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Cultura, Literatura e Filosofia

SORTILÉGIO ALQUÍMICO

Regina Sardoeira

A noite tem um movimento próprio, mesmo quando nada se mexe, e chama-nos a todos para um deserto líquido  onde flutuam embarcações, serenos mensageiros de outros territórios onde a luz esculpiu  memórias e mitos. Eu sei (sempre soube) que a verdade não tinha qualquer poder, essa verdade que os corvos levantam na poeira dos trigais, se poeira houvesse, e, enquanto escutávamos a voz irremediável de qualquer ente desabrido nas esferas de um segredo, se segredo houvesse. Porque, de dia, toda a voz se dispersa em torrentes de euforia e só a noite rende o suspiro da alma em trepidação vagueante, em movimento de acaso.

Por isso  (atrás, sempre atrás) trouxe comigo o negrume, esse que me empresta uma cintilação que nem sequer é luar reflectido em paredes espelhadas ou  luz moribunda de um sol consumido, mas o brilho próprio de um espírito aceso aberto para despertares e ecos e loucuras.

Vibrantes e esparsas adejavam cordas prisioneiras, desfeitas em pequenas clareiras de planície, cordas, mas de corações enaltecidos, cordas, feitas artérias e veias por onde pulsa o sangue primordial de deuses olvidados nos côncavos  de outrora.

Nem tu (nem eu) (nem eles) havíamos previsto a tempestade. Mas nada nos desviou da senda, uma vez cumprida a memória, essa, que nos rende o presente e nos lança o futuro em pazadas silenciosas de húmus fecundante.

E quando, por fim, as raízes romperam no solo embravecido, dando lugar a uma serena vibração de sombras verdejantes, todos vislumbraram o prenúncio do tempo a apontar o norte, sempre o norte, como se o sul houvesse perdido o deflagrar da aurora.

Mas não é na noite que o movimento encontra a vida, a noite estreme sem luar, sem pequenos luzeiros vindos do infinito, a noite, sortilégio alquímico, corrente do ser?

 (E se houver sentido no pensamento altaneiro tecido nas escarpas da noite, esse será sussurrado a todos os ouvidos, porque todos foram feitos para ouvir, mas apenas um ou dois saberão compor as notas dispersas da sinfonia e romper, com ela, o silêncio extático de qualquer solidão).

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