Cultura, Literatura e Filosofia

DEPOIS DO NATAL

Regina Sardoeira
Depois do Natal, observo um mundo idêntico , nem melhor, nem pior, o que prova, se provas fossem necessárias, que estes intervalos no tempo profano deveriam ser sagrados e não são. Os homens baniram a atmosfera mágica que os reenviaria para um novo mundo, um novo agora, um novo ser, transformando estas épocas de um culto ancestral em ocasiões únicas de banalidade, ainda que enroupada de atavios festivos.
Está um belo dia de inverno, céu límpido e sol, frio que baste para indicar que é Janeiro, e não Agosto, e já os meteorologistas de serviço anunciam muita chuva, muito frio para os próximos dois meses! Eu acho que eles agoiram, com estas profecias científicas, não creio ser possível uma premonição a tão longo prazo, a menos que se tenha o dom da presciência ou pré – ciência… antes da ciência, portanto. Mas antes da ciência pontificavam os augúrios místicos, as leituras de sinais, a crença  nas forças ocultas… e não é, exactamente isso, a ciência? Em tempos recuados, praticava-se a adivinhação, escutava-se a voz interior depois de atender ao exterior, liam-se os astros, as nuvens, o vento, as correntes de água, as vozes dos animais e, dessa introspecção, cuja fonte era a observação do mundo, nascia a previsão para o outro dia.
Acertavam? Nem sempre, porque iam mudando os indícios e os sinais de hoje variavam, relativamente aos sinais de ontem, e o futuro prenunciado poderia igualmente variar.
Ontem, como hoje, só é possível compreender os fenómenos da natureza, observando os seus efeitos, tentando entender as suas causas, guardando, na memória, a experiência e o que a antecedeu e, a partir daí, entender, como prognóstico, o futuro. Ontem, como hoje, o procedimento é este. O que se avança, para além destas verificações e previsões, é adivinhação.
Não há dúvida que é tentador lançar os olhos físicos para além deles e conjecturar. Eu própria gosto de fazê – lo; e, pela e na imaginação, construo perspectivas infindáveis.
Eis a palavra exacta: imaginação.
Pela imaginação supre-se o conhecimento, esse que, entre os homens, vai suprindo, igualmente, porções consideráveis da realidade. Como ajustar a realidade, na sua íntegra totalidade, às limitadas dimensões do olhar humano, do cérebro humano, da inteligência humana? E mesmo, é lícito perguntar: o que é a realidade?
Falar de Natal, de celebração do Ano Novo, por exemplo, é aludir a hábitos ou tradições que pedem muito pouco à capacidade inventiva dos homens : porque tudo foi estabelecido há muito tempo e agora só resta a imitação.
Olho, por exemplo, as luzes e os enfeites, exibidos nas ruas e praças da cidade, e o que chama, acima de tudo, a atenção, é a amálgama cada vez maior de cores e de movimento, a sobreposição de faixas cintilantes saturando todo o espaço de visão  disponível. Os tapetes vermelhos, corridos pelos passeios, estrategicamente dispostos em zonas comerciais, apelam a um consumo, para o qual já nem é necessário apelar, pois tornou-se prática estabelecida. Quem passa pelo Natal sem correr as lojas até ao último momento, no temor de não ter adquirido o volume e o número estipulado de presentes?
Ouvi dizer que é costume ( para além do inevitável acervo de desperdícios oriundos das embalagens, tornadas inúteis logo que são abertas as prendas) haver ainda contentores do lixo repletos de objectos, absolutamente novos, rejeitados no dia a seguir ao Natal. E é triste, de duas maneiras.
Em primeiro lugar, aquele que ofereceu não pôde ou não soube ou não quis encontrar a utilidade ou o encanto nas coisas que, afanosamente, escolheu e atribuiu; em segundo lugar, quem recebeu não pôde ou não soube ou não quis ter a dignidade de ser grato a quem o lembrou, num presente, ainda que inútil.
São pensamentos antagónicos, já que um subverte o outro: se eu não sei o que convém, como oferenda, àquela pessoa, em particular, porque insisto em comprar uma mera bagatela? E depois, aquele que recebe, porque não se cala ou, no limite, porque não diz exactamente o que sente a quem o agraciou? Bem sei que é difícil dizer a verdade, principalmente quando dela irá decorrer mal-estar (e o mal-estar, civilizacionalmente, deve ser arredado destas comemorações). Mas não seria preferível?
Confesso não saber a resposta.
E é exactamente com esta perplexidade que encaro todos os aspectos da realidade, essa que não é possível abranger por ser, umas vezes minúscula, mas parte constitucional de um todo mais amplo, outras vezes imensa, mas feita de grãos invisíveis à observação vulgar.
Está um belo dia de sol, quase no poente, que estes dias, de Inverno estreme, ocultam a luz demasiado cedo.

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