Cultura, Literatura e Filosofia

REVISITAÇÃO

Quando pensava sobre o possível tema da minha crónica desta semana, lembrei-me de ter escrito, em 2019, um texto no qual reflectia acerca do ” drama da Terra e do Homem” . Fiz dele a minha crónica de 8 de Outubro de 2019, ignorando, na altura ( como qualquer pessoa), que algum tempo depois iríamos sentir o peso desse drama – que incide sobre nós, enquanto humanidade, mas que, decerto, representa o profundo grito da natureza massacrada e é,  ainda, um sinal para  que tenhamos em conta a nossa urgente redenção. Tudo o que escrevesse, hoje, não teria mais actualidade. Por isso revisitei o texto e trouxe-o, de novo, para a BIRD Magazine.

O DRAMA DA TERRA E DO HOMEM
O mundo em que vivemos comporta uma multiplicidade de camadas, tantas e tão complexas que será muito difícil separá – las para  fazer, de cada uma, análises rigorosas. Mesmo este termo ” mundo” que utilizei, exige decifração.
O que é o mundo? Eis a pergunta tantas vezes levantada e nunca cabalmente respondida.
Existe a Terra, o planeta de onde somos originários,  de que somos parte e no qual existimos.  Mas, de imediato, estas três especificações conduzem a novas questões.
Somos efectivamente originários do planeta Terra? Ou seremos fruto da criação de um deus que para cá nos exilou? Ou o nosso ADN  terá sido disperso, vindo de outras galáxias,  para aqui ficar depositado, dando origem à nossa espécie?
E a Terra? Será,  de facto,  um fragmento libertado do Sol, numa certa explosão,  e, pela dinâmica do espaço, posto a girar em torno da estrela – mãe, sujeito a transformações, ao longo do tempo?
Sendo habitantes da Terra, seremos, de facto, parte dela, ou, oriundos de qualquer manifestação divina, ao modo de Platão ou da Bíblia,  somos almas exiladas do Empírio para um arcaboiço corpóreo, como punição de pecados ancestrais, e  acederemos um dia à nossa verdadeira natureza?
Seja como for, o mundo, este, no qual temos morada e a que chamamos nosso, localiza – se no planeta Terra. E nada sabemos, de facto, de outras dimensões do espaço -tempo ou para além. E então,  habitando nele,  temos absoluta necessidade de compreendê -lo.
É precisamente a este nível que começam as nossas falhas.
Se eu for à minha janela e olhar em volta,  apercebo – me da aparente esfera azul do céu e do traçado circular dos montes, aqui e ali tornados irregulares, fruto de acidentes de ordem natural. Mas, em simultâneo,  vejo casas levantadas nas vertentes dos montes, estradas cortando a terra e muitos carros enxameando por elas! Percebo, então, que a morada do homem, feita de terra, árvores,  rios, mares e outros animais – a natureza,  em suma – foi sendo desvirtuada e agredida desde os primórdios.  A hominização, criadora do homo faber, do homo habilis, do homo sapiens e de todos os outros que lhes foram sucedendo, até aos dias de hoje, começou,  de forma simples, por utilizar os recursos naturais e deles viver. Mas o cérebro grande do sapiens, a libertação da mão,  a postura erecta, a descoberta do fogo, etc. alteraram profundamente o primata dos inícios que, aos poucos, transformou o próprio habitat.  Sendo inteligente e dotado de maiores habilidades que os restantes seres da natureza,  apossou – se dos recursos,  tornou-os apenas seus, invadiu serras, florestas, mares e também o  ar, retirou energia do solo, do subsolo, do vento, da água, criando um outro mundo sobre o primitivo e à sua revelia. A minha pergunta é : tudo o que foi feito e constitui a nossa civilização será compatível com o planeta Terra? Poderia o homem ter rasgado os montes para construir estradas, retirar dos rios a energia eléctrica, edificar altos edifícios e pontes , colocar aparelhos de captação de energia eólica nas montanhas e de energia solar por cima dos telhados, inventar materiais praticamente incorruptíveis e com eles erguer um mundo de plástico,  inundar as águas de resíduos provenientes das fábricas e muito, muito mais? Quanto ao poder, é evidente que sim, que pôde. ..mas deveria tê -lo feito?
