Home>Cultura, Literatura e Filosofia>ESTRANHO MUNDO – PARTE III
Cultura, Literatura e Filosofia

ESTRANHO MUNDO – PARTE III

Jorge Nuno

O presidente da maior potência mundial e económica vê-se debaixo de fogo, no seu país, por não conseguir dar resposta efetiva ao controlo da pandemia. Desde o início desta, cerca de 38 milhões de cidadãos desse país ou a trabalhar nele, submeteram o pedido de subsídio de desemprego e, só em cinco semanas, registou-se cerca de 26 milhões de desempregados, a uma média superior a 5 milhões em cada semana. Até ao momento, é o país com mais mortes e casos de infeção confirmados por Covid-19 – e falamos de microrganismos, digamos “invisíveis” –. Pois à falta de resposta eficaz, o presidente afirmou que o número de casos de infeção é motivo de orgulho e avança com a oficialização da criação de um novo ramo das Forças Armadas – a Força Espacial –, como uma necessidade imperiosa de militarizar o espaço, que é com quem diz, preparar o país para deter o domínio da guerra espacial.

Incongruências acontecem um pouco por todo o mundo, fazendo com que aconteça mais do mesmo! Há logo quem se aproveite da pandemia para entrar no campo dos ilícitos criminais, com fraudes a pretexto de donativos, equipamentos ou soluções para esta pandemia, etc., etc…

Vejamos alguns casos:

O Gmail[1] divulgou que, só numa semana de abril de 2020, registou uma média diária de 18 milhões de e-mails falsos, relativos à Covid-19. Com domínios falsos ou software malicioso, havia o propósito de extorquir dinheiro, sob a forma de donativos ou outros, ou ter acesso aos dados pessoais dos utilizadores.

A Europol e Interpol, com apoio das autoridades financeiras da Alemanha, Irlanda, Holanda e Reino Unido, desmontaram um esquema fraudulento de fornecimento de máscaras faciais “inexistentes”, após clonagem de uma página de Internet de uma conhecida empresa – negócio a envolver muitos milhões de euros, um previsto transporte em 52 camiões, com direito a escolta policial, e que terá lesado as autoridades de saúde alemãs, com parte do dinheiro a ir parar ao Reino Unido e Nigéria.

A envolver o Reino Unido e Bélgica, uma suposta empresa farmacêutica, não legalizada, criou um nome muito semelhante à que está autorizada a produzir e comercializar um determinado fármaco. Deste modo, circula um medicamento falso, à venda através da Internet, para tratamento da Covid-19. Com embalagem idêntica, quem o adquire, pensa estar a comprar hidroxicloroquina ou cloroquina. O original poderá estar a apresentar, pontualmente, resultados favoráveis no combate a esta nova doença, mas as autoridades sanitárias insistem em alertar para várias contraindicações deste medicamento, que foi concebido para tratamento de outra doença – a malária.

No sul de Itália – a região mais pobre e com mais desemprego no país –, continua o receio, com fundamento, que possa voltar a ficar sob forte influência da máfia, após e ainda durante o novo coronavírus, caso o Estado não consiga apoiar a população e empresas necessitadas. As notícias mais sensacionalistas apontam: “Máfia mata a fome aos pobres”. A questão é que, com pouca empregabilidade e com a obrigatoriedade de encerramento de comércio, indústria e serviços, a máfia estará num ascendente junto desses setores, financiado agora para deixar os empregadores reféns.

Por cá…

A ASAE[2] recebeu, no primeiro mês em que foi declarada a pandemia, cerca de 4500 queixas por especulação de preços, o que levou a vários processos-crime e processos de contraordenação, por ser evidente estar-se perante a prática de obtenção de lucro ilegítimo em produtos como o álcool, gel desinfetante e máscaras de proteção individual.

O Centro Nacional de Cibersegurança e as autoridades de saúde, têm vindo a alertar para campanhas de smishing (phishing por SMS) – uso de App fraudulentas, roubo de informação confidencial, ou bloqueio de telemóveis, beneficiando financeiramente os infratores. Alguém que se faz passar pelo SNS – Serviço Nacional de Saúde, por uma entidade bancária ou, simplesmente, uma App que pretende dar informação sobre a pandemia em tempo real, e direciona o “lesado” para um site falso ou suposto homebanking. Constata-se a extorsão de 100 dólares em bit coin[3] para desbloquear cada telemóvel; acesso a dados do cartão de crédito, para uso indevido; direcionadas quantias generosas de donativos para contas que nada têm a ver com solidariedade…

Há quem se faça passar por médico e procure o contacto pessoal, selecionando, preferencialmente, pessoas idosas, como se fossem fazer testes, e acabam por burlar essas pessoas mais vulneráveis.

Com mais de 4,9 milhões de pessoas infetadas em 196 países e territórios, e registo de 323.370 mortes[4], há pessoas, sem escrúpulos, que se aproveitam da desgraça alheia e tudo fazem para ter elevados proveitos, com alguns a querer tornarem-se milionários facilmente, numa altura em que o mundo está numa fase de empobrecimento abrupto.

O seguinte provérbio oriental é muita realista: “tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que criam tempos difíceis”. Saibamos construir um futuro novo, para não se repetirem ciclos que não desejamos.

Obs.: Quanto à foto que acompanha a crónica… se fosse na região de Bragança, alguém diria logo: “Bô, e este agora!?… Emalucou!”. Acontece que um apreciável grupo de amigos (mais de cem), em poucas horas, reagiu favoravelmente a um meu post, em que lhes solicitava sugestões de penteado para um enorme cabelo, como forma de atenuar a falta de ida ao cabeleireiro, durante este período de confinamento. A verdade é que, na votação, o rabo de cavalo ganhou. E, afinal… optei pelo cabelo com tranças como a Pipi das Meias Altas! Expliquei-lhes que exerci o meu direito a ter opinião própria e pedi-lhes para não ficarem indignados, ao saberem que não respeitei o seu sentido de voto. Se formos a ver bem, ninguém mostrou indignação quando, num passado recente, uns ganharam as eleições legislativas e outros formaram o Governo de Portugal. Bem, houve alguns… lembro-me da Múmia e do Calimero, sendo que este, quando viu amputado o futuro, não parou de chorar durante meses, a dizer que o lugar era dele e não lhe deram as oportunidades que merecia. Quanto ao Submarino, esse, mais sabido e racional, simplesmente apressou-se a usar a fotocopiadora, até acabarem as resmas de papel ou o toner. E a conversa continuou referindo, a dado passo, o que disse o marido da minha mulher a dias, que tem uma prima que mora mesmo em frente a uma cabeleireira e que pintava o cabelo todos os dias, até estalar esta crise: “Pintar o cabelo faz mal à moleirinha, mas as clientes querem e eu faço a vontade!”. Eu não acho que me tenha feito mal à moleirinha!

No fundo, esta foto nada tem de estranho; pois estranho, estranho… parece estar o mundo! No entanto, no meio desta estranheza, alguns conseguem discernir com lucidez e extrair algumas revelações, um pulsar… Não fosse este último aspeto, poder-se-ia dizer: mas que estranho mundo!

———————–

[1] Serviço gratuito de correio eletrónico da Google.

[2] Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica.

[3] Moeda virtual, para transações eletrónicas (sem rasto…)

[4] divulgados pela Agência France Press em 20-05-2020, baseado em dados oficiais, mas que poderão ser muito mais graves, devido à incerteza relativamente aos números reais em África e América do Sul.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.