Cultura, Literatura e Filosofia

O FENÓMENO VIRAL

Regina Sardoeira

Uma pandemia é uma espécie de guerra e já houve várias ao longo da história dos homens. Vejamos:

PESTE NEGRA; 50 milhões de mortos (Europa e Ásia) – 1333 a 1351; CÓLERA Centenas de milhares de mortos – 1817 a 1824; TUBERCULOSE 1 bilião de mortos – 1850 a 1950; GRIPE ESPANHOLA 20 milhões de mortos – 1918 a 1919; TIFO 3 milhões de mortos (Europa Oriental e Rússia) – 1918 a 1922 ; FEBRE AMARELA 30 000 mortos (Etiópia) – 1960 a 1962; SARAMPO 6 milhões de mortos por ano – Até 1963 ; MALÁRIA 3 milhões de mortos por ano – Desde 1980; SIDA 22 milhões de mortos – Desde 1981

Ao consultar a lista das guerras, com armas e bombas, desisti de fazer a enumeração por ser demasiadamente extensa. Ou seja: se as epidemias ou pandemias provocadas por vírus, bactérias, picadas de mosquitos, etc. mostram números impressionantes de vítimas mortais, as guerras, movidas por humanos contra humanos, são bastante mais deletérias.

Fiquemo-nos pelas sete guerras mais mortíferas da História da humanidade:

7 -Primeira Guerra Mundial: 18 milhões de mortos

6- Rebelião Taiping: de 20 a 30 milhões de mortos

5 -Conquista Qing: 25 milhões de mortos

4 -Segunda Guerra Sino-Japonesa: de 25 a 30 milhões mortes

3- Guerra dos Três Reinos: de 36 a 40 milhões de mortes

2- Conquista Mongol: de 40 a 70 milhões de mortes

1-Segunda Guerra Mundial: de 60 a 85 milhões de mortes

Analisando estas duas listas, que podem ser consultadas online, observamos, facilmente, que as pandemias e as guerras são uma constante no mundo e os elementos naturais, bactérias, vírus, mosquitos e outros irrompem de tantos em tantos anos, são estudados, vão-se encontrando vacinas ou certas panaceias que minoram os seus efeitos; os homens, por outro lado e paradoxalmente, vão criando motivos para se combaterem entre si, gerando outro tipo de pandemia.

Há muitas guerras de homens contra homens, em actividade nos tempos actuais e continuam a existir doenças que surgem, em surtos, provocando mortes, no nosso tempo. Parece que as pandemias e as guerras são uma constante, por mais avanço científico a que se tenha chegado, por mais apelos à paz e à solidariedade que homens e instituições vão espalhando pelo mundo. Haverá um sentido para estas situações? Estará a humanidade condenada, para sempre, a estes momentos trágicos que irrompem e para os quais não há, de imediato, remédio?

Milhares de séculos de história revelam que sim, que os homens têm subsistido pelos tempos fora, numa dialéctica paz/guerra, saúde/doença. Decerto, esta é uma condição inerente ao homem, esta realidade contraditória que nos revela a nossa fragilidade e obriga, através de um impulso aparentemente cíclico e inevitável, à selecção da vida.

Na natureza existe esse critério. No mundo selvagem, e desde os tempos mais primitivos de que há notícia, as espécies estão naturalmente hierarquizadas, de tal modo que os mais fortes resistem e os mais débeis vão sendo suprimidos.

O homem, porém, fruto da sua especificidade, em que predomina a componente racional, foi subvertendo as regras da selecção natural, foi criando modos de erradicar doenças e perigos que o protegem da rápida extinção. Mas, aparentemente, não o conseguiu de todo. Aparentemente, nem sequer o deseja.

Há, sem dúvida, uma atracção para o perigo, para o abismo, inerente à natureza do homem, uma contradição essencial que o leva a querer preservar-se, até ao limite de anular a morte, e também a provocá-la em jogos perigosos, em conflitos letais, em procedimentos lesivos da própria integridade.

Estamos a viver um tempo em que um vírus alastra e se abate sobre os homens em qualquer lugar do mundo. Um vírus cuja origem ainda ninguém conseguiu realmente perceber, que surgiu sem qualquer aviso prévio numa cidade e num país (longínquos, segundo a nossa perspectiva) e viajou, literalmente, oculto naqueles que transitavam desse local para outros, e se foi disseminando.

