Home>Cultura, Literatura e Filosofia>A MULTIDÃO É MENTIRA
Cultura, Literatura e Filosofia

A MULTIDÃO É MENTIRA

Regina Sardoeira
A propósito da hora que vivemos e da verificação que tenho feito acerca do desejo de regressar à multidão que assola os indivíduos, quando tanto se apela ao distanciamento social, à parcimónia nas manifestações tácteis, a um certo isolamento, fui visitada por esta frase de Kierkegard. E, numa espécie de compulsão, não deixei mais de reflectir sobre o conteúdo de tão sábia sentença.
Percebo que, tal como Kierkegaard, defendo o Individualismo, não na sua forma básica e vulgar, pela qual os homens espezinham os outros homens, pela qual se vai acedendo a uma escalada de egocentrismo e se cultiva o mais extremo dos narcisismos, mas numa perspectiva de acesso profundo à própria subjectividade, que apenas nós, enquanto indivíduos, podemos sondar. Cada um precisa, antes de mais, de definir-se e apresentar-se, perante si mesmo, numa auto observação, tão lúcida quando possível, para descobrir quem é, o que quer da existência, que missão deve escolher para si, que talentos possui e deve incrementar, que fraquezas detecta e deve colmatar.
Não nos iludamos: vivemos individualmente, e é a sós, no segredo inviolável da nossa consciência, que existimos efectivamente; e apenas na mais estrita e profunda individualidade encontraremos o que há de nós, em nós. Curiosamente, Kierkegaard, nas suas obras (chamamos-lhe filósofo, mas não era esse o título que o próprio se atribuiu, decerto escritor ou panfletário, que assim acabou sendo, na sua curta existência) não se referia ao Homem, deste modo maiusculamente grafado, mas ao Indivíduo, única dimensão humana a que, de facto, somos capazes de aceder, enquanto consciência.
Se pensarmos na multidão, dificilmente conseguiremos defini-la. Trata-se de uma entidade multicéfala, multicorpórea, multicerebral, multiorgânica que, na simbiose, adquire uma personalidade própria? É um monstro acéfalo, incorpóreo, descerebralizado, desorganizado, incapaz de tomar qualquer decisão, enquanto tal? Existe, de facto, como suporte da palavra com que lhe aludimos?
Poderíamos multiplicar o questionamento; mas seria, provavelmente, muito moroso. E então direi, com Kierkegaard: “A multidão e mentira”! E ainda: “A verdade está no Indivíduo!”
Afinal, a sentença do dinamarquês equivale ao imperativo délfico – Conhece-te a ti próprio! – que (dizem) guiou Sócrates nos caminhos da sabedoria – ou da douta-ignorância, seu preferencial apodo. Foi a linha de pensamento de Sartre, que, negando deus, afirma que “estamos sós e sem desculpas”, absolutamente responsáveis pelos nossos actos. Poderia percorrer, por inteiro, a história do pensamento que, invariavelmente, encontraria o mote do reforço do individual, por oposição à turba. Mesmo Marx, o teórico/prático do comunismo – esse mito prodigioso que o Homem, não o Indivíduo, foi incapaz de entender cabalmente – assevera, numa das suas sentenças: “O livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos.” Cada um – o Indivíduo – Todos – a possível multidão.
Individualismo e comunismo, assim, deste modo irmanados, como se fossem expressões de uma mesma doutrina? Exactamente, não tenhamos dúvidas: apenas a ênfase no pleno crescimento individual poderá garantir o sucesso harmonioso do colectivo. Sermos donos e senhores do nosso eu, podermos elevar-nos, enquanto entidades autónomas – e isso é ser racional -, pautarmos toda a nossa acção nas linhas do imperativo categórico que ordena, com Kant, “Age de tal maneira que possas querer que a máxima da tua ação se converta em norma de conduta universal.”, seria a salvação disto, que dizemos ser, “A Humanidade” .
