Cultura, Literatura e Filosofia

ESTRANHO MUNDO

Jorge Nuno

Parte I

Meio ambiente muito menos poluído; cidades desertas e animais selvagens a passear-se nelas; uma vaca no telhado; mortos a entrar nas contas dos recuperados; libertação de 10% dos reclusos existentes em Portugal e obrigatoriedade de levantamento de dinheiro no banco com máscara; fraude de milhões de euros com máscaras de proteção individual que nunca existiram; Máfia a perfilar-se para substituir o Estado italiano na proteção do setor empresarial no sul do país; preço do crude com uma descida vertiginosa de 306%[1] nos Estados Unidos da América [EUA], a ficar em valores negativos, devido ao mundo inundado de petróleo não consumido, e produtores de petróleo a pagar 37,60 dólares por barril, que eles próprios vendem… tudo isto, em plena pandemia.

É incrível a rapidez com que as rotinas, hábitos e aspetos económicos, sociais e culturais enraizados, e até o tão necessário bom senso, estão a ser alterados. Regista-se, pela positiva, um forte aumento de genuínos atos solidários, de altruísmo, e alegria em partilhar, sem esperar nada em troca. Pela negativa, mantêm-se alguns esquemas a pender para o ditatorial, de pressão, controlo de influência e instrumentalização de instituições e, outros, fraudulentos, para a obtenção de proveitos à margem da lei e dos mais elementares princípios éticos, quando se esperavam melhorias na mudança de atitude.

A principal potência económica e militar – EUA – pela voz do seu presidente, Donald Trump, pretendeu comprar a exclusividade da vacina que viesse a tratar ou abrandar a expansão da doença Covid-19, de modo a tirar vantagens económicas com a mesma. Constatou-se que o astronómico investimento no seu poder bélico de pouco tem servido para combater este inimigo invisível; prova disso, é o facto de entre os 4.800 membros da tripulação do porta-aviões “Theodore Roosevelt” – quando 92% dessa mesma tripulação já estava testada – surgirem 550 testes positivos, que levou à demissão do comandante, pelo facto de ter pedido a evacuação de uma parte significativa dos militares infetados. É o país com maior taxa de mortalidade mundial, provocada por este vírus, quando era suposto ser o mais bem preparado para o enfrentar. O seu presidente (talvez a pensar nas próximas eleições internas), pediu aos militantes do seu partido para se manifestarem a favor do “regresso da economia”, contra os governadores dos Estados sob influência do partido opositor, por estes estarem a favor do isolamento social e valorizarem a vida das pessoas, secundarizando a economia; hostilizou o regime chinês, abrindo uma “guerra comercial” prejudicial para ambas as partes e para o mundo, afirmou que esse regime tem vindo a ocultar os dados reais desta pandemia e, agora, pede-lhes desesperadamente ajuda. Acha que é hora de despedir Anthony S. Fauci – diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas, e principal especialista na matéria ao serviço do governo –, por ter corrigido o presidente durante conferências de imprensa e fazer recomendações opostas às intenções do presidente. Como se não bastasse, o presidente atacou a Organização Mundial de Saúde [OMS], acusando-a de má gestão, por não avaliar o risco da pandemia, por encobrir falhas e por ter beneficiado a China, e anunciou a suspensão do financiamento de cerca de 500 milhões de dólares a esta importante Organização, quando esta mais precisa de apoios.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, afastou do cargo o seu ministro da Saúde – o médico Luiz Henrique Mandetta –, por este seguir rigorosamente as orientações da OMS e opor-se à ideia do presidente, que entende não haver necessidade de isolamento social e não encontra justificação para que a economia pare. Fala em “histeria” e acha que as medidas adotadas contra o novo coronavírus representam “extremismo”. A pretexto da política preconizada pela OMS, atacou, verbalmente, governadores e todos aqueles que defendem o confinamento e muita prudência no regresso da atividade económica; incentivou manifestantes contra os respetivos governadores com ideias opostas à sua; fruto deste incentivo, em seis dessas capitais, viu-se grande quantidade de pessoas nas ruas a manifestarem-se – com o presidente numa delas – complicando o controlo sanitário nessas regiões, o que se tornou preocupante, uma vez que só a cidade de São Paulo tem 11,8 milhões de habitantes, mais do que a população de Portugal.