Contra um vírus não há fármacos capazes de o abaterem de modo eficaz. Logo, um vírus como este, de seu nome, coronavírus, pôde infiltrar-se no homem, provocar danos e depois prosseguir a sua escalada deixando todo o mundo em choque.

Os vírus estão entre os menores agentes infecciosos, e a maioria deles pode ser vista apenas através de microscopia electrónica. A maioria dos vírus não pode ser observada através de microscópios de luz (em outras palavras, eles são submicroscópicos); os seus tamanhos vão de 20 a 300 nm. Eles são tão diminutos que levaria de 30 000 a 750 000 deles, lado a lado, para medir um centímetro.

Logo, a humanidade nos dias de hoje está em estado de alerta, paralisada, em quarentena, doente, aterrorizada, confinada a quatro paredes porque um destes submicroscópicos agentes se infiltrou num ser humano e, pela sua própria natureza, infectou uma célula, forçando-a a produzir milhares de vírus. Isto acontece porque o vírus obriga a célula a copiar o ADN ou ARN do vírus, sintetizando proteínas virais, as quais se agrupam, compondo novas partículas virais. E assim, o poder submicroscópico deste agente, invisível, silencioso, subterrâneo, consiste na capacidade de se infiltrar e depois reproduzir-se, de um modo vertiginoso, passando de um para outro hospedeiro.

O coronavírus está, pela negativa, a ensinar aos homens a solidariedade, o sacrifício, a contenção, a obediência, e tantos outros comportamentos positivos, o que prova, justamente, a força dos contrários, no que concerne à evolução. Importará muito saber de onde veio esta força submicroscópica, ou seja se surgiu, espontaneamente, do seu mundo particular e atacou o homem (sem querer atacá-lo porque um organismo destes não possui o factor vontade) ou se, criado em laboratórios de homens se destinou a cumprir o papel de guerra biológica, à escala global? A um certo nível, nascerá nas consciências atentas a suspeita de que o emergir desta pandemia teve mão e intenção humanas. A um certo nível poderão erguer-se as razões que suportam esta suspeita, já que as consequências, após a trégua do vírus, favorecerão uns em detrimento de outros. Espalhar o terror no mundo sempre foi a base de qualquer guerra e os seus líderes, ao longo da história, extraíram dos conflitos gerados dividendos para si.

Para todos os efeitos esta é uma guerra que não foi abertamente declarada, razão pela qual apanhou a humanidade de surpresa. É uma guerra da qual só serão conhecidos os verdadeiros intentos e dimensões quando terminar, permitindo o retomar da vida normal e a inventariação dos prejuízos. E, tal como nas guerras em que, por exemplo, os aviões lançam bombas sobre uma cidade e, entre os habitantes, uns abrigam-se e escapam, outros não se abrigam e também escapam, muitos abrigam-se e são atingidos e muitos não se abrigam e são também atingidos, também agora o factor sorte ou o acaso ou a predestinação (cada um chamar-lhe-á o que quiser) determinará quem é contaminado e quem escapa ileso.

Todos nós acreditamos que esta pandemia terminará, por fim. Supomos que o vírus fará o seu périplo à volta do mundo e depois o seu poder destrutivo dará tréguas. Estamos convictos de que vivemos agora um episódio, brutal e inédito, mas, em breve, num período de tempo que a estatística prenuncia, poderemos voltar a ser a humanidade de sempre.

Mas eu pergunto: ser a humanidade de sempre, esta, que a custo vai cumprindo regras, a custo se protege, protegendo os outros, a custo obedece porque a desobediência pode custar-lhe a vida, esta, que aguarda, ansiosa, o momento de dar vazão a todos os excessos e não sabe como lidar com os actos contidos a que se vê sujeito, ser esta humanidade fará, afinal, sentido? Decerto uma longa aprendizagem nos espera. Decerto teremos que reflectir sobre quem somos, o que somos e em que queremos tornar-nos e talvez os fenómenos virais, este termo cuja utilização passou com leveza para o mundo virtual, sejam um excelente meio de repensarmos a nossa humanidade.

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