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DAVID CONTRA GOLIAS

Joana Benzinho

Em Portugal andamos desde janeiro a abrir telejornais com o Coronavirus, que entretanto ganhou nome próprio e passou a ser conhecido por Covid-19. São dias e dias, horas e mais horas televisivas do caos que foi tomando conta do mundo, das pessoas, da economia e da nossa liberdade. Dificilmente conseguimos fugir às noticias das mortes, da falta de capacidade de resposta dos hospitais um pouco por toda a parte, da dor estampada nos rostos de quem se depara com este vírus tão feroz quanto invisível.

Mas enquanto isso, há uma outra realidade na Guiné-Bissau, onde a falta de eletricidade dita muitas vezes a falta de acesso à informação televisiva e, havendo luz, raramente há dinheiro para o televisor, pois outras prioridades mais básicas se impõem. Na Guiné-Bissau, é fácil perceber que as notícias do Covid 19 não entraram porta adentro sem pedir licença falando de prevenção ou consequências, é tema pouco familiar ao cidadão comum, principalmente aos que vivem fora de Bissau. O coronavirus ali chegou em março de mansinho, quando por cá já se enterravam mortos, e tem feito mossa leve, felizmente sem vítimas mortais ou grandes números de infectados. Mas tem deixado gente infectada e criado medos. Até nos tradicionais curandeiros que afirmam não ter cura para tal mal, logo eles que sempre têm uma erva para dar resposta às doenças com que lhes batem à porta.

A população vive o temor da chegada da pandemia sem saber o que é, ao que vai e sobretudo como a evitar. Muitos gabaram o calor e a humidade do clima guineense como a maior arma contra o Covid-19. Há quem alegue a força de Deus, seja ele qual for, para livrar o país, como já o fez no tempo do ébola. Mas há também aqueles que acreditam na importância da distância social, no lavar as mãos como parte crucial desta luta contra a pandemia, no uso de luvas e máscaras, no confinamento como chave do sucesso. E um deles, o Mustafá, é um jovem activista guineense, que há dezanove dias adoptou uma missão a que podemos chamar de vida: sensibilizar a população para as regras básicas de combate à propagação do contágio pelo novo coronavirus.

Há dezanove dias que o Mustafá sai de casa pela manhã com uma coluna e microfone na mão e percorre a pé as ruas e ruelas dos bairros circundantes de Bissau a pregar – literalmente a pregar – sobre os comportamentos mais adequados a adoptar por todos. Nesta sua peregrinação, em que explica o que é o Covid-19, fala do que deve e não deve ser feito, já foi abordado e agredido pela polícia que se tem empenhado – por vezes em excesso – em fazer cumprir o confinamento imposto pelo estado de emergência instaurado, mas nem isso lhe tirou a vontade de informar e de sensibilizar. Aliás, depois da agressão, já esteve em várias esquadras a informar e a dar voz ao que tem aprendido sobre a melhor conduta social e comportamental a adotar em tempos de pandemia. Leva consigo um cartaz A3 que lhe serve de cartilha e umas máscaras sociais feitas em tecido de algodão que vai distribuindo gratuitamente pela população numa parceria com a ONGD Afectos com Letras.

Num país onde a falta de meios leva a que a televisão, a rádio ou os jornais tenham um papel insignificante na informação e formação em matéria de combate à pandemia, o Mustafá e a sua coluna de som representam o que de melhor a Guiné-Bissau tem: mesmo correndo riscos sérios de contágio (e de uso de excesso de força pela polícia por andar na rua em tempo de confinamento), e num cenário quase de David contra Golias, este jovem acorda todos os dias disponível para exercer em pleno a cidadania e o activismo empenhado com que luta pelo bem comum.

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