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UM SONHO CHAMADO RUBANE

Joana Benzinho

O turismo está congelado neste momento no mundo inteiro e na Guiné-Bissau não é excepção. Mas nem por isso os paraísos foram extintos por decreto ou deixaram de ter as suas qualidades intrínsecas que nos fazem ansiar pelo regresso. Tenho a enorme honra de conhecer a Guiné-Bissau de lés a lés, de ter explorado praias e areais virgens, onde pouco mais se vê para além de umas aves ou umas vacas a passear por lá. E garanto-vos que é um país cheio de segredos, cheio de recantos, de uma natureza exuberante e farta onde nos perdemos em momentos de contemplação.

A Ilha de Rubane é um dos mais bonitos exemplos desta explosão de beleza no país. Uma das 88 ilhas que compõem o arquipélago dos Bijagós, fica a dois passos de Bubaque, de Soga e de Canhabaque. Esta ilha sagrada pertence aos habitantes da ilha de Bubaque que ali vão sazonalmente cultivar o arroz, ficando por lá a pernoitar durante a época de colheita. Os Bijagós, tradicionalmente animistas ditam que aqui não se faça construção de carácter permanente e muito menos se derrame sangue ou se enterrem mortos. Aqui é assim, já na Ilha de Poilão, o chão sagrado de desova da tartaruga verde, é proibido ter relações sexuais. E assim segue a vida deste povo maioritariamente pescador e agricultor.

A Rubane chega-se pelo extenso cais flutuante que a Solange construiu para receber os turistas no seu paraíso, a que deu o nome de Ponta Anchaca. Este magnífico hotel construído de forma totalmente sustentável bordeja um longo areal de areia branca repenicado aqui e ali com chapéus de palha. As casas de madeira assentam em pilares que as elevam do solo e estão adornadas com amplas varandas que nos fazem entrar no mar, ou o mar entrar em nós, com as ondas a bater docemente a embalar as nossas noites.

Para lá do oceano, das casas e do magnifico deck onde se come do melhor que o mar e a Guiné-Bissau produzem, há uma densa floresta virgem que acolhe uma natureza borbulhante e onde até as aranhas, enormes, conseguem mostrar a sua beleza nas enormes teias buriladas entre árvores.

Os baobás, apesar da pouca sombra que produzem, embelezam o areal e dão o fruto – a cabaceira – que engana a fome e entretem as crianças que ao final da tarde brincam sem amarras e sem preocupações à beira-mar, com uma bola de pano ou as meninas com uma boneca às costas, tal como vêem as mães carregar os mais pequenos.

Nesta ilha vivem de forma permanente os funcionários do hotel da Solange, que são visitados pelas suas famílias em tempo de férias. São maioritariamente de Bubaque, de Canhabaque. Aqui recebem formação em hotelaria já que em simpatia já são peritos. Sempre me sensibilizou a forma como sinto estar perante uma grande família. Em que todos são merecedores de uma oportunidade. Lembro um caso muito particular de um senhor com uma deficiência profunda num pé que conheci a tratar dos jardins das casas do hotel, nas primeiras idas e que hoje é dos mais simpáticos e profissionais funcionários de sala. Foi aprendendo, assumindo responsabilidades e sobretudo ver-lhe reconhecido o esforço. Por ali sempre se ouve uma palavra de alento, se sente a pedagogia em cada reparo feito, se respira a boa disposição inata que reina entre eles e que transpira para nós.

A Solange, uma francesa de ar exótico e corpo franzino, comanda tudo com uma força inacreditável. Levanta-se ainda o sol não nasceu e organiza as saídas dos diversos barcos, a distribuição do combustível, a confecção e apresentação do pequeno almoço, almoço e jantar, os piqueniques de quem passa o dia fora ou os pequenos desejos de quem visita o Ponta Anchaca.

Vou ali há mais de uma década e não hesito em considerá-lo o melhor hotel do Arquipélago dos Bijagós.

Aqui temos a delicadeza da simplicidade, a qualidade e categoria do serviço de mesa, um clube de pesca que enche as medidas de quem gosta de se fazer ao oceano e chegar a terra carregado de troféus, aqui encontramos o mar quente que nos retempera o corpo e a alma. E o bar que ao final do dia nos delicia com umas ostras e um Gin tónico antes de um extraordinário carpaccio de peixe fresco com lima da terra. Há uns anos fiz um livro fotográfico da ilha para oferecer à Solange a que chamei a “terra dos sonhos”. Talvez hoje lhe chamasse “a ilha de sonho”. Porque é isso mesmo que melhor descreve Rubane.

Este sonho de ilha, este paraíso continua lá, na Guiné-Bissau. À vossa espera. À minha espera, à espera do fim da pandemia que não atingiu mas que nos impede de lá chegar.

Porque tenho a certeza que à chegada, lá estará de novo a Solange, com o seu tacão alto, franja, vestido curto e sorriso rasgado a dizer-me “bienvenue, ma chère”. E serão mais uns dias inesquecíveis no paraíso.

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