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Cultura, Literatura e Filosofia

A NECESSIDADE DE DAR VOZ À INTELIGÊNCIA

Regina Sardoeira

A inteligência é “a resposta criativa ao agora”. Li esta definição num livro que acabei de ler, de Osho, guru indiano, intitulado “Inteligência” e que é a transcrição das inúmeras conferências e palestras que ele foi fazendo ao longo da vida.

Reflecti sobre a especificidade desta definição de inteligência. Percebi que confundimos, demasiadas vezes, a inteligência com o conhecimento e ainda que o conhecimento resulta de uma acumulação de saberes transmitidos por outrem e arquivados na mente, pela memória.

Enquanto humanos, envolvidas na civilização e comandados por múltiplos sistemas educativos, soterramos a nossa inteligência, inata, natural e única, numa teia gigantesca de conceitos. E esquecemos, gradualmente, a nossa força original.

Responder criativamente ao agora é perceber que este é o único momento que temos de certo e de seguro, que o passado e a designada experiência não podem ser o suporte do nosso presente e que o futuro é a miragem do que há – de vir e só poderemos avaliar quando se tornar presente e nos pedir uma resposta.
Criativa – porque é absolutamente nova e única, exigindo a aplicação do nosso engenho.
Isso, a centelha de vida que está presente em todos nós, quando nascemos, que é absolutamente visível na criança, nos seus primeiros anos, vai ser progressivamente contaminado pelas imposições e regras da família e da sociedade, tornando-nos fracos, dependentes e previsíveis.
A sociedade existe em função do progressivo esmorecimento da nossa inteligência e existe com fracos e fortes, opressores e oprimidos, chefes e subordinados. Não há qualquer razão para seguir um líder, seja ele político, religioso ou ideológico; o líder é, por sua vez, um ser humano pleno de inseguranças que mascarou de certezas, para difundir aos outros e ganhar poder.
Há, na história contemporânea, muitos desses vultos, aparentemente certos das verdades que propalaram e capazes de, pela astúcia, manobrarem as multidões.
Evoco um dos mais influentes, Adolf Hitler. Em si mesmo, enquanto indivíduo, não era particularmente brilhante. Mas apanhou a corrente do seu tempo, o zeitgeist, revelou aptidões declamatórias, liderou movimentos de propaganda, ao serviço de uma ideologia a ganhar raízes – o anti-semitismo – e da obscura condição que o fazia vaguear, pobre e sem abrigo pelas ruas de Viena, chegou, praticamente, a liderar o mundo.
Quem o seguiu e lhe deu maioria absoluta, em eleições, foi o povo alemão que, se analisarmos a história, teve, invariavelmente, homens de génio. Os alemães não são e não eram estúpidos ; e contudo depuseram as suas existências aos pés de um falso iluminado.
Quando estudei o filósofo alemão Martin Heidegger, soube que ele havia sido membro do partido nazi. Soube também que foi um dos maiores filósofos do século XX. E a minha questão permaneceu até hoje: como é possível um pensador daquele nível ter na sua história de vida semelhante registo ignominioso?
Soube ainda que os seus discípulos, percebendo ou interiorizando o horror das práticas nazis, tentaram ocultar essa filiação do mestre. Mas eu vejo que Martin Heidegger e outros alemães, muitos degraus acima da inferioridade de Hitler e dos seus cúmplices, cegaram, episodicamente, perante o poder das palavras inflamadas do líder e da apoteose das multidões; e deixaram-se seduzir.
Empenharam, portanto, a sua inteligência a uma ideia, indefensável, mas aparentemente lúcida, apregoada por um palhaço erguido no pedestal da grandeza. Quando caíram em si, já era demasiado tarde.
Todos os líderes da história são, no fundo, manipuladores das consciências. Consciências distraídas, vulneráveis, comodistas. Consciências obnubiladas, confusas, dependentes. Consciências esvaídas, trôpegas, afuniladas, cegas.
E muito velhas, na medida em que o que se agita nas tortuosidades do seu pensamento, da sua mente, são os ensinamentos ancestrais, gastos pelo uso, mas chamados continuamente a responder ao momento presente.
Sem dúvida que há exemplos do passado que talvez importe revisitar. Mas sempre à luz da inteligência de agora, veiculados pelo espírito do momento actual.
Falhou a prática nazi e os alemães não reproduziram, pelo tempo fora, a força dos seus genes, por oposição às raças tidas como inferiores; de modo idêntico, os judeus, crentes, desde sempre, na escolha divina que teria feito deles o povo eleito, não conseguiram sobrepor essa idiossincrasia ao resto do mundo. O comunismo, outra utopia grandiosa, capaz de salvar a humanidade, foi viciado pela boca e pelos actos de certos líderes; e corrompeu-se. O cristianismo, essa brilhante utopia, pregada por um judeu, seguidor das escrituras, foi alienada até à completa desfiguração. E poderíamos acrescentar novos – ismos à lista degradante dos movimentos envelhecidos que a humanidade insiste em reproduzir continuamente.
Falta-nos o engenho criativo de responder ao agora, e falta-nos, não porque não sejamos capazes de o reencontrar, cá dentro, e falta-nos, não porque não sejamos capazes de o reencontrar, cá dentro, no intervalo escuro entre dois pensamentos. Temos medo do escuro, a humanidade começou a temer a noite, a inventar fantasmas e horrores que sairiam das trevas; e empunhou os archotes milenares para afugentar o que era, afinal, inexistente. Era necessário ver para lá da cultura, da civilização, do ensino, dos mestres. Era necessário fazer a grande pausa e empreender o mergulho na fonte das nossas origens. E perder o medo de, finalmente, ser.
O que eu vejo, agora com uma prolixidade assustadora, é o culto das efemérides, a celebração de centenários, a repetição contínua dos feitos, ditos grandiosos, de gente cujo tempo já passou. Ninguém se lembra de celebrar o agora, em si ou no vizinho do lado, ninguém parece ocupar-se da manutenção da pureza cintilante de uma criança que abre os olhos para o mundo, ninguém presta atenção ao instante, único e fugaz, de que somos realmente donos.
Somos repetições ambulantes de sofismas desprovidos de conteúdo, acreditamos num amontoado de mentiras que vão sendo de tal modo repisadas que já nos parecem a verdade.
Que importam escritores, poetas, filósofos, artistas de há cem, duzentos ou mil anos? São demasiado velhos, todos eles, para nos darem a resposta de que temos necessidade agora. Cada um desses foi um homem ou mulher do seu tempo e fez-se grande, exactamente, por dar a resposta pessoal ao tempo em que viveu. Esse tempo está sepultado noutras eras, não serve ao presente que temos e que somos, não é “a resposta criativa ao agora” porque foi inventada por outrem para uma circunstância diversa.

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