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Cultura, Literatura e Filosofia

TORNA-TE NAQUILO QUE ÉS

Regina Sardoeira

Torna-te naquilo que és”.  Escreveu Nietzsche , há mais de 130 anos ,no grande livro, “Assim falava Zaratustra”.
Um imperativo emanado do profeta persa que Nietzsche encarnou,  tendente a despertar as consciências dormentes dos homens de então ( e de hoje) em deslizamento perigoso para um abismo inumano.
Mas o que implica cumprir essa sentença? É preciso, antes de mais nada fugir de todas as interpretações negativistas, derrotistas, nihilistas e mecanicistas. Não estamos  perante o oráculo de Delfos lendo: “Conhece a ti mesmo”. O tornar-se quem se é passa , directamente , por uma análise das forças que constituem o homem e estas forças estão para além de qualquer identidade. Aqueles que seguem pela via  socrática devem desistir, porque deixam de tentar a auto -superação e acabam fazendo o contrário do que Nietzsche escreve, caindo invariavelmente no nihilismo negativo ou reactivo.
Tornar-se aquilo que se é implica, à partida, reunir um grande número de vivências, explorarndo aquilo que se é : este é o primeiro passo da escalada para si próprio. Significa conhecer as forças que nos constituem, que querem dominar e crescer. Trata-se, em Nietzsche, sempre de uma afirmação mais forte que a negação. O explorador afirma-se a si mesmo, assumindo uma posição  no mundo. A felicidade desta existência só pode estar em ela ser o que é! Mas o que é a existência? Vontade de Poder, nada mais do que isso, não poderia ser outra coisa: e nós mesmos somos esta Vontade de Poder.
“Torna-te quem tu és”, ou seja, apropria-te das forças que te constituem, toma parte no movimento de auto-superação a decorrer constantemente dentro de t i. O ser humano é um ponto do universo onde uma enorme quantidade de forças se concentram, se atravessam e por fim transbordam. Por isso, é preciso afirmar-se de tal modo que se possa ir sempre ao limite de si, expandindo-se, como uma roda que gira por si mesma. A expansão vem do cultivo  das vivências, do cuidado e da prudência de digerir e compreender o que nos acontece. É um processo que exige atenção e prudência: cultivar-se é fazer crescer as forças que nos habitam e podar as ervas daninhas que insistem em crescer no meio de nós.
Seguindo por este caminho, onde se realizam as ivências e os cultivos, as condições estão dadas. É preciso apenas jogar o jogo, ou talvez jogar-se no jogo. Escolher os remédios certos, estar sempre atento aos seus próprio estados, ser o senhor da sua grande saúde e, talvez mais importante ainda, de sua doença. Para Nietzsche, conhecer a si próprio é cuidar de si próprio, exercitar-se nesta arte, observando os  sintomas de decadência, elaborando um diagnóstico preciso a fim de  prescrever os remédios na hora certa.
Não nos resta nada mais para desejar,  além daquilo que fomos, daquilo que somos e viver de tal forma que o retorno de tudo seja uma bênção. Precisamos de ser aquele que diz Sim! Aquele que dá, que quer  afirmar-se a si mesmo e ao mundo não se escondendo na sombra de Deus, do Estado, dos pais, de qualquer autoridade. Quem somos? Um destino! Somos o conjunto de forças que precisa continuamente de elevar o seu grau de afirmação até ao limite, tornando-se, necessariamente,  diferente neste processo.
Quanta verdade suporta um espírito para a mais difícil das respostas? Eis a pergunta que devemos fazer-nos. Pois bem, não somos nada! Somos este caos que se perde na periferia de si mesmo, um animal na jaula, somos as ondas que quebram contra o rochedo, somos o deserto que se espraia num mapa de afectos, por onde os ventos cruzam e as dunas se movem. Sendo assim, devemos apenas aumentar o número de horizontes, e aprender a conjugar a verdade sempre no plural, criando  e povoando os nossos desertos. Compete-nos  sermos os porta-vozes da multiplicidade. Porque, afinal, é disto que somos feitos!
