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ANIVERSÁRIO DA MORTE DE INÊS DE CASTRO

Anabela Borges

[ANIVERSÁRIO DA MORTE DE INÊS DE CASTRO]
Rainha póstuma 👑
(morreu em 07 de Janeiro de 1355, sempre VIVA para o AMOR).
❤️
Inês viu-se num espelho baço, com manchas e veios de cor sépia, redondo e saliente como uma bolha, o seu rosto aproximado, desfocado como numa lente, e os seus olhos espavoridos a crescer à medida do terror, os lábios aumentados num espanto que parecia querer anunciar, por uma vez, a tragédia.
As horas não tinham sido as useiras, ou sequer se assemelhavam ao passar das horas deste mundo. Inês via-se rodeada de um roçagar de sussurros, trejeitos e olhares que não entendia e, em lhe retirando o entendimento, retiravam-lhe também a razão. Parecia que a realidade estava à espreita por entre as sombras de um mundo paralelo, e o encantamento que, até aí, lhe iludira os dias, soltava-se lentamente, restando-lhe um arrepio na pele e uma inquietude impossível de nomear.
Inês corria, em repentes, pelas alas e galerias do palácio. E, por vezes, detinha-se, debruçada na balaustrada aberta ao pátio interior, o seu corpo frágil, alvo e descarnado, pois que trazia o rosto macilento, de um cinza enevoado e parecia andar em vómitos, a deitar fora o fel de todo o mal que lhe andavam a pôr dentro, dos refluxos do corpo, pois que o corpo não queria guardar para si o que lhe não pertencia.
Lá fora, a tarde caía num diluído azul profundo, e mais ao longe, adelgaçado de cobres e pintalgado de púrpuras.

*Livro: OS ANJOS DE PEDRA (Pedro & Inês), de Anabela Borges, Edições Sem Nome, 2015;

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