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Cultura, Literatura e Filosofia

O VÍRUS E A FILOSOFIA PRÁTICA DE KANT

“Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente delas se ocupa: o céu estrelado acima de mim e a ideia do dever dentro de mim.”

                                                                       Immanuel Kant

Regina Sardoeira

Escolhi esta frase de Kant, como epígrafe da minha crónica, porque vejo nela o conteúdo mais expressivo da sua filosofia e ainda um modo excelente de analisar a época em que vivemos. Pouco importa que nos separem três séculos do filósofo iluminista alemão: o seu pensamento e as consequências práticas que dele derivam permanecem e vão permanecer actuais pelos séculos fora.
“O céu estrelado acima de mim” representa o infinito, a imensidão, o mistério. Está ali, quase ao alcance da mão, mas na verdade é inatingível, talvez nem exista, enquanto objecto da minha percepção. E nunca poderemos sondar, até ao âmago, esse universo de cuja existência apenas suspeitamos e do qual só temos um conhecimento imperfeito, hipotético, residual.
É deste género o vírus que, inesperadamente, surgiu, ninguém sabe muito bem de onde, entrou, sem que déssemos conta para infectar uma pessoa ( é essa, afinal, a sua natureza) e depois outra e outra ainda, transtornando a banalidade da nossa existência comum. Um pequeno elemento que nem sequer é um organismo vivo, irrompeu e lançou a humanidade numa perplexidade enorme, numa angústia sem lenitivo à vista. E a angústia não tem lenitivo porque ninguém sabe, exatamente, o que é esse elemento mínimo, mas com uma capacidade gigantesca de se auto-copiar, ninguém conhece os modos exactos de o eliminar — porque é impossível matar o que não está vivo, nem se sabe se ele vai desaparecer por si, tão silenciosamente como chegou, ou se continuará, infindavelmente, a ameaçar a humanidade.
Este mistério, ainda que não tenha os contornos poéticos do céu estrelado de que fala Kant, é-lhe equivalente: porque representa o limite da nossa capacidade de compreender, desafia toda a lógica, faz com que nos questionemos, todos nós, num tremendo e inédito uníssono .
Mas existe ainda a outra parte da afirmação de Kant, que igualmente lhe enche a alma de admiração: “a ideia do dever dentro de mim”.
Reparem: o céu estrelado está acima, no impenetrável mundo que desafia a nossa capacidade humana de conhecer e possuir, o céu estrelado é um cenário fantasmagórico que, de certo modo, nos aniquila pela vastidão que nele suspeitamos, sem lograrmos assimilar semelhante enigma; mas a ideia do dever é minha, eu conheço-a, porque me é inerente, eu domino-a, porque representa o todo da pessoa que eu sou.
O vírus paira, feito ameaça, destrói vidas, gera comportamentos insólitos, obriga-nos ao isolamento, afasta-nos dos outros e dos lugares habituais ; mas, do outro lado da equação, impele a que nos viremos para o nosso âmago.
Kant nasceu em Königsberg, uma cidade prussiana, e viveu toda a sua vida sem ultrapassar os limites da terra natal. E esta evidência não é, de modo nenhum, a revelação de uma personalidade solipsista, isolada ou anti-social. Kant não saiu de Königsberg, nos 80 anos da sua vida, muito simplesmente porque não precisou: tinha o mundo inteiro dentro de si e esse mundo era de tal modo grande e profícuo que três séculos depois pode ajudar-nos nesta crise sem precedentes.
Qualquer um de nós deve estar em casa o mais possível, como auto-defesa e também como condição de defesa de todos os outros. E esta circunstância pode ser vista como um castigo terrível, pode gerar conflitos internos e externos, produzir um sem-número de comportamentos, desde a desvalorização do perigo até ao excesso de zelo. Sentindo-se em cativeiro, as pessoas anseiam pela libertação, criam expedientes para manterem a boa disposição e a sanidade, inventam slogans, poesias e músicas para se animarem e animarem os outros…mas esquecem-se de um procedimento fundamental.
Por que razão é deste modo importante sair, abraçar os outros, passear nas ruas, mudar de país, ir de férias, quando nem sequer nos conhecemos verdadeiramente? Que vamos fazer para a rua, para o café, para o bar, porque insistimos em deambular de terra em terra e nos custa tanto desistir do abraço, das festas, do círculo de amigos?
É que, realmente, não gostamos de estar connosco mesmos. Somos aquele/a que mais próximo temos para acompanhar-nos. E no entanto desejamos constantemente alienar-nos de nós próprios para nos atirarmos para outros, esses que também não conhecemos verdadeiramente mas que representam a fuga do nosso eu.
“A ideia do dever dentro de mim”! Quer dizer que, exactamente, eu estou aqui por deliberação livre, estou aqui porque um perigo ignoto me atirou para o refúgio da minha casa — mas também para o segredo de mim.
Em mim está tudo o que eu preciso para verdadeiramente ser, como aconteceu com Kant, na cidade de Königsberg. É preciso que façamos a descoberta de nós e desse modo, que partamos em demanda da potencialidade do nosso eu, em si mesmo e por si mesmo, sem o ruído do tráfego, a poluição visual das multidões, o trepidar das músicas e o vapor do álcool. Se o conseguirmos fazer, tornando nosso o dever de ficar em isolamento, se aprendermos a bastar-nos a nós próprios, sondando o mais fundo de nós, sairemos acrescentados da tormenta.
Se há um sentido para a invasão do vírus neste nosso mundo que achávamos ter controlado (e não tínhamos) pode ser, decerto, este. O vírus não pensa, não ouve, não vê, nem está vivo, mas conseguiu, na sua insignificância material e através do trânsito que foi provocando, de pessoa para pessoa, levar cada um até ao fundo de si.
Muito embora seja apenas um vírus participa da inteligência universal, faz parte, com as estrelas do céu, lá em cima e os indiscerníveis meandros do centro da Terra, lá em baixo, do Todo, esse que gostaríamos de sondar de vez, mas que, invariavelmente, se vai furtando ao nosso controlo.
Portanto não estamos perante a ameaça bruta de um minúsculo pedaço de matéria, mas no auge de uma oportunidade única de mudança que apenas seremos capazes de levar a bom termo, caso nos apliquemos, todos e cada um, a olhar atentamente para dentro de nós e a aceitar a nossa própria convivência.

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