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Saúde e Vida

SOMOS TODOS FEITOS DA MESMA MASSA,NÃO SOMOS?

Joana Miranda

A paciente das 9h ficou feliz por ouvir a minha voz do outro lado da linha, “Eu tenho tido medo Dra, porque posso estar infectada e não saber, não é?”.  Somos todos feitos da mesma massa, não somos? Nunca pensei passar uma manhã de consultas a fazer telefonemas aos doentes. Por causa da pandemia e das medidas de contingência as consultas deixaram de ser presenciais. Não imaginava também as nuances que esta interação ia trazer, “Dona Maria, está a chorar, não está?”, do outro lado da linha não consigo observar as lágrimas, nem consigo oferecer um lenço à doente, como sinal de empatia e de presença.

O doente a seguir disse-me que a única coisa que o fazia feliz era a ida ao café, mas o café da aldeia agora estava fechado… “Pois é”, explico eu, “agora temos que ficar em casa por causa do vírus”. Somos todos feitos da mesma massa, não somos?

A utente que me atendeu o telefone a seguir sentia-se cansada. Disse-me que não andava a dormir nada bem e que quando adormecia tinha muitos sonhos estranhos. Somos todos feitos da mesma massa, não somos?

Houve um paciente que me disse que se não morresse do vírus, ia morrer de estar sozinho, “Quando é que isto acaba, Dra.?”. Não lhe sei responder, Sr Jorge, mas também queria que acabasse cedo… “Mas enquanto não acaba temos de nos aguentar. É importante que fiquemos em casa!”. Somos todos feitos da mesma massa, não somos?

Tinha uma chamada extra, de uma consulta que não estava marcada, mas que era urgente ser atendida. Era a mãe de um homem de 30 anos com défice cognitivo congénito (popularmente chamado de debilidade mental). “O que acontece, Dra, é que ele antes ia sempre para a Cerci e estava bem lá porque fazia actividades de carpintaria e gostava. Agora está em casa o dia todo, ele nunca passou tanto tempo em casa. Começa a ficar mais agitado e agressivo connosco.”  Pois, as rotinas mudam e se é difícil para todos, para alguns ainda mais. Se para aqueles que compreendem o motivo pelo qual temos que ficar em casa é difícil, imaginem para quem não compreende na totalidade. Somos todos feitos da mesma massa, não somos?

E depois das várias consultas telefónicas, tinha ainda o horário dedicado ao apoio emocional aos profissionais de saúde. Do outro lado, a enfermeira chorava, “O meu filho começou a andar ontem e eu não estava lá. Não estava e não vou estar nos próximos tempos…e não sei até quando. Acordo todos os dias com o coração a querer sair pela boca, nauseada… mas eu sou precisa aqui no hospital!”. O nosso corpo reage vegetativamente ao perigo. Ele quer fugir, tal como fugimos de um leão que nos persegue. Mas o perigo está no hospital e nós não fugimos, não podemos fugir. Pelo contrário, ficamos mais dias, mais horas, mais tempo, cortamos os laços à vida exterior. Não temos férias, nem horário agora. O corpo não percebe o que estamos a fazer, “Estou a tentar sobreviver e tu ficas aí???”. Por isso o choro, o coração a saltar, os pesadelos, os tremores e as dores por todo o lado. Somos todos feitos da mesma massa, não somos?

 

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