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A GERAÇÃO DA UTOPIA DE AMÍLCAR CABRAL

Joana Benzinho

Amílcar Cabral foi há poucos dias considerado pela BBC o segundo maior lide mundial da história pelo impacto positivo que teve na sociedade.

Cabral continua a ser uma fonte de inspiração dentro e fora de fronteiras guineenses e cabo verdianas, e foi, com muita razão, designado o grande obreiro de uma estratégia e delineador de um futuro que alguns dos seus parceiros de luta e sucessores têm teimado em roubar ao seu país, Guiné-Bissau. Quarenta e sete anos após o assassinato, poucos meses antes da declaração da independência pela qual tanto lutou, a Guiné-Bissau continua a tentar refundar-se e ser autossustentável sem recurso a financiamentos da cooperação internacional, mas o caminho tem sido tortuoso.
Há ainda quem se lembre de Cabral e tenha partilhado com ele uma real geração de utopia em que se tentava libertar o território da ocupação estrangeira e formar homens e mulheres para viverem numa Guiné-Bissau livre, autónoma e pujante.
Conheci um desses nas Colinas de Boé há uns meses. Subimos à montanha Cabral, como já partilhei numa crónica anterior. Ele ligeirinho nas suas muitas décadas, agarrado a um pau e com umas sandálias que mal se seguravam nos pés. Eu e os que comigo o seguiam, a arfar com o forte calor que se fazia sentir e a esconder o cansaço perante a sua idosa agilidade. Na altura disse-nos sonhar há muitos anos ter uma fotografia de Amilcar Cabral. Fácil! – pensámos nós do alto da nossa quase arrogância ocidental. Uma questão de imprimir uma das dezenas de fotos icónicas deste líder africano que aparecem numa simples visita ao Google. Mas isso é para nós. Por ali não há internet. Na verdade, por ali nem sequer há telefones porque pura e simplesmente não há rede. Na aldeia há um único telefone usado de forma comunitária quando alguém vai até Gabu, a umas boas duas horas e meia de transporte público motorizado.


Antes de nos despedirmos prometi voltar com a fotografia. Pouco habituado a promessas cumpridas respondeu-me “se eu não morrer até lá…”.
Poucos meses passados voltei à Guiné-Bissau e ao seu fim de mundo, onde pouco mais há que um registo da história da independência do país e da passagem de Amílcar Cabral. Subimos de novo a montanha, desta vez sem ele, e a dificuldade foi a mesma. Ou talvez maior. O caminho alternativo que fizemos desta vez ainda era mais a pique. Na descida procurei o Homem Grande para lhe dar a fotografia mais bonita que encontrei de Amílcar na internet, emoldurada a preceito. Foram chamá-lo a casa e apareceu quando já nos preparávamos para uma viagem de 8 longas horas de carro até Bissau. Quando recebeu a imagem agarrou-se a ela e, num pesado e emocionado silêncio, apoiou-se no nosso carro. “Ele está emocionado, precisa de chorar” disseram-nos os mais novos da aldeia. Esperámos todos que se recompusesse, num silêncio apenas interrompido pelas galinhas que ciscavam o chão.
De olhos encovados pela idade e marejados de lágrimas sentou-se em frente a nós, suspirou fundo e falou-nos de Cabral, do que este e os seus sonharam para o país e, sobretudo, do país que lhes cabe em sorte agora. Onde uma crise política continua a roubar sonhos, onde a força de uma certa irracionalidade continua a impedir um futuro para os guineenses. O velho homem que vive ali em Dandum, onde não chega a televisão, a internet ou qualquer notícia do mundo, falou-nos pausadamente e com a sapiência dos bons do que é preciso fazer para mudar a Guiné-Bissau e dar futuro aos seus filhos. Como defendia Cabral nas conversas que por ali teve com ele, com o seu irmão já falecido, e com tantos outros combatentes da liberdade. Comoveu-me perceber que esta geração de Cabral ainda existe e continua a lutar por uma Guiné-Bissau Bissau com futuro. Mesmo contra aquelas gerações mais novas que em nome desse mesmo Cabral têm desvirtuado toda uma luta no campo ideológico e no terreno que foi bem dura e de má memória para os dois lados da contenda.
Ficou-me deste encontro o consolo de sentir que enquanto houver memória, enquanto houver gente de bem na Guiné-Bissau, Cabral e a sua luta continuam a ser uma fonte de inspiração para se sonhar com uma Guiné-Bissau democrática e desenvolvida.

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