Home>Cidadania e Sociedade>QUE NUNCA NOS FALTE A CORAGEM DE SAIR DE CAMPO
Cidadania e Sociedade

QUE NUNCA NOS FALTE A CORAGEM DE SAIR DE CAMPO

Sílvia Ferreira de Carvalho

Bento Rodrigues, Jornalista, na abertura do Jornal, da SIC, às 13h, do dia 17 do corrente mês, referindo-se a Moussa Marega, enquanto podíamos ver a foto deste último de fundo.

“Começamos este jornal com o rosto do caráter, da coragem e da lucidez. A coragem de ser o primeiro futebolista em Portugal e um dos poucos do mundo a abandonar um jogo depois de ouvir insultos racistas.

O caráter de desafiar os que o tentaram travar sem perceber que já não era sobre um jogo de futebol, nem o resultado, mas sobre o que nos define enquanto civilização. A lucidez de saber que este é um momento que define o homem. Que esta atitude vai muito para além de um estádio, que tem impacto nas ruas, nos bairros, nas vidas daqueles que sofrem insultos racistas todos os dias”.

Com estas palavras sensatas e sábias, que faltaram a tantos que são pagos por nós, o jornalista, Bento Rodrigues, expressou a sua posição com perspicácia e lucidez, quanto aos episódios racistas do dia anterior, que haviam tido lugar no jogo de futebol, que opôs o Vitória Sport Clube ao Futebol Clube do Porto, palavras essas que nos fizeram acreditar que todos iriam agir com a mesma sensatez, depois da noite de vergonha que Portugal tinha vivido, resultado dos episódios racistas a que havíamos assistido no dia anterior, que nos encheram de desilusão e mágoa, ao sentir que tínhamos regredido em matéria civilizacional e que levou pelas piores razões o nome de Portugal, a todo o mundo, em boa verdade era impossível que fosse diferente, quando um crime daquela gravidade é cometido por um grupo de pessoas. num espaço com milhares de pessoas, e num evento que estava a ser transmitido pela televisão, era inevitável a repercussão daqueles episódios, infelizmente talvez essa fosse necessária, para que muitos tivessem que tomar uma posição.

Não nos podemos esquecer que estamos a falar de um crime punido com uma pena de prisão de 6 meses a 5 anos, moldura essa que só por si demonstra a gravidade daquilo que entrou pelas nossas casas, sem nos pedir autorização, e que nos deixou inicialmente chocados e depois envergonhados.

O que se seguiu, na televisão, nos jornais e na Internet, permitiu-nos perceber que o lodo social, que sempre existiu, continua aí e que, atualmente, até tem voz no parlamento, à esquerda e à direita, por pessoas que apenas visam o voto, e portanto usaram o episódio dramático que havia sucedido meramente nesse sentido, mas a maioria do país reagiu da forma que se impunha, com indignação pelo sucedido e total apoio ao jogador Moussa Marega, a quem de resto temos que estar gratos, pela coragem em dizer com a sua atitude, que merece dignidade e respeito, pois é algo que não só merece, mas que nossa a lei garante.

Não podemos permitir que essa minoria, que nos envergonhou, ganhe voz, pois certamente não é esse o mundo em que a maioria pretende viver, mas não basta não cometer o mesmo crime e não pensar igual, este é daqueles casos que temos que ser do contra, e afirmar isso sem medo, pois não se percebe como tanta gente, que teve tempo de antena, falou com pinças do assunto e até o desvalorizou, com a desculpa que é futebol, lamento mas aquilo são actos racistas, tenham eles lugar no futebol ou em qualquer outro evento do nosso dia a dia, aliás aquele deveria ter sido um dia normal da vida do Moussa Marega, pois ele estava a exercer a sua atividade profissional, assim em vez de esse facto ter servido para desvalorizar, devia ter servido sim para agravar o sucedido.

Razão pela qual temos que olhar para o caso que sucedeu com o Moussa Marega com a gravidade que ele merece, sem esquecer nunca que estamos perante um crime, que não só se encontra plasmado no Código Penal, entre outros diplomas, como a própria Constituição da República Portuguesa, que enquanto nossa lei maior, repudia o racismo veementemente.

Face ao exposto, gostava de pedir àqueles que lerem este artigo, para pensarem como se sentiriam se estivessem no vosso trabalho a ser ofendidos e humilhados, em coro, sim porque foi exatamente isso que aconteceu, e como teriam reagido perante esse facto, e mais importante como recuperariam do mesmo.

Tenho a certeza que depois dessa reflexão vão voltar a dia 17 deste mês, àquele jogo e à saída do Moussa Marega de campo e vão sair com ele também, caso não tenham saído nesse dia.

Que nunca nos falte a coragem de sair de campo! Obrigada Moussa Marega, por dares o exemplo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.