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Cultura, Literatura e Filosofia

A IDADE PÓS-EUROPEIA DE RÓMULO AUGUSTO A FRANCISCO FERNANDO

Marco Bousende

O Império Romano (SPQR – o Senado e o Povo de Roma) e a Civilização Grega foram para muitos, para mim certamente, as mais fascinantes civilizações da história. A Homero devemos muito do que é a literatura moderna ocidental. Em Histórias de Heródoto ou na História da Guerra do Peloponeso encontramos paralelismo com praticamente tudo o que se passa ou passou a nível psicológico, socialógico ou político nos últimos séculos no chamado Ocidente.

Caio Cílio Mecenas encomendou a Virgílio a história mítica da fundação de Roma por Rómulo. Otávio Augusto ‘’herdou’’ do seu pai adotivo o Império que viria a contar V séculos de glória. A expansão, atingiu o apogeu com Trajano Augusto em 117, sendo o Império um colosso transcontinental que abraçava com mão de ferro o Mediterrâneo. Foram construídas estradas, aquedutos, cidades… A ciência militar, bem destacada por Vegécio em Epitoma Rei Militaris e a cultura (saudoso Marco Aurélio Augusto) cresceram enormemente.

Contudo, e apesar do referido anteriormente, até o SPQR entrou em decadência. A corrupção e o despotismo aliado a um Império gigante já quase sem romanos, foi decaindo nos últimos séculos. O Império partiu-se várias vezes. Os usurpadores sucederam-se. Após a morte de Teodósio I em 395 o Império Ocidental (latino) separa-se definitivamente do Império Oriental (grego). O Império do Ocidente prosseguindo o estado convulsivo decadente, ainda teve algumas heroicas lutas pela sobrevivência, destacando-se as reconquistas de Flávio Aécio, conhecido pelo Último Romano do Ocidente. Entretanto as reformas estruturais nunca foram implementadas e o Império do Ocidente caiu em 475-476. Rómulo Augusto, curiosamente com o mesmo nome próprio do fundador mítico de Roma, foi deposto pelo líder bárbaro Odoacro, ele que tinha sido criado entre romanos. Esta data é muitas vezes referida como a entrada na Idade Média.

Seguiram-se séculos de penumbra, contudo o Velho Continente regressaria em força. Os Descobrimentos, liderados inicialmente pelos portugueses, permitiram uma expansão sem precedentes. A globalização começara. Nas artes o Renascimento iniciou séculos dourados da arte europeia. A matriz judaico-cristã serviu de base para o progressismo no caminho de mais humanismo e liberdade. Foram passos difíceis e duros, mas seguros numa longa caminhada.

Tal como o SPQR dominou a Idade Clássica, também os Europeus atingiram o apogeu. América, África, Ásia e Oceânia fizeram parte de uma civilização que chegou a ter sob seu domínio grande parte da área geográfica e a demografia mundial.

Não obstante também o Velho Continente entrou em decadência. As independências inevitáveis das colónias americanas reduziram as possessões imperiais. Manteve-se ainda o poderio do Império Britânico, entre outros com a sua temível Marinha Real. Portugal há muito que era uma sombra do passado. A temível Espanha Filipina era uma miragem. A França, ainda culturalmente forte, apresentava já uma fragilidade militar e de influência geopolítica óbvias.

Em 28 de junho de 1914 Francisco Fernando, Arquiduque da Áustria e herdeiro presuntivo do trono imperial Austro-Húngaro, foi assassinado em Sarajevo, capital da província austro-húngara da Bósnia e Herzegovina.

Eclodia a Primeira Grande Guerra Mundial. Seguiram-se anos de auto-destruição, entrincheiramento de uma Europa que caminhava para o suicídio.  As perdas humanas e materiais, o ódio e ressentimento criados, seriam embrião para a Segunda Guerra Mundial. A Europa teve de pedir ajuda aos Estados Unidos da América, seus filhos há muito emancipados.

A história do Velho Continente nunca mais seria a mesma. Tal como o SPQR caiu e se entrou na Idade Média, considero a morte de Francisco Fernando, com a eclosão da primeira Guerra Mundial, o fim da hegemonia da Velha Europa e a entrada na Idade Pós-Europeia.

P.S.

Para ser justo comigo mesmo, não posso deixar de relembra que tanto os Romanos tentaram reconquistar a glória passada após a queda, também os Europeus tiveram algumas tentativas de ressurgir.

Assim fica a referência a Flávio Belisário, O Último Romano, que a partir do Império do Oriente recuperou parte do Império Ocidental que tinha caído em mão bárbaras, e a Winston Churchill, se me permitem, O Último Europeu.

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