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AMIGOS DE PENICHE

Regina Sardoeira
Nova Viagem Literária. Desta vez, escolhi Peniche, de forma aleatória, à semelhança do meu procedimento relativamente às outras quatro. Creio que, quando pensava no itinerário e estava fixada em Silves, no Algarve,  e um pouco irresoluta, quanto a esse destino, dada a distância, alguém disse, perto de mim, Eu sou de Peniche!
Ignoro totalmente quem foi essa pessoa, natural de Peniche, que deste modo me fez evocar um sítio, onde estive há muitos anos e de onde parti, de barco, para acampar, uma noite, na Berlenga. Foi uma bela experiência.
Quem olha, da costa, para as ilhas, em frente, tem a impressão de que podemos alcançá-las com meia dúzia de passos, ou de braçadas, uma vez que ainda não conseguimos caminhar sobre as águas. E contudo, lembro-me bem, a viagem demorou uma hora.
Foi uma travessia calma, era verão, o dia estava magnífico e podia ver-se, à transparência, o fundo limpo do mar.  O barqueiro e outros passageiros referiram a nossa sorte, já que, invariavelmente, o mar se encapela, naquele percurso, provocando desconfortos vários. Agradeci à sorte; e pude desfrutar da inusitada sensação de vogar no balanço suave das ondas e ver aproximar-se,  com crescente majestade, o volume árido da ilha.
Não me lembro das características do barco. Sei que, naquele tempo, era necessário pernoitar, e fazer a viagem de regresso no dia seguinte. Duas ou três memórias me ficaram dessa estadia.
Embora deserta e inabitada, sem água ou possibilidade de cultivar fosse o que fosse, observei, logo à entrada um conjunto de casas. Percebi que havia um restaurante e lembro-me que ali se praticavam  preços exorbitantes por uma refeição vulgar, já que os viveres eram transportados de barco, assim como tudo o que fosse necessário para fazer uma refeição.
A ilha percorria – se rapidamente, toda ela estéril, com uma cisterna de recolha das águas pluviais, como abastecimento possível. No extremo, construída até ao mar, uma pousada. Naquela época, estava ocupada por locatários de férias, sócios de um clube de Peniche. A cozinha era larga e comunitária e os hóspedes partilhavam, ali, as refeições.
De noite, amámos a tenda no local apropriado. A nota dominante dessas horas foi a conversa intensa das múltiplas gaivotas que ali se acoitavam.
De manhã, o deslumbramento da praia, naquele tempo pouco frequentada, a areia branca e a água transparente e límpida, o céu a confundir-se com a vastidão oceânica e a lançar – nos para o infinito.
Fiz uma breve pesquisa e sei que, hoje, as ilhas Berlengas são invadidas por veraneantes, barcos, banhistas e todo um comércio turístico comanda as actividades de ida e volta. Por isso, ainda bem que fui à ilha Berlenga num tempo mais propício a um calmo usufruto. Confesso que me custa imaginar aquelas águas transparentes repletas de banhistas, o mar sulcado por barcos de todas as cores e tamanhos, a solidão da ilha repleta de multidões e a terra calcorreada infatigavelmente. Irei a Peniche, mas não à Berlenga.
A título de curiosidade e porque evoquei a expressão portuguesa, “Amigos de Peniche”, dei comigo a investigar.
Como sabem, é muito fácil, hoje, descobrir praticamente tudo num breve movimento dos dedos sobre o teclado do computador. Escrevi “amigos de Peniche” : e fui invadida pela História de Portugal.
