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Cidadania e Sociedade

A DONA PRUDÊNCIA FOI AO ENTERRO

Jorge Nuno

Há várias décadas conheci uma senhora que, quando falava, tinha a tendência de aproximar a mão da boca, chegando mesmo a tapá-la com frequência. Desde sempre, com o habitual desejo em tentar descodificar a linguagem corporal, fiz algumas conjeturas: resquícios da condição da mulher durante a ditadura do Estado Novo; insegurança pessoal, perante um interlocutor com quem não tinha um relacionamento de proximidade e pretendia deixar boa impressão ou, pelo menos, não defraudar expetativas; forma inconsciente de suprimir palavras enganosas, na tentativa de ocultar uma ou mais mentiras – o que, honestamente, não me parecia ser esta a situação.

Lembro-me de ter lido algo semelhante na interessante obra literária ”Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global”, de Roger Crowley[1], sobre Vasco da Gama, capitão-mor da frota portuguesa envolvida na descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aquando da chegada a Calecute, em 1498, em representação do rei D. Manuel I, Vasco da Gama foi recebido pelo samorim – o monarca indiano –, e foi previamente instruído: “[deveria] usar os gestos corretos, não aproximar-se demasiado, e falar com a mão diante da boca”. Com o desenrolar da leitura, concluí que se tratava simplesmente de uma questão de educação e um aspeto cultural daquele país, a respeitar. Mas também poderia resultar de um eventual conhecimento da peste negra na Europa, que terá vitimado um terço dos europeus[2], levando o samurai a ser previdente.

De há uns anos para cá, tem-se visto, seja os deputados e membros do governo na Assembleia da República, ou jogadores de futebol e equipas técnicas em campo, a falar com a mão à frente da boca. Neste caso, estará longe de significar educação, embora, pela repetição insistente, este gesto parece ter deixado de ser censurável; no fundo e mais uma vez, é tudo uma questão de prudência, face à capacidade de leitura labial através das imagens televisivas.

Ainda em relação às mãos, é ancestral o tipo de saudação nas culturas indianas e nepalesas. Intitula-se “namastê” e consta em juntar as palmas mãos, próximas do peito, com os dedos a apontar para cima, acompanhado de uma ligeira vénia, significativa de respeito. Não há contacto físico nessa saudação entre duas ou mais pessoas.

Na cultura ocidental, instituiu-se o aperto de mão, o abraço e beijo, como forma de cumprimento. Lembra-se o encontro de 2017, entre Donald Trump e Angela Merkel, em que, perante as câmaras de televisão, ela estendeu-lhe a mão educadamente e ele ignorou, deixando-a “pendurada” durante uns bons segundos. Este gesto descortês do presidente americano correu mundo. Três anos depois, uma peça jornalística na TV mostrou a chanceler alemã a estender a mão a um eurodeputado, em Bruxelas, com ele a recusar o cumprimento, mas fazendo questão de sorrir e dizer algo não traduzido. Afinal, era uma forma de prevenir a propagação do surto do novo coronavírus, ainda em fase inicial na Europa, e não houve lugar a desconforto nem polémica.

Por cá, a diretora-geral de Saúde, logo no início da “crise”, fez recomendações para que os portugueses evitassem os beijos e abraços. Só faltou usar a estratégia de um funcionário auxiliar, contratado por uma escola secundária da região de Lisboa, nos anos oitenta do século passado, que vinha dos serviços prisionais e tinha como tarefa espontânea separar à força os jovens estudantes enamorados, que se beijavam no recinto escolar.

Até a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portuguesa de Futebol Profissional, que tanto têm apregoado o fair-play – associado à ética no desporto – fizeram recomendações para que não houvesse apertos de mão entre agentes desportivos em campo, nem dar as mãos às crianças que acompanham os jogadores e equipa de arbitragem no início de cada jogo; sugeriram que jogadores e árbitros se cumprimentassem apenas com um toque de cotovelo. Num jogo da primeira Liga, viu-se o respeito por essa orientação; no final do mesmo, acabaram todos aos abraços e apertos de mão, mas antes assim do que aos murros e empurrões. Ao longo de anos, após a apreciação de processos disciplinares instaurados por atos reprováveis de adeptos, os respetivos Conselhos de Disciplina aplicaram o castigo de jogos à porta fechada. Alguns desses castigos nunca foram cumpridos pelos clubes, que recorreram até onde foi preciso, ficando os castigos para as calendas gregas… Ambas as entidades e os clubes, acataram agora, parcialmente, as recomendações da DGS e da ministra da Saúde, para a suspensão ou adiamento de eventos com mais de 5 mil pessoas em áreas abertas ou, no caso do futebol, as várias competições prosseguirem, mas com estádios vazios, tanto na primeira e segunda Ligas, e também em alguns jogos do Campeonato de Portugal. A finalidade é evidente: evitar o contágio de milhares de espetadores no mesmo recinto.

Marcelo Rebelo de Sousa – o presidente dos afetos – que tanto se desdobrava em abraços e beijos, veio dizer que só passaria a dar beijos a quem pedisse. Pouco depois, anunciou que, por ter estado em contacto com estudantes de um concelho do Norte, onde se registaram casos “positivos” e, embora não tivesse sintomas nem contraído o COVID-19, iria ficar em casa, de quarentena. Estaria a fazer a apreciação do Orçamento de Estado, e sobra-lhe algum para tempo para se dedicar à leitura – que, como se sabe, tanto gosta! Afirmou que este isolamento social voluntário serviria de exemplo para os portugueses.

Como diz o ditado português: “O seguro morreu de velho e a dona prudência foi ao enterro”.

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[1] Da Editorial Presença
[2] Estimativa pouco fiável, atendendo à época.

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