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Saúde e Vida

ALTERAÇÃO DO OLFACTO E A COVID-19

Carla Guimarães Cardoso

As alterações do olfacto têm uma prevalência estimada na população de 15%. Estas alterações podem ser quantitativas, em que há uma alteração da intensidade do olfacto com diminuição (hiposmia), ausência (anosmia) ou aumento (hiperosmia) ou qualitativas, em que há uma modificação da qualidade do odor.

Para cheirarmos as partículas odoríferas têm que chegar ao neuroepitélio olfactivo que ocupa a região mais superior das nossas fossas nasais. Aí estas partículas dissolvem-se no muco que cobre o neuroepitélio e ligam-se aos receptores olfactivos. Esta ligação vai activar  (despolarizar) os neurónios sensoriais olfactivos que por sua vez vão activar células no bulbo olfactivo. O bulbo é o primeiro nível do sistema olfactivo central e liga-se ao córtex olfactivo. Cada odor activa uma combinação particular de receptores olfactivos a que vai corresponder um mapa olfactivo único o que justifica a nossa capacidade de discriminar milhares de odores diferentes.

As perdas de olfacto podem ser devidas a perda de condução ( a partícula olfactiva não chega ou chega em quantidade diminuída ao neuroepitélio), perda sensorial (por lesão directa do neuroepitélio olfactivo) e por perda neural (por lesão do bulbo olfactivo ou das vias mais superiores). Estas lesões podem ser provocadas por doença nasossinusal, por infecção, por traumatismo, por doença neurológica ou doença congénita.

A anosmia pós-viral é uma causa pós infecciosa e corresponde a uma das principais causas de perda de olfacto no adulto (40%). Os vírus responsáveis pelas infecções das vias aéreas superiores (IVAS) são culpados frequentes das perdas de olfacto e estão descritos mais de 200 vírus que provocam este tipo de infecção. Entre estes encontramos os coronavírus já conhecidos e que provocam 10% a 15% das alterações de olfacto em contexto de IVAS. Não será então de estranhar que o SARS-CoV-2, responsável pela COVID-19 possa também provocar hipo ou anosmia.

Inicialmente de uma forma insidiosa mas com o evoluir temporal da infecção mais relatos surgiram fazendo exactamente esta relação. Neste momento vários estudos encontram-se em revisão para aceitação e futura publicação mas alguns números podem ser já apontados.

Numa série de 59 doentes hospitalizados em Milão COVID-19 positivos 1 em cada 3 apresentavam alteração do olfacto e/ou do paladar. Séries mais recentes apontam para valores de 2 em cada 3 doentes.

No Reino Unido numa série de doentes que reportaram anosmia 5% foram testados e desses 74% foram COVID-19 positivos.

O King’s College em Londres concluiu que a perda de olfacto e/ou paladar é um preditor de infecção por COVID-19 mais forte do que a presença de febre. No estudo efetuado, dos doentes testados COVID-19 positivo 59% referiram alteração do olfacto e/ou paladar.

A comunidade ORL suporta a noção de que a anosmia pode ser um sinal precoce de COVID-19. Assim, neste contexto de pandemia um doente com anosmia de novo sem história de traumatismo ou queixas de obstrução nasal deve ser considerado suspeito.

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