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UM MESMO VÍRUS EM DIFERENTES LATITUDES

Joana Benzinho

A pandemia do Covid-19 tardou a entrar em África mas já chegou a 51 dos 55  países deste continente. Na Guiné-Bissau foi declarado o estado de emergência e já se contabilizam trinta e três casos confirmados (dados de 6 de abril) havendo vários casos suspeitos a aguardar confirmação.

A vida mudou no mundo inteiro com a entrada do vírus no nosso quotidiano. Perante um contágio tão feroz e veloz foram tomadas medidas por todos os países atingidos de forma a minimizar os efeitos mortais de quem insiste em nos ceifar a vida dos mais idosos e mais frágeis, em termos de saúde.

Em quarentena há um mês, começo a acusar o temor do futuro e o cansaço de me esconder de algo que não vejo, não sinto, não imagino onde nos espera. Mas afinal do que me queixo? De ficar em casa, mantendo um trabalho e um salário, com acesso a peixe fresco vindo em cabaz diretamente da lota, acesso a carne, fruta, legumes, um jardim em casa para brincar com a minha filha e apreciar flores, acesso a TV (que mesmo em quarentena não me atrai), internet, com a família por perto…

Na verdade tenho tudo, todo o conforto e penso o quão injusta sou no queixume quando me vem ao pensamento a forma como, em outras latitudes, se vive a quarentena. Na Guiné-Bissau o estado de emergência impôs a proibição de funcionamento das casas comerciais ou do Bandim, o maior mercado guineense ao ar livre, depois das 11 da manhã, assim como a circulação de transportes públicos no perímetro da cidade. Para quem conhece a Guiné-Bissau, só esta imposição é suficiente para mostrar como a sombra da fome pode amedrontar muitas famílias naquele país. Com uma taxa de desemprego altíssima, na Guiné-Bissau vive-se muito do comércio informal, da vida de mercado de rua, do papel desempenhado pelas mulheres que ainda de noite apanham o transporte público para a cidade, para disporem num pano no Bandim a meia dúzia de legumes recolhidos do seu quintal e que lhe permitem voltar a casa com um punhado de arroz, comprado com os trocos feitos, de forma a alimentar uma familia inteira que a espera faminta.

Como fazer agora, sem transportes? Com uma imposição de “desaparecer” da via pública até às 11 da manhã? Como comprar agora os legumes, o conduto ou o arroz, o mata bicho diário de familias inteiras? Em casas sem luz, sem sistema de refrigeração, como conservar os alimentos? E com a imposição do confinamento, o que pensar do adiamento da campanha do Caju? A maior fatia da economia guineense baseia-se na comercialização e exportação do caju. Famílias inteiras dependem da apanha deste fruto e da sua venda. Agora que já está a amadurecer e a pedir para ser apanhado, o que fazer sem capacidade de comercialização, sem intermediários para recepcionar o quilo ou dois diários que uma familia apanha e vai vender para sobreviver, sem exportação que assegure lucros?

 E o que fazer quando alguém se magoa, arde em febre com malária, tifóide ou com uma das milhentas maleitas que fazem da Guiné-Bissau um país com uma elevada taxa de mortalidade infantil? Com fome, sem dinheiro ou transportes públicos que os levem até a uma possível resposta da medicina, quem chega aos hospitais centrais? Poucos. Li na imprensa do país que o hospital de referência do pais, o Simão Mendes, tem agora menos doentes que a média. Pudera… sofre-se em casa, pois claro!

E quem anda na rua depois das onze, por qualquer motivo que seja, incúria ou necessidade justificável, sujeita-se a um excesso de zelo das forças de segurança, segundo testemunhos recentes que denunciam agressões à integridade física dos cidadãos.

Penso que na Guiné-Bissau a fome vai ser a palavra de ordem no quotidiano urbano, de quem não tem dinheiro para comprar bens nem capacidade de gerar rendimentos que sustentem as famílias.

No interior, nas tabancas agrícolas ou piscatórias, o arroz, o amendoim, o feijão, as galinhas errantes, os porcos ou o peixe vão continuar a enganar as dificuldades diárias a curto prazo, mas que futuro para esta gente sem economia a funcionar?

As discrepâncias do meu confinamento e do deles é enorme. Mesmo quando a doença e a morte visitam a Europa, a América, a Ásia ou África sem distinção, a capacidade de resposta e de sobrevivência são de uma diferença gritante. E eu acabo por sentir vergonha por achar, por um momento que seja, que é penoso o meu confinamento passado no conforto de uma casa de arca cheia e com todas as condições. Porque há quem o passe com fome.

Que seja breve e sem história a passagem desta pandemia pelas nossas vidas.

Cartaz de sensibilização no combate ao Covid-19 divulgado pela ONGD Afectos com Letras na Guiné-Bissau

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