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CRIANÇAS POR INTEIRO

Joana Benzinho

Um dos encantos que a Guiné-Bissau guarda é vermos as suas crianças, muitas, a brincar sem vergonha e sem medos na rua, desde que o dia nasce até que o sol se põe, se for preciso. Tratando-se um país com uma população maioritariamente jovem, é de imaginar, para quem não conhece, a algazarra que se ouve pelos bairros circundantes de Bissau ou na tanta Guiné-Bissau que existe para lá das fronteiras geográficas da capital.

E como dá gosto vê-los. Respirar aquela alegria ingenuamente gritada ao vento, ao sol ou à chuva. Não por desapego, mas por necessidade de lutar pelo pão diário, as mães deixam as crianças muitas vezes entregues aos irmãos mais velhos e é vê-los a fazer travessuras e a inventar brincadeiras com os muitos amigos que como eles saltam para a rua logo pela manhã.

As latas de atum ou de “corned beef” atadas com um cordel fazem os comboios que eles só conhecem de ouvir falar e os imaginam de uma form sublime; os pneus velhos das bicicletas, empurrados com paus, fazem maravilhas a rodar pela estrada fora; o garrafão da lixívia ou da creolina com umas rodinhas de madeira faz de carro, de camião ou até de pato, conforme a imaginação; a chuva serve para tomarem naturalmente banho mas também para inventarem mil e uma brincadeiras que lhes permitam ficar ensopados dos pés à cabeça, saboreando a frescura da água da chuva em dias de muito calor e humidade; um trapo, garantidamente sem outra utilidade para a mãe, acaba numa bola de futebol e as bonecas existentes, quando existem e mesmo se velhinhas, dão sempre para entrançar o cabelo e carregar às costas, naquilo a que chamam “bambaram” e que traduz tão bem a maternidade africana.

São infâncias que desconhecem o telemóvel de última geração, o portátil, a consola, os desenhos animados da televisão, o Youtube ou o Netflix, a ultima boneca ou os jogos que passam insistentemente nos períodos publicitários dos meios de comunicação. Perdem por isso? Acho que não são menos crianças que os nossos jovens ocidentais por isto. Aliás, desenvolvem nos primeiros anos de vida muito mais competências sociais. Por vicissitudes do país, faltam-lhe naturalmente muitas outras coisas, mas se não sofrerem de má nutrição ou de problemas de saúde assinaláveis, a verdade é que uma infância feliz e em pleno ninguém lhes tira.

São crianças por inteiro e não há sorriso mais bonito de captar que o das meninas e dos meninos guineenses a correr entre a poeira da terra vermelha que se solta à sua passagem e deixa propagar as suas gargalhadas que nos fariam corar de inveja se chegassem até este nosso canto ocidental.

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