Um homem que se afirmou faz bem aos nossos sentidos; ele é talhado em madeira dura, delicada e perfumada ao mesmo tempo. Só encontra sabor no que lhe é salutar; o seu agrado, o  seu prazer cessam onde a medida do salutar é ultrapassada. Inventa meios de cura para injúrias, utiliza acasos ruins em seu proveito; “aquilo que não o mata torna – o mais forte”.
Deixar de negar-se, deixar de se iludir a si mesmo, deixar de se repartir e se esconder. “Sou fraco, sou um pecador, sou um fracassado, não posso fazer nada“ : em que mundo esta afirmação poderia ser nietzschiana? Nunca! É necessário lutar contra a gravidade, deslizar, fluir . O eu é uma ilusão criada pela precária hierarquia interna do corpo. Mas estas forças que nos constituem estão constantemente pressionando, arrastando, empurrando o homem de um lado para o outro. Quem crê no sujeito são os fracos. Tornar-se quem se é significa operar a transmutação de todos os valores, escolher outros, novos, brilhantes. Encontrar um modo de vida propício ao aumento das suas próprias forças vitais. Quebrar a corrente de escravo, não ter mestre nem Deus, não ter mais nenhum senhor além de si mesmo.
Nietzsche ensina, com o Eterno Retorno, e consequentemente o amor fati, o duplo sim. O asno, em Zaratustra, só sabe baixar a cabeça, os barulhos que ele faz lembram um “sim” animalesco, mas este sim apenas afirma a negação. Da mesma forma, o camelo que pede para ser carregado de muitos pesos também não é afirmador. Afirmar é afirmar duplamente, o que foi e as forças de transformação, o que é e também as forças de criação. Por isso dizemos que Nietzsche se afasta das doutrinas fatalistas e passivas já que o seu nihilismo é activo!
A grande preocupação de Nietzsche é que a afirmação seja completa. Afirmar-se a si mesmo é também afirmar as condições do universo que tornaram as forças activas possíveis. Neste sentido, arrepender-se é errar duas vezes. É preciso, antes de mais nada, dizer sim até para o que se mostrou errado. Cada negação é uma semente para o ressentimento e, por isso é necessário digerir o tempo, aprender a necessidade do que foi. Um sim sempre se multiplica na cadeia de eventos que o possibilitou, “olhei para trás, olhei para a frente, jamais vi tantas e tão boas coisas de uma só vez” (Nietzsche, Ecce homo).
A superação do ressentimento implica deixar de apontar o dedo à cara dos outros procurando culpados. Deixar de apontar o dedo para si mesmo, buscando ferir-se e limpar-se dos pecados. Não, é preciso criar novos valores para tornar-se aquilo que se é. É preciso estar sempre alerta, em estado de guerra, tornar-se guerreiro e preparar-se para a batalha constante. O conhecimento de si não pode acontecer sem um cuidado de si, que permite um crescimento contínuo, um vir a ser infinito. Fazer dos inimigos aliados, aprender a navegar nas tormentas.
Podemos apenas dar algumas coordenadas, mas o caminho deverá ser traçado por cada um. Primeiro, as vivências, um punhado de experiências para saber compreender cada vez mais aquilo que se é. Mas não é apenas de vivências que vive o ser humano, estas precisam ser cultivadas, para que cresçam, para que a parte mais forte de nós nos mostre caminhos e possibilidades. Em face disso tornamo-nos um destino, a própria força em nós gera a diferenciação. O passado, o presente e o futuro  fundem- se, não há mais um ponto de chegada. A grande saúde é este tornar-se o que se é. Esta é a maior afirmação possível, é a redenção da realidade, a possibilidade de transmutação de todos os valores, é o grande e esperado Sim que a vida aguarda e recebe exultante.

                               “Sim, bem sei donde provenho:

                       Insatisfeito, como chama em seco lenho m

                                    Vou ardente e me consumo.

                               Tudo o que toco faz-se luz e fumo,

Fica em carvão o que foi minha presa:

                                           Sou chama com certeza.  “

Nietzsche, Gaia Ciência

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