada, a terminar, exausta, toda dorida depois de conduzir mais de 500 quilómetros, encostada numa berma, sujeita ao roubo, ao homicídio, à violação e outros perigos mais. E contudo, não senti nenhum destes receios, somente pensei neles, como cenário da minha imaginação, sem qualquer correspondência emotiva. Uma espécie de vórtice ia-me tragando e a máquina continuava a dar-me ordens impossíveis de concretizar.
Passei duas vezes por um sítio onde havia duas placas. Dei-lhes a volta e percebi que Vila Viçosa era, justamente, no sentido oposto ao que eu levava! Retrocedi mais uma vez, reconheci uns marcos na beira da estrada a lembrarem-me tempos muito antigos, passei de novo por uma ponte sobre não sei que rio e usando mais o meu instinto do que o GPS soube que chegara, por fim, a uma localidade. O sinal foi o prosaico anúncio da proximidade do Intermarché!
Pois bem, já era alguma coisa:  onde há o Intermarché há consumidores, logo há gente!
Entrei num espaço urbano. Deserto, mas com um traçado evocador de faustos antiquíssimos; mas seria mesmo Vila Viçosa? Não vi nenhuma placa anunciativa, embora acredite que decerto haverá uma… Fui entrando. A voz do GPS continuava a propor-me seguir direcções impossíveis e, finalmente, vi um casal com ar friorento, (eu estava cheia de calor!), abri a janela e perguntei: Estou em Vila Viçosa?
Por fim, a resposta afirmativa, por fim, o caminho certo para chegar onde queria!
Não sei nada sobre a paisagem real dos lados das estradas por onde me perdi; sei que são alentejanas mas, confesso, pareceram-me rotas perdidas num mundo abandonado.

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