Não estou a ver outro caminho, não sou capaz de justificar, no específico momento que vivemos, nenhuma conduta colectiva que possa restituir-nos tudo aquilo que perdemos. Julgo que nos obstinamos demasiado em esconder a linha dos nossos pensamentos, o vigor das nossas certezas, o questionar das nossas perplexidades, para irmos em busca da receita, aquela, a milagrosa, que nos devolverá o admirável mundo novo, não o do romance de Aldous Huxley, mas o outro, que faria da nossa pobre sociedade – porque somos, socialmente, muito pobres – um verdadeiro lugar e uma verdadeira atitude existencial, moral e ética, capaz de nos devolver a nossa intrínseca e insubstituível individualidade.
Vejamos alguns exemplos: que valor tem ainda o acto eleitoral massivo, quando está provado, à saciedade, que aqueles em quem se vota nem sempre merecem, individual e colectivamente falando, uma réstia de confiança? Todos mentem, acreditem, e até os que falam verdade, estão, invariavelmente, a mentir a si mesmos. E é de tal modo prolixa a informação, que basta escutar – com os ouvidos, e com a inteligência racional que nos define – para não termos desculpa desse acto insensato que, periodicamente, praticamos, a fim de conferirmos a semelhantes enganadores o poder de decidirem os nossos destinos individuais. E, a outro nível, que significado humano podemos ainda atribuir à avalanche “cultural” de que quotidianamente somos alvo e nos bestializa, no uso e abuso do lugar comum, na repetição de chavões e fórmulas de viver que parecem ter os atributos da receita de existir e são, afinal, puros logros? Se quisermos ser honestos, de nós para nós mesmos – ou seja, individualmente, sem consultar o vizinho ou o “google”- veremos o terrível vazio em que nos deixamos, paulatinamente, envolver, por culpa da nossa cedência à multidão e à mentira.
A propósito: no contexto desta profunda e inquietante alienação e alucinação colectivas, alguém já se deu conta do estado efectivo da guerra em que estamos envolvidos? Guerra, exactamente, guerra. Os aviões  não sobrevoam os ares, as bombas não caem sobre as nossas cabeças…mas não sejamos ingénuos: esse era o modelo ultrapassado (ainda que mais honesto, porque visível – se podemos chamar de “honesta” a qualquer guerra) da Segunda Guerra Mundial e das outras, com diferentes armas, mas todas elas tangíveis! No nosso tempo, a guerra está disseminada e alastra de tal modo, nas pequenas e grandes atrocidades, perpetradas aos mais diversos níveis, que se tornou invisível, comum, quotidiana, banal: lidamos com ela como se nada pudéssemos, enquanto indivíduos, opor-lhe. E, quando ela chega, temível, e finalmente damos conta, não queremos acreditar!
A crise, falemos também dela, essa sombra fuliginosa a sobrevoar o nosso universo humano, a crise que não é mais do que uma artimanha guerreira daqueles que tomaram as rédeas do mundo (nós fomos consentindo) e agora a brandem, como arma mortífera, a torto e a direito…até à hora (que talvez nem chegue) em que formos capazes de usar o nosso cérebro esvaído e o nosso corpo depauperado e tirar-lhes o poder de decisão com que arruínam o nosso mundo de homens.
A solução está, pois, no Indivíduo, no discernimento intelectual que cada um possui mas parece que desistiu de usar, quando procura nos outros (homens como nós, mas que decidimos transformar em ícones ou messias) a solução que nunca, por essa via, nos será outorgada. Eles sabem disso e riem-se, à socapa ou escancaradamente, da ingenuidade com que lhes vamos dando vivas.
Não e possível crer na multidão, seja ela constituída por um milhão, uma centena ou uma dezena de indivíduos: ela, seja lá quem for a “coisa”, envolta neste pronome pessoal, é mentira, mente, mesmo quando fala verdade, porque os seus discursos visam um todo, que a nada corresponde, deixando à míngua o Indivíduo – única verdade possível neste mundo de homens a perderem-se, enquanto tal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.