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Cultura, Literatura e Filosofia

LEMBRANÇA – MUDANÇA – ESPERANÇA

Jorge Nuno

Parte I

Por ocasião da inauguração do túnel do Marão, fiz uma abordagem às caraterísticas únicas do território transmontano, às suas gentes e à importância deste projeto e da autoestrada A4, tão necessários ao desenvolvimento da região. Decorridos quatro anos, em plena pandemia, foi estranho e confrangedor observar a falta de tráfego no túnel e autoestrada, fronteiras fechadas e a paralisação da vida económica e social. Sem estar centrado na pandemia, no nordeste transmontano, este texto (que surge em duas partes) não deixa de refletir essa estranheza, contrapondo com as caraterísticas – franqueza, hospitalidade e fé – da população transmontana.

Todos sabemos que este território transmontano foi apelidado de “Reino Maravilhoso”, pela mão e genialidade de Miguel Torga, que referiu nos seus escritos “(…) De repente, rasga a crosta de silêncio uma voz de franqueza desembainhada: Para cá do Marão, mandam os que cá estão!… Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena: – Entre!

A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.”

O dito popular “Para lá do Marão, mandam os que lá estão” [na ótica de quem vive no litoral] poderá ter alimentado a ideia generalizada – e o ego de alguns transmontanos, com toda a carga simbológica que representa –, que devido ao seu isolamento de longos séculos, com difíceis acessos, isso remetia-os para uma sensação de poder e de “independência”, sendo implícita a rejeição do poder centralizado da muito afastada capital do país. E foi esse poder centralizado que, por demasiado tempo, pareceu desconhecer a realidade e as necessidades “para lá do Marão”, agudizando o fosso entre o litoral e esta região do interior.

A região transmontana foi galvanizada com a criação da autoestrada A4 e com abertura do túnel do Marão – que fura, durante cerca de seis quilómetros, o “oceano megalítico”. Eu chamar-lhe-ia “encrespado e tortuoso oceano megalítico”, ao centrar a atenção na conhecida Estrada Nacional 15, quando tinha necessidade de a percorrer, acompanhando aquele serpentear na Serra do Marão. É certo que perdeu a importância estratégica que deteve durante imensos anos, e que deixarei de ver, lá bem no alto, aquela panorâmica inesquecível de cortar a respiração. Mas é incontornável que o túnel do Marão passou a ter um importante papel na aproximação entre o litoral e o interior transmontano, mesmo com a decisão das portagens definidas por quem está “para lá do Marão” [na ótica de um transmontano]. Sempre que entro no túnel, no sentido Porto – Vila Real, sinto que estou a entrar no Reino Maravilhoso e de lembro-me de Torga: “Esta terra é a própria generosidade ao natural. Como um paraíso, basta estender a mão”.

Quanto ao “nume invisível”, poderá entender-se como uma entidade superior, um ser divino, que inspira e/ou protege o homem [ao longo de séculos]. Aquele “Entre!”, pela voz celestial ou pela mão do poeta, representará a intenção de realçar a forma franca e hospitaleira do povo desta região. Creio que é esse “nume invisível” que o povo continua a aceitar, elevando as mãos e o pensamento ao Alto.

Tem sido assim desde há muitos séculos. Lembremo-nos da capela que o povo de Quintanilha ergueu, por volta de 1258, para venerar a Senhora da Ribeira. Segundo a crença popular, passada de boca em boca, uma rapariga pastora, muda, terá sido visitada por Nossa Senhora – que a deixou a falar –, para que pedisse à população que construísse uma ermida naquele local da aparição. Passadas cerca de três décadas, foi precisamente por aquele local que deu entrada em Portugal a jovem infanta Isabel de Aragão – mais tarde aclamada pelo povo como Rainha Santa Isabel e, por fim, beatificada, pelo papa Leão X e canonizada pelo papa Urbano XVIII.

Não consigo imaginar o sentimento com que esta jovem, filha do rei de Aragão, entrou neste Reino Maravilhoso, que também passou a ser seu. Esperava-a em Bragança o infante D. Afonso e, em comitiva, seguiram para Trancoso, onde se realizou a cerimónia de casamento com o rei D. Dinis, apesar de já ter havido, em Barcelona, o casamento [até então, inédito] por procuração. Pelos feitos corajosos, como pacificadora no reino, e por ter exercido tanta influência benéfica junto de pobres e necessitados – a que não foi alheio ser seguidora e devota de São Francisco de Assis – foi apelidada de Rainha da Bondade e da Paz. Terá sido ela própria a dar ordem para a reconstrução da ermida da Senhora da Ribeira.

Frei Agostinho de Santa Maria (séc. XVII) terá afirmado que este templo religioso era [à época] o de maior peregrinação em Trás-os-Montes.

Foi no princípio da década de setenta, do século passado, que eu soube da existência dos concorridos festejos dedicados à Nossa Senhora da Ribeira, que acabaram por se fixar no último domingo de maio. Durante vários anos, assisti a uma grande afluência de gente vinda das várias aldeias e cidades mais próximas e também de Espanha. Na cerimónia religiosa, fazem-se representar todas as paróquias das redondezas, onde surgem as imagens dos respetivos santos protetores, que desfilam em procissão. É agradável de observar aquela humilde crença inabalável, facto que tenho retido na memória. Regista-se, igualmente como agradável que, embora existindo, a poucos metros do local, uma “fronteira” entre os dois países, há uma missa em castelhano e outra em português, mas acima de tudo um convívio salutar e harmonioso entre estes dois povos irmãos.

(Continua na Parte II)

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