O presidente chileno – Miguel Juan Sebastian Piñera – surpreendeu o mundo, ao anunciar na televisão que os mortos, pela pandemia, entram nas contas dos doentes recuperados, uma vez que já não contagiam ninguém. Como se não bastasse, quase em simultâneo, foi referido que irão ser libertados – supostamente, para conter o avanço da pandemia –, mais de 100 condenados por crimes contra a humanidade, pelo envolvimento em mais de 3.400 casos de desaparecimento, assassinato, tortura ou sequestro, ao tempo, colaboradores do regime ditatorial de Augusto Pinochet.

Em Portugal, o presidente da República, sob proposta do Governo, indultou cerca de 1.200 presos – representando cerca de 10% do total de reclusos existentes – saindo, a pretexto de prevenir o contágio nas prisões, como se se tratasse de uma extensão, alargada, de licenças precárias. Serviu de chacota e, também, indignação de grupos de cidadãos, mas o curioso foi observar que houve reclusos, atingidos por esta iniciativa, a recusar sair da prisão. Contrariando afirmações recentes do presidente da República, foi anunciada a saída, com licença precária de 45 dias, por ato administrativo do Diretor-geral dos Serviços Prisionais (sem intervenção de um juiz do Tribunal de Execução de Penas), de um conhecido homicida, condenado a 23 anos de prisão, no processo Noite Branca; criada estupefação e mal-estar, a licença acabou por ser suspensa in extremis, devido a um processo pendente por agressão do recluso a guardas prisionais.

Enquanto o primeiro-ministro António Costa elogiava a capacidade de resiliência, o acatamento das orientações da Direção-geral de Saúde e a unidade dos portugueses nestes momentos difíceis para a vida do país e dos próprios cidadãos, ele próprio acabou por dividir os portugueses.

Creio que os portugueses entenderão, por exemplo, ver pela primeira vez: o papa Francisco sozinho na praça de São Pedro, no Vaticano, em pleno domingo de Páscoa ou o recinto de Fátima estar encerrado, a crentes e não crentes, no dia 13 de maio; não haver quaisquer desfiles oficiais, promovidos pelas centrais sindicais, e festas no Dia do Trabalhador; comemoração de simples aniversários em família alargada; funerais sem acompanhantes e pouquíssimos familiares; ter de ficar em casa, privado do direito constitucional de liberdade, e não poder sair à rua, com liberdade de escolha do destino… Não entendem, ou é difícil entender, como é possível anunciar, nesta altura, a presença de 300 pessoas num espaço fechado – a Assembleia da República – entre deputados e convidados (a que se juntam 100 funcionários no apoio logístico), na comemoração oficial do 46.º aniversário do “25 de abril”. Perante a indignação surgida de imediato – que o presidente da AR diz não entender –, esse número foi reduzido para 130, e logo passou para 100, quando se esperava que fosse anunciado o seu cancelamento. Não houve comemoração oficial na AR nesta data – importante para os portugueses –, nos anos de 1983, devido a marcação de eleições para esse dia, 1992 e 1993, por opção do ex-presidente Mário Soares e, em 2011, pela dissolução da AR e calendário eleitoral. As motivações para não as haver em 2020 são bem maiores, e seria um importante sinal positivo aos portugueses. Se naqueles quatro anos não havia evidências que a democracia estivesse em perigo, agora também não; e se estivesse, quem ocupa tão importantes cargos de Estado e se apregoa “defensor da democracia”, com estas atitudes irrefletidas, de autista ou de teimosia, acaba por dar força aos populistas e aos que pretendem um regresso ao passado e, naturalmente, espreitam todas as escorregadelas, como oportunidades para minar o terreno da democracia e beneficiar com isso. O presidente da “Associação 25 de Abril” – Vasco Lourenço, um “capitão de abril” – lamenta o “oportunismo disfarçado” de quem contesta as comemorações na AR, mas ele próprio contesta o elevado número de pessoas presentes e diz que não estará presente.

É, no mínimo, estranho ver os portugueses “presos” em casa e os representantes da nação, e convidados, a comemorar a liberdade.

(Continua em ESTRANHO MUNDO II)

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[1] Em 20-04-2020.

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