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AFETOS EM TEMPO DE PANDEMIA

Joana Benzinho

Escrevo esta crónica numa altura em que a Guiné-Bissau ainda está a salvo da pandemia que nos acantonou todos em casa e, naturalmente, com a esperança que assim continue.

Na Guiné-Bissau a população, apesar do acesso reduzido a informação por falta de eletricidade e, consequentemente, de televisores, vai sabendo do que se passa no mundo pelas rádios comunitárias ou nacionais que têm, desde sempre, um papel primordial no quotidiano guineense e que são ouvidas atentamente nos rádios de pilhas que existem em quase todas as casas.

É por aqui que acompanham as intermináveis tricas políticas que estagnam o país, que sabem dos mortos e das carteiras com documentos perdidas, dos decretos presidenciais ou diretivas governamentais. É também aqui que têm ouvido falar do novo coronavirus a que deram o nome de Covid 19.

Cheguei há poucas semanas da Guiné-Bissau, quando já se dedicava grande parte das notícias portuguesas ao vírus , mas ainda não vivíamos em tempo de chorar mortos, velar infetados nem de estar confinado em casa. Na Guiné-Bissau, quem tem luz e TV, tem habitualmente RTP África, e assim acompanhou nesse momentos connosco a doença a chegar de mansinho a Itália, a França, e a tomar conta de tudo e de todos. Entretanto, desde o meu regresso à Europa, no início de março, foram tomadas medidas drásticas que me trouxeram da Bélgica, em quarentena, para uma outra quarentena lusa, em família, imposta pela força da lei. E África continuou a ver as notícias achando que o Covid 19 não gostava do calor, da pele mais escura, da humidade, sobretudo de aborrecer os mais pobres. De tudo se leu e ouviu, apesar dos alertas da OMS que garantia que este vírus não distingue climas, nem raças, nem estatutos sociais. E infelizmente tem a razão do seu lado. Um pouco por todo o continente africano têm surgido casos de Covid 19, que já está em 42 países e a OMS teme que seja este Continente o próximo epicentro da epidemia. Na África Ocidental já reportaram casos e tomaram medidas países como o Senegal, a Guiné Conacri, Cabo Verde…
E a Guiné-Bissau? Aparentemente [e felizmente] continua a salvo, segundo as autoridades.

Mas será mesmo verdade? E por quanto tempo? As escolas fecharam, o enorme e super povoado mercado do Bandim funciona apenas com os vendedores de bens de primeira necessidade, os cultos religiosos foram limitados, os restaurantes, bares e discotecas cerraram portas, o espaço aéreo fechou (dizem-me que nas fronteiras terrestres do norte se continua a passar a pé de e para o Senegal) e as pessoas são convidadas a ficar em casa para evitar contactos potenciadores da propagação de um eventual contágio. O que antecipa uma tragédia maior, num cocktail explosivo de desemprego e fome que advirá da falta de rendimentos dos agregados familiares.

Em conversas com amigas e amigos guineenses, fica patente a enorme confiança de que esta pandemia não chegará à Guiné-Bissau. Porque o ébola também não chegou e correu todos os países circundantes. Porque há mulheres que no breu da noite saem completamente nuas para a rua fazendo feitiços protetores do povo, como fizeram no já referido surto do ébola ou quando, na praia de Varela, as mulheres fazendo rezas, dançaram freneticamente levantando as saias junto dos estrangeiros que exploravam as areias pesadas daquela praia e lhes destruíam o seu ecossistema, conseguindo assim que se fossem embora. Por um lado, é encantadora esta crença e perseverança de quem está habituado a passar por tanto e acha que o animismo os proteje de todos os males, mas preocupante pois pode significar algum desleixo que pode ser catastrófico num país com condições sanitárias tão frágeis como a Guiné-Bissau. Será que o vírus que já foi diagnosticado em Ziguinchor, a uma vintena quilómetros da Guiné, se imobiliza no posto fronteiriço? Ou na fronteira com a Conacri que também já contabiliza casos?

A sensibilização é crucial. Bem sabemos que ninguém estava preparado para se isolar e para abdicar do direito de sair, de entrar, de ficar, de dar afetos, de abraçar ou de beijar.

Mas à falta de um Estado forte ou de um sistema de saúde funcional, é preciso informar, informar, informar! É urgente inundar as rádios comunitárias e nacionais da Guiné-Bissau com informação para a população se poder proteger e fugir das estatísticas que apontam para a crucificação do continente Africano em caso de alastramento da pandemia do Covid 19.

Os guineenses vão resistir a mais esta provação e sair mais fortes desta guerra contra um vírus que nos fez voltar a recentrar no que é mais importante. A vida. A nossa e a dos outros.

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