Poderia o homem escravizar outros homens, quer no contexto literal da escravização,  quer neste  patamar da civilização que conhecemos,  em que uns detêm o domínio e se sobrepõem a todos os outros?  Ao que observamos, parece que pôde?  Mas deveria?
Poderia o homem usar os restantes animais como sua pertença e sujeitá-los à humilhação do serviço pesado ou à criação para a morte, ou fazer deles animais de estimação e alienar – lhes a natureza, tornando-os figurantes de uma vida que não é a deles (e para a qual, uma vez perdidos, não saberão como regressar) ? Parece que pôde. Mas deveria?
Os exemplos, susceptíveis de multiplicação, são demasiado extensos para caberem numa só análise. Mas cada um pode fazer este exercício mental e questionar – se : tudo o que o homem pôde e pode fazer deverá ser feito?
Chegou um tempo em que os danos causados ao mundo durante milénios, na apropriação indevida, insolente e irracional dos recursos colectivos ( e neste “colectivos” incluo, não apenas os homens,  mas todos os animais e as plantas e os rios e os mares, ou seja, tudo o que existe ), mostra a sua face de um modo irrecusável.  Que fazer para reencontrar outra vez a origem do mundo, restituir à Terra a sua figura e os seus tesouros, tudo aquilo que o homem lhe foi roubando para seu proveito, sem curar de moderação, e depois reconstruir – se a si mesmo, dando vida a uma nova humanidade?
Não sei a resposta e duvido que alguém a tenha, de facto. Podemos tentar, aqui e ali, restaurar oásis,  proteger espécies,  replantar  florestas,  limpar rios e mares, sanar os ares. Mas existem, em absoluto, muitas destruições que são irreversíveis. Como repor, no subsolo, o petróleo,  os minérios, os veios de água e tantos outros constituintes da Terra que, fazendo parte dela, não deveriam decerto ser extraídos?  Como restituir à Terra as linhas reais da sua crosta, deitando abaixo casas e arranha-céus, demolindo cidades, acabando com estradas, auto-estradas, linhas férreas?  E depois de este trabalho impensável ser feito, onde alojar os desperdícios,  todo o betão, todo o alcatrão,  todo o aço, todos os despojos, enfim, e a gigantesca montanha de lixo não degradável, não assimilável,  portanto, que resultaria desta hecatombe inverosímil?
Entretanto, a humanidade foi crescendo e lançando raízes , no âmago desta natureza artificializada,  foi -se habituando a viver em cidades de betão, em células mesquinhas a que se acostumou a chamar casas, a passear de automóvel por estradas construídas que esmagaram o solo e as espécies vegetais e atiraram os animais cada vez para habitats mais reduzidos e inapropriados,  poluiu terra, água e ar, mas diz que respira ar puro, modificou os alimentos e diz que faz uma alimentação saudável. ..
A sociedade humana é o reflexo desta degradação do mundo. E onde todos deveriam,  senão amar-se,  por serem da mesma espécie,  ao menos respeitar- se, por serem detentores de uma moral, surgem os conflitos,  entre vizinhos e à escala global; onde todos deveriam partilhar territórios e bens, surgem os muros, o boicote, a escassez e a fome. ..com o correlato de um gigantesco desperdício, mesmo ao lado; onde os líderes deveriam traçar as linhas para a solução dos gritantes problemas, visíveis a olho nu, assiste – se a uma manipulação contínua que falsifica intenções e corrompe a confiança .
E é por estas razões, e por muitas outras, cuja explanação total seria extremamente morosa, talvez impossível, que a eterna pergunta – o que é o mundo? – vai carecendo de resposta.

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