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O EXCEDENTE E O NECESSÁRIO : UMA DICOTOMIA DESTE TEMPO

Num tempo e numa época em que todos querem fazer o bem – quando escrevo tempo, falo do século XXI, quando digo época, falo do Natal – espanta-me, sobremaneira, que ainda haja necessidade de caridade, solidariedade, beneficência.

A humanidade evoluiu muito, é verdade. Mas evoluir não significa melhorar, está demonstrado. Se desta evolução houvesse resultado benefício para todos e para cada um, poderia dizer-se que evoluir é melhorar ; pelo contrário, cada vez mais as diferenças sociais são tangíveis, os prejuízos na natureza são manifestos, o homem sente solidão, no meio dos outros homens.

Dir-se-ia que a evolução é meramente tecnológica, porque a ciência, a arte, a poesia, e tantos outros produtos da inteligência humana existiram muito antes da revolução industrial e tecnológica.

Temos, de facto, muitos mecanismos ao nosso dispor e orgulhamo-nos deles. Mas permanecemos encerrados nas nossas conchas individuais, mercê, decerto, desses mesmos mecanismos alienantes.

Por isso, neste tempo de obrigatoriedade do bem, quando ser bom é coercivo e fica mal não responder ao apelo, pratica-se a caridade, a solidariedade, a beneficência. Falsos valores, contudo, valores negativos, também, porque mostram à saciedade que uns podem dar, sem prejuízo da sua integridade, o excedente, àqueles a quem falta o necessário.

Palavras que podem ler – se rapidamente e passar adiante, mas que deveriam ser alvo de profunda reflexão. Há o excedente, para uns – quer dizer que esses têm bens de que não precisam. Ora esta verificação é assaz estranha. Se eu tenho coisas de que não preciso, por que razão as adquiri? Ou se, com o tempo, certas coisas deixaram de ter préstimo, para mim, por que razão hão – de ter préstimo para outrem?

Há, por outro lado, o necessário. Se alguém não tem o necessário e sofre privações, que razões estarão na base dessa condição? Porque terão a caridade, a solidariedade, a beneficência obrigação de dotar do necessário aqueles que o não têm?

Obviamente que essas respeitáveis instituições vão apelar aos que têm excedentes que abram mão de uma parte, para resolver o problema daqueles a quem falta o necessário.

Vendo a situação por este prisma, é evidente a conclusão de que os homens, na sociedade, não têm iguais direitos. Relembremos : a caridade, a solidariedade, a beneficência só podem realizar-se porque os que têm a mais cedem uma parte aos que têm a menos. Existe, pois, na nossa evoluída sociedade do século XXI, uma dicotomia óbvia : de um lado os que podem dar, porque esbanjaram consigo mesmos, do outro os que almejam receber porque carecem do necessário.

Bastavam pequenos (grandes) ajustes para tudo ficar equilibrado entre os homens ; e todavia, quando chega esta época, um surto de bondade ergue-se das multidões correndo pelos locais de consumo, a comprar o excedente, para o seu próprio interesse e, pelo caminho, a lançar uma migalha aos necessitados.

É, sem dúvida, uma tremenda contradição. Fazemos a festa, com toda a pompa de que somos capazes, distribuímos, reciprocamente, presentes, criando, naqueles a quem oferecemos coisas, um potencial excesso; ao nosso lado, talvez por baixo da nossa janela, alguém se aquece com o nosso casaco velho e come o que sobra da nossa mesa.
Muito mais urgente que a preservação do meio ambiente e consequente luta pela travagem das alterações climáticas me parece ser a reconstrução do mundo humano. Focamo-nos demasiadamente no longínquo, na missão salvadora de um planeta torturado e esquecemo-nos do que está próximo e é de alcance imediato.

Salvar o planeta? De quê? De nós próprios que desta forma o temos dilapidado?

Mas, não tenhamos dúvidas, tudo se resume ao culto do excesso, ao armazenamento fútil do supérfluo, ao consumo parasitário do inútil. Se a Terra geme, esmagada por detritos, corrompida na sua atmosfera, repugnante nas suas águas, não será por culpa da leviandade com que temos evoluído? E por que razão só agora o descobrimos?

Urge que o homem, na sua individualidade essencial, se veja bem a si mesmo para perceber o que pode mudar em si. Não no pobre que mendiga o alimento, não na terra que reclama protecção, mas em si: a mudança só pode verdadeiramente exercer-se de dentro para fora.

Plantar árvores, limpar os oceanos, reciclar materiais e tantas outras actividades propaladas neste tempo e nesta época serão tarefas válidas, sem dúvida. Mas são também precárias, insuficientes, residuais. Porque cada um não observou em si mesmo o que está mal, bem no íntimo, naquela morada secreta de que nem sempre tem uma nítida consciência. E enquanto não se dispuser a mudar realmente o que está mesmo ali, debaixo dos seus olhos, e lhe é prejudicial, não será capaz de mudar, significativamente, o mundo.

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