Eis o que encontrei:
” A expressão tem origem no contexto da crise de sucessão de 1580, quando Filipe II de Espanha obteve a coroa portuguesa em detrimento de D. António, Prior do Crato. Em 26 de Maio de 1589, uma força de 6500 soldados ingleses desembarcou na praia da Consolação, próxima de Peniche, sob o comando de Robert Devereux, 2º Duque de Essex. Fazia parte de uma expedição militar de 140 navios e 27 600 homens (ou 20 000 homens e 170 navios) sob o comando de Francis Drake e pelo almirante John Norris, com ordens de Isabel I da Inglaterra para recolocar D. António no trono de Portugal e restaurar a soberania portuguesa. Simultaneamente com a legitimidade de respeitar a Aliança Luso-Inglesa, Isabel I desejava impedir os esforços espanhóis de reconstituição do poderio naval após a derrota da Invencível Armada, e evitar uma nova tentativa de invasão espanhola à Inglaterra. A acção militar começou com sucesso: a Praça-forte de Peniche caiu em poder dos homens de Essex e a guarnição portuguesa, submetida ao comando espanhol, não opôs grande resistência. Enquanto as tropas que desembarcaram rumavam, por terra, a Lisboa, o resto da frota, sob o comando de Francis Drake, seguiu para Cascais. Os objectivos da invasão eram cercar Lisboa por terra e por mar, e ocupar os Açores de modo a cortar a rota da prata espanhola. A palavra foi passando entre os portugueses: “Vem aí os nossos amigos, que desembarcaram em Peniche…”, mas no caminho para Lisboa as forças inglesas mereceram a desconfiança portuguesa ao saquear Atouguia da Baleia, Lourinhã, Torres Vedras, e Loures. Às portas da capital as forças terrestres colocaram-se inicialmente no Monte Olivete (actual freguesia de São Mamede) mas mudaram-se para a Boa Vista, o Bairro Alto e depois para a Esperança, quando D. Gabriel Niño abriu fogo com os canhões do Castelo de São Jorge. A artilharia prometida por Isabel I a D. António não viajara na expedição, o que limitava a capacidade de resposta dos ingleses.
Os ingleses não esperavam era que o Duque de Bragança, D. Teodósio II, como grande rival político de D. António, condestável de Portugal, ao perceber que as forças que avançavam não tinha o apoio necessário para vencer, põe-se a favor dos castelhanos. É por esta razão, à frente de um exército de 6.000 homens e portugueses, reforça as defesas de Lisboa.
Em Cascais, Francis Drake aguardava a entrada terrestre em Lisboa para cercar a cidade no rio Tejo; mas os homens de John Norris foram ineficazes no ataque à capital bem fortificada e melhor defendida, onde os espanhóis tinham reforçado a guarnição e a repressão. As prisões estavam cheias, as execuções de resistentes sucediam-se. Entretanto, os patriotas dentro das muralhas que estavam prontos a combater e sabiam do desembarque inglês interrogavam-se: “Que se passa com os nossos amigos que desembarcaram em Peniche? Quando chegam os nossos amigos de Peniche?”
O empenho dos portugueses na ação militar também falharia. De modo a conseguir o apoio militar de Inglaterra, D. António recorrera ao argumento de que as populações portuguesas se sublevariam ao seu lado contra os espanhóis, de tal modo que talvez nem fosse necessário combater. Mas a ocupação assentava numa repressão feroz, reforçada com a ameaça da invasão, e o levantamento popular não aconteceu.
Menos de um mês depois do desembarque, a expedição inglesa regressou à armada ancorada em Cascais, deixando os portugueses, adeptos do prior do Crato, a perguntar-se o que era feito daqueles “amigos de Peniche”. Mais atacados pela peste do que em combate, os ingleses tinham sofrido danos importantes sem alcançar qualquer dos objectivos. Desde esse tempo, a expressão “amigos de Peniche” passou a designar todos os falsos amigos.
Existe uma outra lenda, sem fundamento histórico, sobre a origem da expressão: durante o cerco a Lisboa, nas invasões napoleónicas , a população de Peniche teria prometido transportar víveres por mar para o porto da capital. Mas nunca teriam aparecido, nem sequer tentado, e as pessoas no porto ficaram a desesperar pelos “amigos de Peniche”.
Devido à imagem negativa que os penichenses acarretam devido à expressão, a Câmara Municipal de Peniche divulgou e realizou uma encenação da versão histórica dos acontecimentos, com os objectivos de repelir o anátema e “identificar os autênticos amigos de Peniche”. A encenação teve lugar na Fortaleza de Peniche em 27 de Maio de 2006.”
Logo, e após esta pesquisa ligeira, na Wikipédia, eis-me a preparar uma viagem, desta vez pelo litoral, a um sítio impregnado de história e, de novo, como em Valença, marcado por guerra, ganância e carnificina. A história dos homens é assim. 

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