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Cultura, Literatura e Filosofia

O LEITO DURO DA AMIZADE

Regina Sardoeira
“Se o teu amigo está doente, oferece abrigo ao seu sofrimento, mas sê para ele um leito duro, uma cama de campanha; mais útil lhe serás deste modo.
E se o teu amigo te fizer mal, diz-lhe: <Perdoo-te o mal que me fizeste; mas o mal que fizeste a ti próprio, como poderei perdoá-lo?>
Assim fala o teu grande amor; ele sobrepõe-se mesmo ao perdão, mesmo à piedade.
É necessário segurar as rédeas do coração; pois, se lhas soltássemos em breve nos faria perder a cabeça.”
Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra
Num tempo em que vivemos de um modo nada habitual e as saídas ao encontro dos outros são condicionadas por razões compreensíveis e, de certo modo, absolutas , pensamos nos amigos que não podemos ver e valorizamos, até ao excesso, essa liberdade coarctada. Ansiamos por ela, queremos atirar-nos em quase voo, para as ruas, para as praças, para os bosques, para o mar… Mas o que vamos, de facto, fazer do nosso tempo, depois, que seja novo e fecundo? Estas horas de emparedamento, propícias à reflexão, ao refúgio, na interioridade de nós, ao despertar de fontes criativas que até agora desconhecíamos, ter-nos-ão revelado algum segredo, a pôr em prática, daqui para a frente?
Nietzsche fala dos amigos e da consolação que devemos dar-lhes, quando nos pedem abrigo, quando desabam perante nós em lágrimas doridas. E apela ao exercício da dureza!  Não será este um preceito que ronda a crueldade, relativamente a todos aqueles de quem gostamos e cujo sofrimento quereríamos aplacar? Não deveremos dar ao amigo em sofrimento a cama mais confortável da nossa casa e os afagos mais suaves que conseguirmos levar avante?
Vejamos, no entanto, que esse amigo que enfrenta penas e se afunda num desespero vão, precisa de apoio, mas vindo de uma voz firme, precisa de palavras de conforto mas que o relancem para as suas escaladas futuras. Se chorarmos com ele, nós próprios decaímos, perdemos força, igualamos esse que vem, em miséria, pedir o nosso consolo. Desse modo, não lograremos ajudá-lo, não lhe seremos útil: ao mesmo tempo que nos remetemos também ao desconsolo.
De modo nenhum podemos fazer nossos os males de outrem e resolver, por ele, as grandes questões que o afligem. De modo nenhum seremos capazes de sair de nós próprios, entrar no mundo interior do outro e avaliar os seus problemas, como se fossem nossos. Cada indivíduo traz consigo mundos impermutáveis, pensamentos e emoções que só mediocremente é capaz de transmitir, já que grande parte do que dizemos compreender, quando alguém nos fala de si, é, afinal, um eco, em nós, e logo a expressão do nosso próprio ser.
Então, é crucial que demos ao amigo que nos procura, em sofrimento, a orientação firme do caminho que ele tem que seguir, apenas ele, por mais espinhoso que seja. E devemos fazer com que o trilhe a sós.
É esta consciência de que estamos sós e que nessa solidão, em nós mesmos, temos de encontrar a voz que nos guia, sem lacrimejar, este sentido da necessidade absoluta de recuperarmos a energia, sabendo que um novo mundo nos espera, para lá das portas e janelas do nosso domicílio interior, a lição que precisamos de extrair do momento de crise ainda vigente. Nada de lamentações inúteis, nada de desesperos fátuos : é preciso que sejamos duros, que nos deitemos numa cama de campanha – a mesma que daremos também ao nosso amigo.
A piedade é destrutiva; e é-o duplamente. Nada faz pelo amigo que necessita de um braço forte e de um impulso sólido; e baixa, em nós, se lhe cedermos, o impulso vital.
E ainda que o amigo não nos entenda e nos responda com insultos, devemos perdoar- lhe o mal que nos fez : mas jamais estaremos aptos a perdoar o malefício que fez a si próprio e que virá, muito mais tarde, a perceber.
Moral de dureza e de rigor, esta que nos chega do longínquo século XIX, pela voz de alguém que conheceu, em primeira pessoa, o sofrimento, o abandono e a solidão. Que talvez houvesse desejado muitas vezes o conforto de um leito macio, mas que apenas pôde encontrar-se e viver , para além da sua doença,  nas rochas duras das montanhas, nos desertos gelados de que foi acometido. Precisamos de ouvi-lo – e de aprender com ele, neste momento, obscuro e partilhado, da nossa vida  de agora.

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